A guerra contra o Irã transformou-se em um problema político de primeira ordem para Donald Trump dentro dos próprios Estados Unidos. A pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta semana colocou sua aprovação em apenas 32%, o menor índice de sua carreira política medido pelo instituto, contra 65% de desaprovação. Às vésperas das eleições de meio de mandato, os democratas aparecem à frente dos republicanos na preferência para o Congresso.
Não se trata apenas do desgaste normal de um governo. A política de Trump está rompendo a coalizão que o levou à Casa Branca. Ele recebeu apoio de uma parcela da burguesia norte-americana, interessada em preservar a posição dominante dos Estados Unidos no mundo, mas sua força eleitoral veio sobretudo de milhões de pequenos comerciantes, profissionais liberais, camponeses, trabalhadores urbanos, desempregados e habitantes das regiões destruídas pelo fechamento das indústrias.
Foi para essa massa que Trump prometeu empregos, reindustrialização, aumento da riqueza nacional e, principalmente, o fim das guerras intermináveis. O America First significava, para uma parcela importante de seus eleitores, que os recursos gastos para sustentar a dominação norte-americana pelo mundo deveriam permanecer no país. Trump chegou ao poder apresentando-se como adversário justamente da política que agora aplica.
Em vez de uma recuperação capaz de reduzir o desemprego, elevar salários e revitalizar a indústria, os Estados Unidos chegaram a uma dívida pública superior a US$40 trilhões. Ao mesmo tempo, a nova guerra no Oriente Médio fez o problema energético pesar diretamente sobre o bolso da população. A gasolina disparou e o diesel se aproximou de níveis recordes.
A situação do petróleo mostra o tamanho do problema. Amin Nasser, presidente da Saudi Aramco, afirmou que os estoques mundiais estão “assustadoramente reduzidos”. A dificuldade para normalizar a circulação pelo estreito de Ormuz mantém uma enorme pressão sobre os preços. O G7 precisou recorrer às reservas estratégicas para tentar aliviar o problema.
A política adotada pelos EUA produziu, portanto, exatamente o contrário do que Trump prometeu aos trabalhadores norte-americanos. O governo entrou em guerra para proteger os interesses internacionais do imperialismo e agora exige que a população pague a conta nos postos de gasolina, nos preços das mercadorias e no orçamento público.
Nem a ofensiva contra a Venezuela resolveu o problema. A tentativa norte-americana de ampliar o controle sobre as reservas venezuelanas de petróleo não foi suficiente para neutralizar as consequências da guerra contra o Irã. Para uma parcela da base trumpista, as agressões externas passaram a confirmar que o discurso contra as guerras era apenas uma promessa eleitoral.
O caso iraniano foi particularmente destrutivo para a imagem política de Trump. A Casa Branca apostou que conseguiria impor rapidamente uma derrota à Revolução Islâmica. Não conseguiu. O Irã respondeu aos ataques, desgastou a máquina militar norte-americana e mostrou que os Estados Unidos não possuem mais a liberdade de ação que tiveram durante décadas no Oriente Médio.
Trump conseguiu, assim, juntar dois problemas que prometera combater: a decadência econômica dentro dos Estados Unidos e as aventuras militares fora do país.
Sua declaração de segunda-feira (5), em Nebrasca, deu uma dimensão grotesca dessa mudança. Ao tentar minimizar os custos da guerra, Trump chegou a tratar a possível destruição de duas grandes cidades norte-americanas como um sacrifício aceitável.
“Eles poderiam destruir uma cidade. Que destruam Los Angeles, que destruam San Diego. Este é um preço muito pequeno a pagar”, declarou.
Os governantes dessas regiões tremeram de medo só de pensar que isso poderia ser um convite ao Irã para que os bombardeasse, revelando o verdadeiro espírito guerreiro dos americanos.
O governador da Califórnia, Gavin Newsom, chamou a declaração de perigosa. A prefeita de Los Angeles, Karen Bass, afirmou que o próprio presidente dos Estados Unidos estava colocando a cidade em risco. Mais importante que a disputa entre Trump e os democratas da Califórnia é o significado político da fala: o homem que conquistou milhões de votos prometendo colocar os norte-americanos em primeiro lugar passou a dizer aos próprios norte-americanos que suas cidades poderiam ser sacrificadas pela política externa do governo.
É algo que seria impensável vindo de um governo que se vende como aquele que castiga a todos os que não se submetem a ele. Ainda mais olhando para a história americana: o país só sofreu grandes ataques de um exército estrangeiro em seu território na guerra de 1812-1815 contra a Inglaterra, e ataques menores desferidos pelo Japão na II Guerra Mundial. A destruição de Los Angeles e San Diego seria muito maior que todos esses casos anteriores.
A guerra também aprofundou uma divisão que já se manifestava entre dirigentes e propagandistas do trumpismo.
Tucker Carlson tornou-se um dos críticos mais abertos da submissão da política externa norte-americana aos interesses de “Israel”. Marjorie Taylor Greene atacou diretamente o abandono da política do America First. Thomas Massie e Rand Paul também se opuseram à ofensiva militar e pressionaram para restringir os poderes presidenciais de guerra. Charlie Kirk havia igualmente manifestado preocupação com o envolvimento norte-americano em outra guerra de grandes proporções no Oriente Médio.
Seria um erro enxergar essas figuras como casos isolados. Carlson possui uma audiência de milhões de pessoas. Greene, Massie e Paul pertencem ao próprio campo republicano. Suas posições só ganharam tamanho destaque porque existe uma pressão real na base do trumpismo.
O problema é ainda maior porque a opinião pública norte-americana mudou profundamente em relação a “Israel” desde o início do massacre em Gaza. Pesquisas realizadas nos últimos anos registraram um crescimento sem precedentes da simpatia pelos palestinos e da rejeição ao governo israelense, principalmente entre os jovens.
A guerra de Gaza já havia atingido os democratas. Levantamento da YouGov para o IMEU Policy Project, divulgado em janeiro de 2025, mostrou que, entre eleitores de Joe Biden em 2020 que abandonaram Kamala Harris quatro anos depois, 29% apontaram como principal motivo a necessidade de acabar com a violência israelense em Gaza. A economia apareceu depois, com 24%.
O dado ajuda a explicar um dos fenômenos mais importantes da eleição de 2024. Uma parcela do eleitorado que havia apoiado Biden rompeu com os democratas por causa de Gaza. Alguns desses eleitores enxergaram Trump, justamente por sua propaganda contra as guerras e contra o chamado Estado Profundo, como uma alternativa.
A incorporação de Robert Kennedy Jr. e Tulsi Gabbard ao governo foi expressão dessa movimentação. Os dois haviam adquirido projeção atacando diferentes aspectos da política tradicional de Washington. Gabbard, particularmente identificada com a crítica às intervenções militares, entrou depois em conflito com a orientação externa do governo e perdeu espaço.
Trump recebeu, portanto, votos que não provinham simplesmente da direita tradicional. Uma parte de seu eleitorado foi atraída pela promessa de romper com o aparelho político responsável pelas guerras dos Estados Unidos. A ofensiva contra o Irã atingiu diretamente essa expectativa.
“Israel” ocupa uma posição central nessa crise. A pressão para proteger o Estado sionista não é resultado de alguma força sobrenatural exercida por Telavive sobre Washington. “Israel” é o principal posto avançado do próprio imperialismo no Oriente Médio, uma região decisiva para o petróleo, para as rotas comerciais e para o controle político e militar de três continentes. Ao defender “Israel”, Trump não está traindo os interesses da burguesia imperialista norte-americana. Está justamente defendendo esses interesses contra uma parte considerável de seus próprios eleitores.
É daí que surge a divisão.
Para os grandes monopólios, para o capital financeiro e para o aparelho militar, preservar a dominação dos Estados Unidos no Oriente Médio é uma questão estratégica. Para um trabalhador de uma antiga região industrial, um pequeno comerciante endividado ou um agricultor atingido pela crise, uma nova guerra significa gasolina cara, impostos, inflação e mais recursos destinados a operações militares no exterior.
Trump não pode satisfazer simultaneamente esses dois setores.
Quanto mais procura preservar os interesses internacionais da burguesia norte-americana, mais se choca com a massa que acreditou no caráter “nacionalista” de seu governo. É por isso que a crise do MAGA não deve ser explicada pelas brigas pessoais de Trump com Carlson, Greene ou qualquer outro dirigente. A divisão entre eles é o reflexo, no alto, de uma insatisfação que cresce por baixo.
Esse movimento tampouco está limitado ao Partido Republicano. Gaza abriu uma crise entre os democratas, principalmente entre jovens e setores populares. A guerra contra o Irã amplia o fenômeno do outro lado da disputa eleitoral.
Uma parcela da população norte-americana começa a tirar conclusões mais radicais contra as guerras, contra a grande burguesia e contra instituições que durante décadas foram apresentadas como sagradas. Entre os trumpistas, isso encontra terreno especialmente fértil porque boa parte dessa base já entrou em choque com o chamado establishment, com a imprensa tradicional e com o aparelho político de Washington.
Esse deslocamento não transforma automaticamente milhões de republicanos em socialistas. Significa, porém, que setores muito amplos da população começam a romper com elementos fundamentais da política da burguesia norte-americana. É justamente dessas crises que podem surgir movimentos independentes em torno de problemas concretos dos trabalhadores: emprego, salário, indústria, dívida, custo de vida e oposição às guerras.
As eleições de meio de mandato podem fornecer uma primeira medida eleitoral dessa ruptura. A pesquisa Reuters/Ipsos colocou os democratas sete pontos à frente dos republicanos na disputa pelo Congresso. Entre os independentes, a vantagem democrata é ainda maior. Uma derrota republicana em novembro seria uma derrota pessoal de Trump e reduziria consideravelmente a capacidade política da Casa Branca na segunda metade do mandato.
O Irã, portanto, ameaça impor aos Estados Unidos uma consequência que Washington certamente não calculou quando iniciou a guerra. Depois de impedir uma vitória rápida do imperialismo no Oriente Médio, Teerã pode ajudar a transformar a aventura militar em uma crise política no centro do próprio trumpismo. Trump foi eleito prometendo tirar os Estados Unidos das guerras. É justamente uma guerra que agora ameaça tirar de suas mãos o controle do Congresso.


