No Donald Trump e o perigo fascista, publicado neste sábado (3) em A Terra é Redonda, Alain Bergounioux e Gérard Grunberg pretendem demonstrar que Donald Trump, seu governo e o movimento MAGA constituem um fenômeno “de tipo fascista”. Para isso, recorrem ao “fascismo eterno” de Umberto Eco, em que não seria necessário encontrar nos Estados Unidos uma repetição do nazismo alemão ou do fascismo italiano; bastaria a presença de algumas características para surgir uma espécie de “coagulação fascistizante”.
Esse método permite encontrar fascismo em quase qualquer lugar. Autoritarismo, nacionalismo, perseguição a adversários e retórica agressiva aparecem em inúmeros regimes, inclusive em democracias liberais. Transformar essa lista numa definição de fascismo é substituir a análise das forças sociais por uma coleção de sintomas.
Os próprios autores afirmam que “basta que algumas [características] se manifestem para que se produza uma coagulação fascistizante”. Mas quantas? Quais? Em que combinação? E, principalmente, sustentadas por quais classes sociais e por quais interesses econômicos?
Trump aparece no artigo quase como uma força independente, capaz de arrastar os Estados Unidos e o restante do mundo para o fascismo por sua vontade, sua personalidade e sua retórica. O que é um grande erro
Hitler e Mussolini não chegaram ao poder apenas porque eram demagogos violentos. Sua ascensão ocorreu em sociedades varridas por crises econômicas e conflitos de classe. O chanceler alemão foi apoiado por setores importantes do grande capital. Na Itália, grandes proprietários e empresários também apoiaram Mussolini.
Ou seja, uma personalidade fascista não cria, por sua própria vontade, as condições materiais para um regime fascista. Esse dado no entanto, desaparece quando os autores tratam Trump como o centro explicativo de um fenômeno.
A ascensão da extrema direita europeia, para começar, antecede Trump. O Front National francês já possuía grande peso eleitoral; o Jobbik cresceu na Hungria nos anos 2000; a Aurora Dourada entrou no Parlamento grego em 2012; e a AfD foi fundada em 2013. A direita radical europeia ganha força após a crise econômica iniciada em 2008.
Trump, portanto, pode ser expressão de uma crise política mais profunda. O que não pode é ser apresentado seriamente como sua origem.
O mesmo problema aparece quando o artigo opõe fascismo e “democracia liberal” como se fossem dois campos absolutamente separados. Os autores chegam a apresentar a Segunda Guerra Mundial fundamentalmente como uma guerra travada pelos regimes fascistas contra os regimes democráticos.
Essa interpretação transforma uma guerra mundial entre grandes potências, marcada por disputas territoriais, coloniais, econômicas e estratégicas, numa batalha moral entre formas de governo.
As democracias liberais tampouco ficaram historicamente fora do colonialismo, das guerras de conquista ou da repressão. Nem por isso liberalismo e fascismo são iguais, mas mostra que “democracia contra ditadura” não explica conflitos entre Estados e interesses imperialistas.
O artigo também apresenta a política internacional de Trump como evidência de uma ruptura fascista. Entretanto, práticas intervencionistas norte-americanas são muito anteriores a ele.
Isso vale inclusive para a Ucrânia. Durante o governo Barack Obama, Washington apoiou a oposição a Viktor Ianukóvitch. Uma ligação vazada entre Victoria Nuland e o embaixador Geoffrey Pyatt mostrou altos funcionários norte-americanos discutindo preferências sobre a composição de um futuro governo ucraniano. Pesquisas também registram que organizações nazistas tiveram influência relevante no Euromaidan.
Há também um problema na maneira como os autores utilizam o 6 de Janeiro. Trump recusou-se a aceitar sua derrota em 2020, difundiu alegações de fraude e pressionou Mike Pence e outras autoridades numa tentativa de alterar o resultado certificado da eleição. Mas daí não decorre automaticamente a existência de um regime fascista. E Trump voltou à Presidência pelas eleições de 2024, não por meio de um golpe.
A questão, portanto, não é o que Trump gostaria de fazer, mas quais forças sociais o sustentam, quais instituições o limitam e que setores do capital apoiam suas políticas.
Os próprios autores citam declarações de Trump sobre ditadura, Constituição, adversários internos e poderes presidenciais, tratando intenção e capacidade material quase como a mesma coisa. Não são.
Um político pode desejar poderes muito maiores do que possui. Para transformar esse desejo num regime é necessário possuir uma força capaz de realizar essa transformação.
Trump, que sua fez campanha apresentando-se como adversário das “guerras prolongadas”, foi vencido pelo grande capital e seu governo terminou diretamente envolvido numa guerra contra o Irã. Em julho de 2026, a Casa Branca notificou formalmente o Congresso sobre a retomada das hostilidades; em setembro, Trump ainda afirmava que os Estados Unidos venceriam a guerra.
Isso mostra o limite de explicar a política pela personalidade de um presidente. Promessas eleitorais podem entrar em choque com interesses estratégicos, pressões institucionais e forças econômicas muito maiores do que ele.
Movimentos de massas como o MAGA não surgem no vazio. Há descontentamento econômico, perda de empregos industriais, crise dos partidos tradicionais, conflitos na própria burguesia norte-americana e rejeição às consequências de décadas de neoliberalismo.
Curiosamente, o próprio artigo reconhece que a extrema direita se alimenta da rejeição às consequências da globalização econômica e às transformações na estrutura do emprego. Mas, em vez de desenvolver esse ponto e procurar as forças sociais por trás do fenômeno, volta rapidamente ao “perigo fascista” encarnado por Trump e o transforma num enorme espantalho.
Militarismo, repressão, ingerência em outros países e poder crescente do Executivo aparecem como ameaças provenientes de Trump e da extrema direita, enquanto o próprio regime que praticou políticas semelhantes durante décadas surge como aquilo que precisa ser salvo.
Os autores chegam a perguntar se “assistiremos então a um golpe de Estado se os trumpistas perderem essas eleições” e depositam esperança na capacidade das democracias de resistirem àquilo que definem como uma nova onda fascista.
As democracias, no caso, tiveram governos como Obama e Biden, que destruíram países como Afeganistão, Líbia e Síria, além do apoio ao genocídio em Gaza. É para esconder esses criminosos de guerra que serve amedrontar as pessoas com o perigo do fascismo.




