Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jatinho ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. As imagens foram feitas no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 2025.
A aeronave, um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, estava ligada a uma empresa de Vorcaro. O escritório de Viviane confirmou a contratação de voos por meio da Prime Aviation e afirmou que Moraes acompanhou a esposa em algumas viagens. Fato, no entanto, negado anteriormente pela defesa do ministro.
O vídeo é comprometedor. Ele expõe a proximidade entre a família de Moraes e o banqueiro envolvido no maior escândalo financeiro do País. Ainda assim, as viagens não são o aspecto mais grave do caso.
O centro do escândalo são os contratos que somam aproximadamente R$200 milhões entre empresas de Vorcaro e o escritório de Viviane Moraes. O primeiro previa cerca de R$131 milhões. O segundo acrescentava outros R$70 milhões. O valor total contratado ultrapassa R$200 milhões.
Não se trata, portanto, apenas de saber quem pagou uma viagem ou qual empresa intermediou o voo. Um banqueiro contratou o escritório da mulher de um ministro do Supremo Tribunal Federal por uma cifra gigantesca, sem que tenha sido apresentada até agora uma explicação compatível com o tamanho do negócio.
O contrato de R$131 milhões previa pagamentos mensais durante 36 meses. Entre os serviços estavam atividades descritas como consultoria estratégica envolvendo órgãos como Banco Central, Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e Polícia Federal.
Documentos analisados durante a investigação também indicaram que um arquivo relacionado ao contrato teria sido alterado por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A defesa sustenta que não existe irregularidade e que o ministro apenas teve contato com documentos do escritório da esposa. A explicação, no entanto, não elimina o problema político.
Moraes integra o órgão mais poderoso do Judiciário brasileiro. Seu escritório familiar recebeu um contrato milionário de um banqueiro com interesses diretos em órgãos do Estado. É isso que Moraes e seus defensores procuram reduzir a uma relação profissional normal.
Também é preciso distinguir o valor dos contratos do total efetivamente pago. As revelações apontam que aproximadamente R$80 milhões foram repassados antes da quebra do grupo de Vorcaro. O escândalo dos R$200 milhões diz respeito ao valor global contratado, ainda que nem todas as parcelas tenham sido quitadas.
A cada nova revelação, a defesa do ministro muda. Primeiro, tentou-se negar a proximidade. Depois, os contratos foram apresentados como serviços comuns de advocacia. Agora, com o vídeo no jatinho, procura-se afirmar que a aeronave apenas teria sido fretada por uma empresa contratada.
Nenhuma dessas explicações responde à pergunta principal: por que Daniel Vorcaro destinaria cerca de R$200 milhões ao escritório da esposa de um ministro do STF?
As revelações sobre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, também são comprometedoras. Uma fotografia mostrou Gonet e Vorcaro juntos em Londres, durante um encontro com uísque e charuto. Registros examinados na investigação apontaram ainda mensagens e quatro ligações entre os dois. Gonet nega manter amizade com o banqueiro.
O caso do procurador-geral deve ser investigado. Ele mostra que Vorcaro circulava entre algumas das autoridades mais poderosas do País. Não pode, porém, ser utilizado para tirar do centro da discussão os contratos firmados com o escritório de Viviane Moraes.
A aparição do casal no jatinho piora a situação porque dá forma concreta a uma relação que os defensores do ministro tentam apresentar como estritamente profissional. Mas transformar o vídeo no único problema também seria uma forma de esconder o essencial.
Uma viagem pode ser explicada como fretamento. Um encontro pode ser chamado de coincidência. Um contrato de aproximadamente R$200 milhões exige uma explicação muito maior. Até agora, ela não apareceu.
Em vez de investigar Moraes, o Supremo voltou-se contra André Mendonça, responsável por revelar documentos relacionados ao caso. Flávio Dino, Gilmar Mendes e outros integrantes do tribunal preferiram discutir a divulgação das provas a exigir esclarecimentos sobre os contratos.
A reação mostra que o STF age como uma quadrilha. Quando um de seus integrantes é atingido, os demais ministros procuram perseguir quem apresentou a denúncia. O tribunal que manda prender, censurar e investigar decidiu que não deve explicações quando as suspeitas chegam a seus próprios membros.
O vídeo do jatinho é grave. As revelações sobre Gonet também são graves. Nada disso, contudo, supera a pergunta que Moraes e sua gangue procuram evitar: quais serviços justificariam contratos de aproximadamente R$200 milhões com o escritório de sua esposa?
Alexandre de Moraes deve sair. O escândalo também mostra que o problema não termina em um único ministro. É preciso defender o fim do STF e a eleição direta de todos os juízes.





