Há um tipo conhecido de intelectual pequeno-burguês que, ao entrar em crise, conclui que o mundo inteiro entrou em crise junto com ele. Se perde suas referências políticas, afirma que as ideologias acabaram. Se não enxerga uma saída para o futuro, proclama o fim da história. Se sua camada social perde estabilidade, transforma a própria angústia numa característica universal da humanidade.
É aproximadamente esse o método empregado por Hans Ulrich Gumbrecht em Sociedade sem classes na atualidade, publicado neste domingo (4) em A Terra é Redonda. Professor da Universidade Stanford, Gumbrecht parte de impressões sobre o verão europeu, o futebol, a política e os hábitos de consumo para apresentar a tese extraordinária de que estaríamos vivendo uma sociedade “literalmente sem classes”.
O problema é que o autor olha para a sociedade a partir do seu próprio ambiente social e transforma aquilo que enxerga à sua volta na realidade do planeta inteiro.
Começa falando do verão europeu, passa pela Copa do Mundo, pelas guerras, por restaurantes sofisticados, viagens, ópera, golfe e cruzeiros e termina afirmando que as divisões tradicionais da sociedade estariam perdendo importância.
Em determinado momento, diz que categorias como “proletário”, “funcionário público” e “profissional liberal” teriam perdido boa parte de sua “atratividade”.
A questão é que “proletário”, porém, não é uma preferência estética. Um trabalhador assalariado não deixa de pertencer à classe trabalhadora porque compra um telefone celular caro parcelado. Um motorista de aplicativo não deixa de vender sua força de trabalho porque escuta a mesma música que um empresário.
As classes sociais não existem porque as pessoas gostam de reconhecer-se nelas. Existem porque ocupam determinadas posições nas relações econômicas da sociedade. E é justamente esse elemento objetivo que praticamente desaparece da análise de Gumbrecht.
O professor escreve, por exemplo, que jogar tênis ou golfe, assistir a óperas, fazer cruzeiros, realizar viagens educacionais e frequentar a universidade estariam ao alcance dos integrantes de uma suposta “classe média” em expansão. Uma observação característica de alguém que enxerga o mundo a partir de um setor privilegiado da pequena burguesia dos países imperialistas.
Quantos trabalhadores brasileiros fazem cruzeiros? Quantos podem passar as férias visitando monumentos barrocos do outro lado do oceano? E mesmo o acesso à universidade está longe de ser universal.
O fato de um trabalhador poder comprar uma raquete de tênis não acaba com a divisão entre capital e trabalho.
Segundo Gumbrecht, curiosamente, no lugar das antigas comunidades, das hierarquias e das lutas de classes teria surgido uma “individualidade plana”, voltada para preferências particulares.
Essa “individualidade plana”, porém, diz muito mais sobre o universo observado pelo autor do que sobre a humanidade. É o indivíduo pequeno-burguês isolado, afastado das grandes organizações coletivas e incapaz de enxergar uma saída política para a crise social. E que passa a interpretar a própria falta de perspectiva como ausência de perspectiva histórica.
O texto praticamente confessa isso quando fala em um “estado de espírito vago”, num presente que aparentemente já não poderia ser interrompido por grandes transformações. Mas qual presente?
O presente de um professor de Stanford certamente não é o mesmo de um trabalhador palestino sob as bombas, de um operário, de um trabalhador rural sem terra ou de milhões de pessoas esmagadas pelos baixos salários e pela exploração capitalista.
A ideia de que as pessoas passaram a existir como simples “corpos sem vínculo com grupos” é talvez a expressão mais acabada dessa concepção.
Não existem trabalhadores, burgueses, povos oprimidos, nações dominadas pelo imperialismo ou classes em luta. Existem “corpos”. O autor retira as classes da análise, e a própria ausência passa a ser apresentada como prova de que desapareceram da sociedade.
A classe trabalhadora, porém, não desapareceu. Ela mudou de composição inúmeras vezes desde o século XIX. Surgiram novos setores, profissões desapareceram e a tecnologia modificou o processo produtivo. Mas segue a divisão fundamental entre aqueles que vivem da exploração do trabalho alheio e aqueles que precisam vender sua força de trabalho para sobreviver.
É justamente por isso que a “sociedade sem classes” de Marx não tem absolutamente nada a ver com a imagem apresentada por Gumbrecht. Para Marx, ela não surgiria porque as pessoas deixariam de se identificar como operários ou burgueses. Seria produto da própria luta de classes.
Marx pressupõe a derrubada política da burguesia pelo proletariado, a conquista do poder pelos trabalhadores, a expropriação da classe capitalista e uma transformação profunda das relações econômicas que dão origem às classes sociais. Não é uma mudança de estado de espírito. É uma revolução social.
Gumbrecht, ao contrário, apresenta como “sem classes” uma sociedade em que os bilionários continuam bilionários, os trabalhadores continuam trabalhando, a burguesia controla os bancos e os grandes monopólios dominam a economia mundial.
Ele próprio reconhece que a pobreza não desapareceu. Mesmo assim, compara absurdamente sua sociedade da “individualidade plana” ao conceito marxista de sociedade sem classes.
A comparação é completamente arbitrária. É como afirmar que a propriedade privada deixou de existir porque as pessoas não conversam mais sobre ela durante o jantar.
Outro aspecto revelador aparece quando o autor tenta explicar a política atual.
Gumbrecht, tentando explicar a política atual, fala que o enfraquecimento das antigas identidades estaria levando à substituição das posições ideológicas tradicionais por negociações de curto prazo e coalizões cada vez mais flexíveis.
Ocorre que a crise dos partidos tradicionais, o esvaziamento político da social-democracia, etc., não resultam do desaparecimento das classes. São manifestações da crise do próprio regime político burguês.
Os partidos que durante décadas se apresentaram como representantes dos trabalhadores foram integrados ao Estado capitalista e abandonaram qualquer programa de transformação social. A política converteu-se cada vez mais numa administração dos interesses do grande capital.
O trabalhador percebe que vota, troca o partido no governo, e continua pagando aluguel, juros, transporte e alimentos cada vez mais caros. É daí que nasce boa parte da descrença no sistema político, não de uma misteriosa mudança na “temporalidade”.
A análise das guerras também revela esse afastamento da realidade. Gumbrecht chega a escrever que os conflitos na antiga União Soviética e ao redor do estreito de Ormuz continuarão “entretendo a opinião pública mundial”.
Guerras que matam milhões de pessoas, destroem cidades e deslocam populações inteiras aparecem como um espetáculo monótono para observadores cansados. É novamente o mundo visto da arquibancada. A guerra seria enfadonha porque o espectador se cansou dela. A humanidade, porém, não está parada.
Crises econômicas, guerras, revoltas populares, greves e o aprofundamento das contradições sociais demonstram justamente o contrário da tese do professor.
Gumbrecht olha para uma sociedade cheia de contradições e não consegue identificar uma força capaz de resolvê-las. Conclui então que não existem mais forças históricas. Olha para uma pequena burguesia desorientada e conclui que desapareceram as identidades coletivas.
Finalmente, o autor olha para si mesmo e para o ambiente social em que vive e conclui que encontrou a humanidade inteira. Mas não encontrou. O que encontrou foi apenas mais um pequeno burguês em crise.




