Uma tentativa de chegar à Itália terminou em sequestro, extorsão, prisão e duas travessias fracassadas do Mediterrâneo para o nigeriano Udekwe Kennedy Obinna.
Depois de concluir a universidade, Obinna permaneceu desempregado e começou a procurar uma forma de emigrar. Tentou obter um visto, mas perdeu dinheiro para um falso intermediário. Em 2016, decidiu seguir pela Líbia pagando 150 mil nairas a homens que apresentavam a viagem como uma rota para a Europa.
Ao chegar à cidade líbia de Sabha, descobriu que havia caído nas mãos de traficantes.
“Éramos 21 pessoas viajando em um veículo e, ao chegarmos a Sabha, eles disseram que nós tínhamos sido vendidos.”
O grupo foi espancado e ameaçado com armas. Os sequestradores obrigaram os prisioneiros a telefonar para suas famílias e pedir dinheiro.
Obinna permaneceu três meses naquele local. Seus parentes conseguiram reunir 2 mil dinares líbios e pagar o resgate.
Libertado, ele seguiu para Trípoli e tentou atravessar o Mediterrâneo. O bote levava 156 pessoas quando sofreu problemas mecânicos e acabou se rompendo. Apenas 87 sobreviveram, de acordo com seu relato.
Ele tentou novamente em 2018. Dessa vez, a embarcação foi interceptada pela Guarda Costeira líbia. Obinna passou outros dois meses preso até aceitar um programa de retorno oferecido pela Organização Internacional para as Migrações.
Voltou à Nigéria em junho daquele ano.
Crianças entre as principais vítimas
Depois da experiência, Obinna fundou a organização Migrants Lives Matter e passou a visitar escolas, igrejas, mesquitas e campos de futebol para denunciar as formas de aliciamento usadas pelas quadrilhas.
Promessas de emprego, carreira esportiva, viagens religiosas e uma vida confortável no exterior são alguns dos métodos relatados.
Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime apontam que crianças representam 61% das vítimas identificadas de tráfico de pessoas na África Subsaariana. O trabalho forçado responde por 65% das formas de exploração registradas e a exploração sexual por 21%.
Na Nigéria, foram identificadas 1.087 vítimas em 2020. Em 2022, o número chegou a 2.883.
Obinna afirma que os próprios conhecidos podem atuar como recrutadores.
“Tráfico humano não é praticado apenas por pessoas estranhas.”
O Brasil também aparece nas rotas internacionais. Entre 2025 e junho de 2026, o Ministério Público Federal denunciou 79 pessoas em processos envolvendo 299 vítimas de tráfico humano e outras 137 por contrabando de migrantes.
Entre os destinos identificados de brasileiros traficados estão Camboja, “Israel”, Itália, Bélgica e Albânia.





