Uma das propostas que mais chama atenção no programa apresentado pelo Partido da Causa Operária (PCO) nas eleições de 2026 é o aumento radical do salário mínimo. Rui Costa Pimenta, candidato do PCO à Presidência, vem defendendo durante a campanha um piso próximo de R$8 mil. À primeira vista, diante do atual mínimo de R$1.621, a diferença parece gigantesca. Ela é. Mas a cifra não apareceu do nada.
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o DIEESE, calcula mensalmente quanto deveria valer o salário mínimo para cumprir aquilo que a própria Constituição determina: atender às necessidades de alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e Previdência de um trabalhador e sua família.
Em agosto de 2026, último dado disponível, esse salário deveria ser de R$7.565,86. É 4,67 vezes o piso oficial de R$1.621. Em junho, o cálculo chegou a R$8.110,92. Portanto, quando o PCO fala em um mínimo na casa dos R$8 mil, está defendendo um valor bastante próximo daquele apontado pelo próprio DIEESE como necessário para sustentar uma família de quatro pessoas.
Esse dado permite colocar o problema de outra forma. O que deveria causar espanto não é alguém propor um salário de R$8 mil. Deveria causar espanto que o salário mínimo brasileiro corresponda a pouco mais de um quinto do valor calculado como necessário para uma família.
A diferença aparece todos os meses na vida do trabalhador. Em agosto, mesmo em Teresina, uma das capitais onde a cesta básica é mais barata, um trabalhador remunerado pelo mínimo teve de comprometer 46% do salário líquido apenas para comprar os alimentos básicos pesquisados pelo DIEESE. Ainda faltariam aluguel, água, luz, gás, transporte, remédios, roupa, educação e todo o restante.
O argumento utilizado pelo PCO parte justamente daí: salário não é apenas um custo para o patrão. Salário também é a principal fonte de consumo de dezenas de milhões de pessoas.
Quando um trabalhador recebe mais, esse dinheiro tende a voltar rapidamente para a economia. Vai para o supermercado, a farmácia, o aluguel, a roupa, o restaurante, os móveis, o transporte e outros serviços. O trabalhador que ganha pouco não deixa de consumir porque prefere guardar seu dinheiro: simplesmente não possui renda para fazê-lo.
Há dados recentes que mostram a importância dessa relação. O DIEESE observou em setembro que, apesar da desaceleração da economia brasileira, a valorização do salário mínimo, os ganhos obtidos nas negociações coletivas e as transferências de renda contribuíram para sustentar a renda e o consumo. O IBGE também apontou crescimento do consumo das famílias em 2026 associado, entre outros fatores, ao crescimento da massa salarial real.
Essa é uma questão decisiva para um país do tamanho do Brasil. Com mais de 200 milhões de habitantes, o mercado interno deveria ser uma das grandes forças da economia nacional. Entretanto, milhões de pessoas recebem salários tão baixos que grande parte de sua renda desaparece apenas com as despesas mais elementares.
Mesmo depois dos ganhos recentes no mercado de trabalho, o rendimento médio continua distante do mínimo necessário calculado pelo DIEESE. No primeiro trimestre de 2026, o rendimento médio real de todos os trabalhos ficou em R$ 3.722. Entre empregados do setor privado com carteira, os valores são ainda menores que a média geral.
O PCO contesta, por isso, a maneira habitual como o problema salarial é apresentado. Sempre que se fala em grande aumento do mínimo, a primeira pergunta costuma ser: “como os empresários vão pagar?”. Quase nunca se começa pela pergunta oposta: como o trabalhador consegue viver recebendo R$1.621?
E há outro elemento no argumento. O aumento dos salários não dependeria apenas de um decreto presidencial. Rui Costa Pimenta relaciona o baixíssimo nível salarial brasileiro à fraqueza e à fragmentação da organização sindical.
O Brasil possui sindicatos divididos por cidades, regiões, categorias estreitas e, em certos casos, até por diferentes funções dentro de um mesmo setor. Trabalhadores que exercem atividades semelhantes podem receber salários muito diferentes dependendo do estado ou município.
Essa estrutura favorece o empregador. Uma greve pode elevar o salário dos metalúrgicos numa cidade, enquanto trabalhadores equivalentes de outra região continuam ganhando muito menos. A existência de uma grande quantidade de mão de obra recebendo salários inferiores exerce pressão permanente sobre quem conquistou uma remuneração melhor.
Por isso, também é necessário formar grandes sindicatos nacionais por categoria. Em vez de dezenas de sindicatos de metalúrgicos espalhados pelo País, por exemplo, é preciso uma organização nacional capaz de reunir centenas de milhares de trabalhadores e negociar para toda a categoria.



