O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que o PT cometeu uma série de erros que contribuíram para a derrota de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno e que a situação do presidente na disputa contra Flávio Bolsonaro é extremamente difícil. Em entrevista concedida a Leonardo Attuch, na TV247, nesta terça-feira (6), Pimenta criticou a defesa de Alexandre de Moraes, a proibição das apostas eletrônicas, as alianças com a direita e a campanha baseada em acusações contra o candidato bolsonarista.
O dirigente também defendeu que Lula apresente propostas concretas em benefício dos trabalhadores, como a estatização integral do petróleo, e condenou os setores da esquerda que passaram a atacar eleitores pobres por terem votado em Flávio Bolsonaro.
A entrevista ocorreu depois de Lula reconhecer publicamente que a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) havia prejudicado sua candidatura. Questionado sobre as possibilidades de recuperação do presidente, Pimenta lembrou que Flávio chega ao segundo turno em vantagem e ainda poderá receber grande parte dos votos dos demais candidatos de direita, que somaram quase 7% no primeiro turno.
Para Pimenta, um dos principais erros do governo foi a proteção oferecida a Alexandre de Moraes, mesmo depois das revelações do caso Master. O presidente do PCO já havia defendido, antes das eleições, que Lula exigisse o afastamento do ministro.
O dirigente explicou que o problema decisivo não é a discussão jurídica sobre os contratos do escritório de Viviane Barci de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, mas a maneira como a população recebeu as denúncias. Na entrevista, Pimenta afirmou que o eleitorado passou a enxergar Moraes como envolvido em um escândalo de propina.
“Eu vi que o PT não compreendeu o problema do Alexandre de Moraes. Eu vi muita gente discutindo, mas legalmente. O problema não é esse, o problema é o político, é a percepção das pessoas. O Alexandre de Moraes foi envolvido com uma propina de 200 milhões. É isso que todo mundo viu.”
Attuch observou que Lula e o presidente do PT, Edinho Silva, passaram a falar sobre uma possível mudança nos critérios de indicação dos ministros do STF. Pimenta considerou a proposta insuficiente. Segundo ele, diante da extensão da crise, discutir genericamente mudanças futuras não responde à exigência de afastamento de Moraes.
“Eu acho que medidas muito vagas não vão surtir absolutamente nenhum efeito. Acho que até as medidas mais nítidas vão ter dificuldade de surtir efeito. Agora, coisas vagas como ‘é preciso mudar a forma como está o Supremo’, isso aí não vai ter impacto nenhum. Pelo contrário, dá a entender que não vai mudar nada.”
Pimenta afirmou que Lula deveria ter defendido a saída de Moraes desde o início do escândalo. Para o presidente do PCO, o ministro está politicamente desmoralizado e dificilmente conseguirá permanecer no tribunal. Questionado sobre a possibilidade de negociações entre Moraes e o bolsonarismo, declarou acreditar que elas possam estar acontecendo, mas duvidou que a direita aceite um acordo que garanta a permanência do ministro. Uma saída negociada, avaliou, seria a melhor alternativa para o próprio Moraes.
Outro erro apontado pelo dirigente foi a proibição das chamadas bets, anunciada pelo governo Lula na reta final da campanha. A medida, criticada pelo PCO desde o início, atingiu milhões de brasileiros que utilizavam as plataformas de apostas e prejudicou também os clubes de futebol patrocinados por essas empresas.
“Tem gente que joga por diversão e tem gente que joga por desespero. Todos esses vão se voltar contra a medida que o Lula adotou. Não é pouca gente, isso é coisa de 20 milhões de pessoas. […] Eu vi o perfil do jogador, ele vai, acho, de 16 a 30 e poucos anos, os principais. Quer dizer, é um setor crucial em qualquer eleição, é uma faixa etária crucial.”
Pimenta chamou atenção para a reação de Lula às reclamações dos clubes. O presidente havia afirmado que os times precisariam encontrar outras formas de financiamento. Segundo o dirigente do PCO, a resposta revelou arrogância diante de um problema criado pelo próprio governo.
Attuch mencionou que Edinho Silva e integrantes da equipe econômica haviam se manifestado contra a extensão da proibição. Para Pimenta, essas divergências mostram que alguns dirigentes petistas compreenderam melhor o efeito eleitoral da medida. Entretanto, considerou que uma revogação improvisada, depois da derrota no primeiro turno, poderia agravar a situação.
Ao discutir a campanha do segundo turno, Pimenta criticou a insistência dos petistas em apresentar Flávio Bolsonaro como criminoso. Disse que denúncias sobre milícias, rachadinhas e outros escândalos podem ser verdadeiras, exageradas ou mesmo falsas, mas que a sucessão de acusações não está convencendo os eleitores.
“Eu acho que primeiro o PT precisaria mudar o estilo de campanha. Esse negócio de ficar acusando o Flávio Bolsonaro de ser um criminoso, visivelmente isso aí não dá resultado nenhum. O PT teria que se dar conta de que ele não tem toda essa autoridade moral que ele está arrogando. Isso eu digo diante da percepção geral da população. Então, na minha opinião, é uma política errada.”
O dirigente observou que uma parte do eleitorado votou em Flávio não por adesão às suas propostas, mas por rejeição ao governo Lula. Para conquistar esses eleitores, o PT precisaria apresentar uma perspectiva diferente daquela oferecida durante os últimos quatro anos.
Como exemplo, Pimenta mencionou a estatização integral do petróleo e a recuperação das empresas privatizadas do setor. A proposta permitiria apresentar uma disputa concreta entre os interesses nacionais e os grandes capitalistas que procuram controlar as riquezas brasileiras.
“Se eu fosse o Lula, nessa altura do campeonato, com toda essa dificuldade, eu colocaria, por exemplo, uma coisa como ‘vou lutar pela estatização total do petróleo’, uma coisa assim. Falar claramente, reestatizar a BR Distribuidora, enfim, mesmo que o mercado fique contra.”
Attuch observou que Flávio Bolsonaro pretende ampliar as concessões privadas na exploração de petróleo, inclusive na Margem Equatorial. Pimenta afirmou que a população compreende a importância dessa riqueza e que propostas para mantê-la sob controle nacional poderiam obter apoio popular.
O presidente do PCO lembrou a proposta de Bolsa Petróleo, apresentada pelo candidato do Partido ao governo do Amapá, como exemplo de uma reivindicação capaz de mostrar aos trabalhadores os benefícios da exploração das riquezas nacionais em seu próprio interesse.
Quando Attuch sugeriu que a estatização completa seria uma proposta utópica, Pimenta discordou. Afirmou que faltaram medidas dessa natureza durante o governo Lula. O PT passou a campanha defendendo a continuidade de sua administração, como se os trabalhadores estivessem satisfeitos com os resultados dos últimos quatro anos.
A conversa passou, então, às alianças do PT com a direita. Attuch perguntou se uma maior valorização do vice-presidente Geraldo Alckmin poderia ajudar Lula a conquistar eleitores conservadores. Pimenta rejeitou essa possibilidade e apontou o fracasso eleitoral dos setores burgueses reunidos na chamada frente ampla.
“Geraldo Alckmin eu acho que é uma derrota. […] Acho que por aí não vai acontecer nada, como não aconteceu, efetivamente. Você vê que o pessoal da chamada frente ampla, com algumas exceções, foi muito mal na eleição. O que mostra que esse pessoal é uma espécie de massa falida. O PT está aliado com a massa falida da burguesia, eu acho que isso daí não é uma boa.”
Para Pimenta, Lula precisaria convencer uma parcela do eleitorado de que seu eventual quarto mandato representaria uma mudança real. Isso exigiria enfrentar os interesses da burguesia, em vez de continuar governando com seus representantes.
O dirigente advertiu contra a subestimação de Flávio Bolsonaro. Segundo ele, setores petistas acreditam que o candidato da direita cometerá tantos erros que acabará perdendo a eleição por conta própria. Pimenta rejeitou essa expectativa e afirmou que o bolsonarismo é uma força popular que não pode ser tratada como a velha direita tradicional.
Questionado por Attuch sobre a votação recebida pelo próprio PCO, Pimenta explicou que apresentar propostas corretas não basta para superar a desigualdade de recursos entre os partidos. O PCO não dispõe do dinheiro nem da estrutura dos grandes partidos para realizar uma campanha eleitoral de massas com o mesmo alcance.
O presidente do Partido também considerou estranho seu resultado individual, inferior ao de diversos candidatos do PCO aos governos estaduais e ao Senado, apesar de ser nacionalmente mais conhecido. Diante da menção de Attuch a suspeitas de irregularidades eleitorais, Pimenta defendeu que o assunto possa ser discutido, sem transformá-lo em tabu.
Ao mesmo tempo, advertiu que o PT deve evitar qualquer tentativa de ganhar o segundo turno por meio de decisões judiciais ou medidas que pareçam uma interferência na disputa. Segundo ele, uma operação dessa natureza, especialmente se partir do STF, poderia provocar consequências políticas desastrosas.
Attuch perguntou também qual seria a posição do PCO no segundo turno. Pimenta explicou que a decisão será tomada em uma Conferência Nacional do Partido, marcada para domingo, e que nenhuma orientação definitiva havia sido aprovada até aquele momento.
Questionado sobre a possibilidade de apoiar Lula, afirmou que, pelo que vinha observando, a militância não estava particularmente inclinada a essa opção. A tendência mencionada por Pimenta era a neutralidade eleitoral, mas ele insistiu que a decisão caberia à Conferência.
“O Partido vai fazer uma conferência no domingo e vai discutir o posicionamento. […] Não está definido ainda. É uma tendência que tem dentro do Partido, pelo que eu tenho visto.”
Na parte final da entrevista, Pimenta condenou a hostilidade de setores lulistas contra os eleitores que votaram em Flávio Bolsonaro. Depois do primeiro turno, circularam pelas redes sociais publicações de eleitores petistas desejando que trabalhadores pobres sofressem as consequências de uma eventual vitória bolsonarista. Algumas defendiam que essas pessoas perdessem benefícios sociais, direitos e assistência do Estado como punição por sua escolha eleitoral.
Pimenta criticou essa postura e defendeu que a esquerda trate os eleitores com respeito. Atribuir a derrota à população, em vez de examinar os erros da própria política, seria uma manifestação de desprezo pelos trabalhadores.
“Eu orientaria também os propagandistas do PT a fazer uma campanha que não seja fascistoide como eles estão fazendo. Estão culpando o eleitorado e tal. […] Teria que tratar o eleitorado com respeito. […] Na rede social está lotado desses comentários absurdos.”
Attuch observou que não havia visto dirigentes petistas defendendo publicamente essa posição. Pimenta respondeu que as manifestações estavam disseminadas nas redes sociais, inclusive com pessoas afirmando que os eleitores deveriam sofrer para desejar posteriormente o retorno da esquerda ao poder.
Sobre as perspectivas do segundo turno, o dirigente afirmou que Lula enfrenta uma desvantagem difícil de superar. Sem algum acontecimento político importante, considera provável que o resultado reproduza aproximadamente a diferença observada no primeiro turno.
“Olha, eu diria que, a não ser que aconteça alguma coisa muito importante aí, nós vamos ver um resultado igual ou parecido com o que nós tivemos no primeiro turno. Quer dizer, o PT está no fio da navalha, ele está numa situação muito complicada.”
Antes de encerrar, Pimenta desejou boa sorte aos integrantes do PT, com os quais afirmou manter boas relações. Reiterou, entretanto, que o governo e a direção petista cometeram muitos erros e que a recuperação eleitoral dependeria de uma mudança profunda na política seguida até agora.




