11 de Setembro

Democracia matou milhões combatendo ‘extremismo’ no Oriente Médio

Um quarto de século depois dos atentados de 2001, guerras conduzidas pelos que hoje se dizem baluartes da liberdade e da democracia levaram à destruição de países inteiros

Vinte e cinco anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, é possível ter apenas uma ideia um tanto remota do resultado da chamada “Guerra ao Terror”. O projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima que os conflitos conduzidos pelos Estados Unidos desde então tenham provocado entre 4,5 milhões e 4,7 milhões de mortes diretas e indiretas. Todos os cálculos apresentados aqui são conservadores, pois foram feitos por instituições comprometidas com o status quo, com o regime político imperialista.

Cerca de 940 mil pessoas morreram diretamente nos conflitos. Outras 3,6 milhões a 3,8 milhões perderam a vida em consequência da fome, de doenças, da destruição dos sistemas de saúde e de outras consequências das guerras. Mais de 38 milhões foram expulsas de suas casas no Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iêmen, Somália, Filipinas, Líbia e Síria.

Os ataques suspeitos, atribuídos à al-Caida e dos quais setores do governo Bush e do sionismo tinham plena consciência, forneceram aos Estados Unidos a justificativa para iniciar uma ofensiva militar que atravessaria décadas. O 11 de Setembro serviu como uma oportunidade perfeita para uma política imperialista de intervenção que já vinha sendo preparada e que encontrou no “combate ao terrorismo” sua grande justificativa pública.

Menos de um mês depois dos ataques, o Afeganistão foi invadido.

A guerra durou quase 20 anos e atravessou quatro governos norte-americanos. Segundo os números reunidos pelo Costs of War, cerca de 176 mil pessoas morreram diretamente. Outras centenas de milhares foram vítimas da fome, de doenças e da destruição produzida pela ocupação.

A insegurança alimentar, que já atingia 62% dos afegãos antes da guerra, chegou a 92% depois dela.

Em 2021, após duas décadas de ocupação estrangeira, o Talibã voltou ao poder.

O resultado é particularmente revelador. Os Estados Unidos invadiram o país, destruíram sua infraestrutura, provocaram centenas de milhares de mortes e, ao final, perderam novamente o poder para o grupo cuja derrubada havia servido de justificativa para a guerra.

A mentira das armas de destruição em massa

Em março de 2003, chegou a vez do Iraque.

O governo de George W. Bush afirmou que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e utilizou essa acusação para justificar a invasão. As armas não foram encontradas.

A Al Jazeera aponta cerca de 315 mil mortes diretas causadas pela guerra. Outro levantamento, citado pela Xinhua, calcula que aproximadamente 209 mil civis iraquianos morreram entre 2003 e 2021 em guerras e conflitos violentos. Cerca de 9,2 milhões tornaram-se refugiados ou foram obrigados a abandonar suas casas.

Os dois números não medem exatamente a mesma coisa, mas apontam para a mesma realidade: a destruição de um país inteiro em nome de uma acusação que se revelou falsa.

A guerra não ficou limitada às grandes invasões terrestres. O imperialismo norte-americano espalhou ataques aéreos e operações com aviões não tripulados por vários países.

Desde 2004, o Bureau of Investigative Journalism contabilizou 423 ataques norte-americanos no Paquistão, com estimativa de 2.499 a 4.001 mortos. Entre 424 e 966 eram civis.

No Iêmen, pelo menos 186 ataques e operações mataram ao menos 853 pessoas, das quais 158 eram civis. Na Somália, entre 2001 e 2016, de 19 a 23 ataques deixaram entre 188 e 276 mortos.

Líbia, Síria e a expansão da guerra

Em 2011, Estados Unidos e Organização do Tratado do Atlântico Norte participaram da campanha militar contra a Líbia. Durante sete meses, quase 9.700 ataques foram lançados contra o país.

Muamar Kadafi foi derrubado e morto. A Líbia entrou depois num longo período de guerra e desagregação do Estado.

Na campanha militar contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, autoridades reconheceram 1.417 mortes de civis. A Airwars estima, porém, que o total ficou entre 8.264 e 13.360.

Na Síria, levantamento divulgado pela Xinhua apontou pelo menos 350 mil mortos e mais de 12 milhões de deslocados, além de 14 milhões de pessoas necessitando de ajuda humanitária. São números apresentados pelo relatório citado pela agência e não uma contagem única de todas as vítimas e causas da guerra síria.

Mesmo com metodologias diferentes, os levantamentos deixam um indício do tamanho da catástrofe.

A “democracia” em ação

Essas guerras foram apresentadas como uma defesa da civilização contra a barbárie, da democracia contra o terrorismo e da liberdade contra o “extremismo”.

O resultado foi uma sucessão de países invadidos, cidades destruídas, milhões de mortos e populações inteiras obrigadas a fugir.

Essa propaganda não pode ser separada do caráter imperialista das guerras. A linguagem democrática funcionou como cobertura para intervenções militares, destruição de Estados e imposição dos interesses norte-americanos sobre países mais fracos.

E essa responsabilidade não pode ser jogada nas costas de Donald Trump, como gostam de fazer os verdadeiros responsáveis por esse verdadeiro genocídio.

A ofensiva começou muito antes de sua chegada à Casa Branca.

George W. Bush iniciou as guerras do Afeganistão e do Iraque. Governos posteriores mantiveram operações militares, ampliaram campanhas aéreas e continuaram intervenções em outras regiões. Democratas e a ala tradicional do Partido Republicano dividiram a responsabilidade pela política que marcou as duas décadas seguintes.

A tentativa de atribuir a Trump toda a violência do imperialismo serve para absolver justamente os setores que durante anos comandaram essas guerras e que agora procuram se apresentar como defensores da democracia contra a extrema direita.

Os mesmos democratas de sempre

Esse é um ponto central no balanço dos 25 anos.

Muitos dos políticos, jornais e setores da burguesia que hoje apresentam o combate a Trump como uma luta da civilização contra a barbárie apoiaram a política de guerra lançada depois de 2001.

O vocabulário também é parecido.

Naquela época, era necessário bombardear países para proteger a liberdade, defender a democracia e derrotar o extremismo. Hoje, parte desses mesmos setores reivindica novamente a condição de representante da democracia e da civilização.

A experiência dos últimos 25 anos mostra quanto vale essa propaganda. Enquanto as declarações falavam em direitos humanos, as bombas caíam sobre Bagdá, Cabul e dezenas de outras cidades.

Uma conta de US$8 trilhões

As guerras também custaram uma fortuna à própria população norte-americana.

Os Estados Unidos gastaram cerca de US$5,8 trilhões nas operações realizadas desde 2001. Somados os custos projetados para o atendimento aos veteranos, a conta alcança pelo menos US$8 trilhões.

Mais de 7.000 militares norte-americanos e cerca de 8.000 contratados morreram nos conflitos posteriores ao 11 de Setembro, segundo o levantamento reproduzido pela Xinhua.

Outro dado chama ainda mais atenção. Mais de 30 mil militares norte-americanos que participaram dessas guerras morreram por suicídio, aproximadamente quatro vezes o número de mortos em combate citado pelo estudo.

Os recursos empregados durante décadas em invasões, ocupações e bombardeios poderiam ter sido utilizados em saúde, educação e outras necessidades da própria população dos Estados Unidos.

Foram destinados à guerra.

Uma história que não começou em 2001

O massacre posterior ao 11 de Setembro deve ser entendido como parte de uma história muito mais longa do imperialismo.

Ela passa pelas bombas atômicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasaqui e chega às guerras do século XXI e à destruição de Gaza por “Israel”, apoiada pelo imperialismo norte-americano (destruição iniciada sob o governo Biden, e depois abraçada por Trump).

O sionismo ocupa, assim, o papel de extensão do imperialismo no Oriente Médio. Sua apresentação como força “civilizada” e “democrática” entra em choque com a devastação produzida contra o povo palestino.

Esse balanço também serve para colocar em perspectiva a retórica moral utilizada pela burguesia dita “democrática” e “civilizada”, representada pelos partidos liberais e social-democratas.

Os governos responsáveis pelas guerras posteriores ao 11 de Setembro falaram durante 25 anos em liberdade, democracia, direitos humanos e combate ao extremismo.

Atrás dessas palavras ficaram milhões de mortos.

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