Em artigo publicado em 11 de outubro no portal A Terra é Redonda, intitulado Educar em tempos de realismo fascista, o professor Guilherme E. Meyer apresenta a educação para o pensamento utópico como resposta à extrema direita. O problemA burguesia não conserva o poder porque os trabalhadores não conseguem imaginar outra sociedade. Conserva-o porque controla os meios de produção, os bancos, o Estado e a repressão. Fazer da luta contra o pessimismo uma resposta ao fascismo é transformar um conflito material numa questão de mentalidade.
Meyer parte do conceito de “realismo fascista”, retirado do livro A ameaça interna, de Safatle. Seria a ideologia segundo a qual as crises do capitalismo não têm solução e, portanto, restaria salvar uma parte da sociedade e abandonar o restante. O autor associa essa definição ao “realismo capitalista”, de Mark Fisher, e ao “fatalismo neoliberal”, expressão usada por Paulo Freire.
Essa multiplicação de conceitos não esclarece o fenômeno. O capitalismo não é sustentado por uma crença coletiva em sua eternidade, mas pela propriedade privada e pela exploração do trabalho assalariado. Mesmo que um capitalista reconheça a miséria e a desigualdade, não abrirá mão de seus privilégios. Não lhe falta informação sobre os males do sistema o que interessa é mantê-lo.
A propaganda apocalíptica atribuída à extrema direita é utilizada pela própria esquerda reformista. Na disputa presidencial, setores dessa esquerda apresentam a vitória de Flávio Bolsonaro como uma catástrofe que obrigaria todos a votar em Lula, quaisquer que sejam suas alianças. Assim se justifica até a associação com Geraldo Alckmin, representante da direita. Aos trabalhadores, restaria aceitar a política burguesa para evitar um mal maior.
Parte da esquerda ecologista também anuncia a destruição do planeta como destino praticamente inevitável. Meyer, embora diga querer combater o fatalismo, descreve o presente como desesperador, marcado pela possibilidade de extinção em massa. Aceita, assim, boa parte do diagnóstico apocalíptico que pretende refutar.
O crescimento da extrema direita não decorre apenas de ideias pessimistas. São décadas de fechamento de fábricas, ataques a direitos e empobrecimento da classe média produziram enorme insatisfação. A direita explora esse descontentamento, apresentando-se como inimiga das instituições responsáveis pela crise, embora defenda os capitalistas. A esquerda que administrou a política neoliberal ou a apoiou em nome da governabilidade facilitou essa operação.
Em vez de propor a organização dos trabalhadores, Meyer pergunta como os educadores podem estimular o pensamento utópico. Explica que seu trabalho consiste em denunciar o fatalismo e apresentar sonhos de uma sociedade diferente. Uma aula, eventualmente, pode contribuir para a formação política, mas não substitui uma greve, uma ocupação de terras ou um partido revolucionário. Os trabalhadores tampouco precisam aprender a sonhar para reconhecer seus interesses.
Marx superou esse problema em 1845, na terceira das Teses sobre Feuerbach. Contra a ideia de que a transformação dos homens resultaria apenas de uma nova educação, observou que as circunstâncias são modificadas pelos homens e que “o educador tem ele próprio de ser educado”. Separar educadores e educados, como se os primeiros estivessem acima da sociedade, ignora a atividade revolucionária que transforma as condições sociais e os participantes da luta.
A formação política é necessária. O movimento operário possui uma longa tradição de jornais, escolas e estudo da teoria marxista. A diferença está na finalidade: a educação deve servir à organização e à ação dos trabalhadores, não substituí-las. O operário que participa de uma greve aprende sobre a luta de classes também ao enfrentar o patrão e as instituições que defendem a propriedade capitalista. Lênin já havia unido e mostrado a interdependência entre a teoria revolucionária e a prática.
O feudalismo também foi apresentado durante séculos como uma ordem permanente, justificada pela religião e pela tradição. Não caiu porque os senhores feudais se convenceram de que outra sociedade seria mais justa. A ascensão da burguesia, os conflitos de classe e revoluções como a francesa, de 1789, destruíram as bases do Antigo Regime. As ideias revolucionárias tinham força porque correspondiam a forças sociais em movimento.
Meyer retorna ao socialismo utópico ao reivindicar Charles Fourier e seus falanstérios, comunidades idealizadas como modelos de sociedade. Marx e Engels já haviam explicado o limite dessas experiências: os primeiros socialistas inventavam sociedades ideais e tentavam convencer a população de sua superioridade. Em Do socialismo utópico ao socialismo científico, Engels mostrou que a superação do capitalismo dependeria das contradições materiais do sistema e da luta proletária, não de um modelo perfeito.
Meyer insiste no caminho superado pelo marxismo. Apresenta romances como Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin, e O ministério do futuro, de Kim Stanley Robinson, como instrumentos para imaginar a vida depois do capitalismo.
A história oferece exemplos muito melhores. Em 1917, os trabalhadores russos, dirigidos pelos bolcheviques, derrubaram o governo burguês e tomaram o poder. Não aplicaram um modelo ideal concebido por professores. Intervieram numa crise revolucionária provocada pela guerra, pela exploração e pelo esgotamento do regime. Não se tratava de imaginar o futuro, mas de conquistar o poder.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), apresentado por Meyer como exemplo de projeto utópico, demonstra o limite dessa interpretação. Sua importância histórica não está, antes de tudo, nos cursos e escolas que desenvolveu, mas na mobilização de trabalhadores contra o monopólio da terra. Ocupações, acampamentos e confrontos com o latifúndio constituem a base de sua história.
O massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 19 sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar do Pará, mostra a natureza do conflito. O problema não é a dificuldade de imaginar uma sociedade sem latifundiários. É a existência de grandes proprietários que defendem suas terras com o apoio estatal. A educação desenvolvida pelo movimento é conquista da luta e pode fortalecê-la; não explica sua origem.
Meyer termina convidando o leitor à surrada ideia de apoiar ou criar projetos anticapitalistas. Cooperativas, comunidades experimentais e iniciativas ecológicas não eliminam o poder dos bancos, dos monopólios e do Estado burguês. O capitalismo não é um conjunto de hábitos ruins que possa ser substituído por bons exemplos. É um sistema de exploração protegido por uma classe dominante organizada.
A burguesia não está paralisada pelo fatalismo. Continua fazendo guerras, atacando salários, defendendo lucros e disputando o poder. Quem perdeu a perspectiva de uma alternativa foi a esquerda reformista, que trocou a revolução pela administração da ordem existente e procura compensar essa renúncia com discursos sobre esperança e utopia.
A classe trabalhadora precisa de um partido, um programa e uma política de luta contra a burguesia, não de uma “pedagogia dos sonhos” pequeno-burguesa que serve apenas para diminuir o atrito entre os trabalhador e burguês.




