Gilmar Mendes entrou em campanha para proteger Paulo Gonet. Durante a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) de terça-feira (15), convocada para discutir as revelações do caso Master, atacou André Mendonça assim que o nome do procurador-geral da República surgiu no debate. Chamou o colega de “boneco de campanha” e “pixuleco eleitoral”, acusou-o de agir por vingança e tentou desmoralizar a condução das investigações.
Na quinta-feira (17), Gilmar voltou ao assunto em uma publicação nas redes sociais. Declarou que o procurador-geral tem “reputação ilibada e vida pública de lisura insuspeita”, afirmou que a honra de Gonet fora “injustamente manchada” e acusou Mendonça de tentar obter vantagens eleitorais com a divulgação dos documentos. Ao final, manifestou “integral solidariedade” ao chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A intervenção ocorreu depois da retirada do sigilo de mensagens encontradas pela Polícia Filial no telefone do banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo o relatório policial, o advogado Ciro Soares encaminhava ao antigo controlador do Banco Master mensagens atribuídas a Gonet. Outros diálogos mostram Vorcaro pedindo a Alexandre de Moraes que procurasse o procurador-geral e o diretor da Polícia Filial, Andrei Rodrigues, para tentar impedir uma operação contra o banco.
Embora citado no documento, Gonet pediu a anulação do relatório da PF. Alegou que Mendonça havia usado a corporação para impor uma investigação sobre Moraes, mas não tratou do conteúdo das menções ao seu próprio nome. Gilmar seguiu o mesmo caminho: deixou de lado os vínculos expostos pela investigação e concentrou os ataques nos procedimentos adotados pelo relator.
Gonet negou qualquer proximidade com Vorcaro. Disse ter conversado com ele uma única vez, de forma breve e banal, durante um evento com outras autoridades. Dias depois dessa declaração, veio a público uma fotografia dos dois em Londres, em abril de 2024, fumando charutos e bebendo uísque ao lado de Ciro Soares. A PGR afirmou que a imagem foi registrada no mesmo evento mencionado por Gonet e que não demonstra irregularidade, embora mostre uma evidente contradição entre conversar brevemente e fumar o charuto de Vorcaro.
Antes mesmo da divulgação da fotografia, Gilmar havia abandonado qualquer aparência de neutralidade. Em vez de cobrar apuração, atacou o relator, afirmou de antemão que os diálogos nada tinham de ilícito e concedeu ao procurador-geral um atestado público de inocência. André Mendonça respondeu que a preocupação com a exposição de pessoas estava sendo usada de forma “seletiva”.
A ferocidade de Gilmar não é jurídica. Ele e Gonet mantêm relações empresariais, acadêmicas e políticas desde o século passado.
Em 1998, os dois fundaram, com Inocêncio Mártires Coelho, o Instituto Brasiliense de Direito Público, atual Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). Gonet possuía 43,44% do capital social do instituto. Permaneceu na sociedade por 19 anos e, em 2017, transferiu sua participação para Francisco Schertel Mendes, filho de Gilmar.
Mesmo depois de deixar o quadro societário, Gonet continuou como professor do IDP, uma das principais empresas privadas de ensino jurídico ligadas às altas autoridades de Brasília. O instituto também organiza o Fórum Jurídico de Lisboa, apelidado de Gilmarpalooza, uma verdadeira orgia entre ministros, procuradores, políticos, banqueiros, grandes capitalistas e advogados.
Em 2007, Gilmar, Gonet e Inocêncio Mártires Coelho lançaram o Curso de Direito Constitucional. A obra chegou à 21ª edição em 2026, agora assinada por Gilmar Mendes e Gonet. Há quase duas décadas, os antigos sócios dividem a autoria e o prestígio acadêmico de um livro usado em faculdades e concursos jurídicos.
Gilmar omitiu esses vínculos ao sair em socorro do procurador-geral. Falou como se não tivesse relação pessoal com o homem cuja inocência proclamava. Tratava-se, porém, de seu antigo sócio, professor do IDP, coautor de longa data e integrante do mesmo grupo de poder dentro do Judiciário.
Os dois também estiveram do mesmo lado durante a Lava Jato. Em 2016, Gonet representou a PGR na Segunda Turma do STF no processo contra Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo. Sustentou a acusação de corrupção e lavagem de dinheiro pela suposta entrega de R$1 milhão, proveniente da Petrobrás, à campanha de Gleisi ao Senado em 2010. Em 2018, a própria PGR voltou atrás e pediu a rejeição da denúncia. Os dois foram absolvidos.
Em 2019, quando o governo Bolsonaro cogitava Gonet para comandar a PGR, a deputada Bia Kicis apresentou o procurador ao Palácio do Planalto e classificou como “impecável” sua atuação nos processos da operação que chegaram ao STF. Gonet era então promovido pela direita como um nome identificado com a ofensiva lavajatista.
À frente da PGR, continuou defendendo os resultados da operação. Em março de 2025, recorreu da decisão de Dias Toffoli que havia anulado processos contra Antônio Palocci. Sustentou que as ações da Lava Jato pareciam legítimas e apoiadas em elementos concretos e pediu que a anulação fosse reconsiderada.
Gilmar também apoiou a Lava Jato quando ela atacava o PT e preparava o golpe contra Dilma Rousseff. Em 2015, votou para ampliar a competência da 13ª Vara Federal de Curitiba para além das investigações diretamente relacionadas à Petrobrás. O ministro que agora acusa Mendonça de repetir os métodos de Sérgio Moro ajudou a entregar poderes excepcionais à operação quando ela devastava a economia nacional e perseguia o PT.
Gilmar só se tornou crítico da Lava Jato por puro oportunismo, quando a operação passou a ameaçar setores mais amplos da burguesia e os seus aliados. Agora invoca os crimes e abusos da quadrilha de Moro para proteger Gonet e a quadrilha de Moraes. O direito de defesa vale, para o bandoleiro mais velho da Corte, quando serve aos integrantes de seu grupo.
Assim como tudo o que ocorre no STF, Gilmar Mendes age de maneira absolutamente irregular para fins pessoais. No caso, para proteger um confidente, um cúmplice da atuação parasitária de décadas do decano do STF, atuação verdadeiramente criminosa na desintegração do patrimônio público nacional e na anulação das liberdades democráticas mais básicas.





