Análise Política da Semana

Rui Costa Pimenta faz balanço da derrota do PT: ‘fim da linha‘

Presidente do PCO relacionou o resultado eleitoral à falta de respostas para a crise social e econômica

Lula

Na primeira análise após o primeiro turno, Rui Costa Pimenta avaliou que o resultado representa uma derrota histórica do PT e não deve ser tratado genericamente como uma derrota da esquerda. Para o presidente do Partido da Causa Operária (PCO), o eleitorado rejeitou a política adotada pelo PT desde que chegou ao governo federal, em 2002: administrar os efeitos da crise sem alterar suas causas.

Pimenta destacou que Flávio Bolsonaro obteve mais votos que Lula no primeiro turno e que a vantagem da direita também apareceu nas eleições para o Congresso e os governos estaduais. Mesmo uma eventual vitória de Lula no segundo turno, afirmou, não apagaria o resultado nem a força da oposição no Congresso.

“Aqui o que nós temos é um colapso da política do PT. É muito importante deixar isso claro”, disse.

O presidente do PCO ressaltou que Lula disputou a eleição no governo e usou medidas como o reajuste do Bolsa Família e o programa Desenrola 3, mas ainda assim não conseguiu impedir a derrota. Na avaliação de Pimenta, o resultado não pode ser explicado apenas por erros de campanha ou por um episódio isolado: expressa o esgotamento de uma política mantida ao longo de mais de duas décadas.

Pimenta situou as origens dessa política nos governos de Fernando Henrique Cardoso. As privatizações e a abertura do mercado, afirmou, reduziram a capacidade industrial do país e ampliaram o desemprego. O PT, porém, não rompeu com essa orientação quando chegou ao governo.

“A culpa que o PT tem nessa história é que o PT efetivamente não combateu a política do FHC. Ele não apoiou abertamente, mas também não combateu.”

O Bolsa Família e outros programas sociais aliviaram a situação de parte da população, reconheceu Pimenta, mas não reverteram a destruição econômica nem criaram uma perspectiva de desenvolvimento.

“O problema dessa política é que a política do governo Lula nunca passou disso. Quer dizer, uma política para que a população continuasse na mesma situação anterior, mas sofrendo menos. E essa foi toda a política do PT. Ela nunca foi mais longe do que isso.”

A conjuntura internacional favorável permitiu, por um período, ampliar programas e sustentar os governos petistas. Com a crise econômica, argumentou, a política perdeu fôlego. O golpe contra Dilma Rousseff, em 2016, foi um sinal desse esgotamento. Depois, o governo Lula teve a oportunidade de mudar de rumo, mas retomou a mesma orientação, enquanto a situação social se agravava e o emprego industrial não se recuperava.

Pimenta apontou o endividamento, o trabalho por aplicativos e a expansão das microempresas individuais como sinais da falta de perspectivas para os trabalhadores. Na sua avaliação, parte dos eleitores buscou em Flávio Bolsonaro uma saída para esse impasse, embora as propostas da direita também não resolvam a crise.

“O PT fracasou totalmente e entendeu isso. O Lula não entendeu. E ele não entendeu porque está fixado na política que ele começou em 2002.”

Para o presidente do PCO, uma política voltada aos trabalhadores precisaria enfrentar o parasitismo financeiro, interromper o pagamento da dívida pública e recuperar as empresas estatais.

“O país está andando para trás. O Brasil perdeu um terço da sua indústria. Há até 80 milhões de pessoas aí que não têm emprego de verdade. O PT foi empurrando com a barriga essa situação desde 2002 até agora. Mas a coisa chegou no fim da linha.”

Pimenta também relacionou a crise do PT à distância entre o partido e os trabalhadores. Afirmou que os governos petistas não reverteram a perda de direitos da classe operária e que, no mandato atual, medidas de ajuste e cortes em programas sociais agravaram essa desconexão. Criticou ainda a influência da política identitária no partido, que, em sua avaliação, entrou em choque com as preocupações cotidianas da população pobre.

Como exemplo, citou declarações de dirigentes que insultaram eleitores pobres por terem votado em Flávio Bolsonaro. Para Pimenta, esse tipo de postura expressa desprezo pela classe trabalhadora e ajuda a afastar o eleitorado. Também criticou a posição contrária à exploração de petróleo na margem equatorial, defendida por setores do PT e da esquerda. Em vez de rejeitar a atividade, disse, seria necessário defender a nacionalização do petróleo e destinar seus recursos à população.

O presidente do PCO avaliou ainda que a “frente ampla” não ajudou o PT nas eleições. A aproximação com setores da direita, afirmou, não ofereceu respostas à crise nem impediu o crescimento de Flávio Bolsonaro. Pimenta criticou também o lema “bandido preso e trabalhador protegido”, adotado pelo PT na campanha, por considerar que ele desloca o debate para a segurança pública sem apresentar soluções para os problemas sociais.

No início do programa, Pimenta criticou o uso da Justiça Eleitoral para retirar publicações da Internet. Disse que as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro recorreram a esse expediente e apontou a incoerência de setores que denunciam a censura apenas quando ela atinge seus próprios candidatos.

“Se o cidadão está me censurando, é errado. Se eu estou censurando o meu adversário, é correto. Essa é a questão da censura”.

Ao fazer o balanço da campanha do PCO, Pimenta afirmou que o partido enfrentou obstáculos judiciais e dificuldades para organizar sua participação eleitoral. Disse que o Partido recebeu o fundo eleitoral perto do fim da campanha e teve de lidar com impugnações de candidaturas e restrições administrativas. Apesar disso, avaliou o resultado como positivo: o PCO recebeu cerca de 80 mil votos nas disputas para governador e para o Legislativo, o dobro do resultado anterior, segundo os números apresentados por ele. Izadora Dias, candidata ao governo de São Paulo, obteve 25 mil votos.

Para o presidente do PCO, a eleição aponta para uma crise nacional e coloca como tarefa transformar o crescimento eleitoral do partido em força organizada.

“O que nós temos que fazer agora é discutir como transformar isso numa força política organizada, militante, um movimento amplo”.

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