O processo movido pela Pocahontas do PSOL contra o Partido da Causa Operária trouxe um elemento que reforça a crítica política feita pelo Diário Causa Operária, que foi quem produziu e publicou a matéria, e não o site do PCO.
De qualquer forma, ao contestar uma matéria sobre sua campanha ao lado de Simone Tebet, Pocahontas não se limitou a defender a própria atuação. Passou também a defender a candidata do PSB e a negar sua ligação política com o latifúndio de Mato Grosso do Sul.
A matéria questionada criticava Pocahontas por fazer campanha para Tebet, definida pelo DCO como “candidata dos assassinos de índios”. A expressão caracterizava politicamente a candidata como representante de um setor social envolvido, há décadas, em conflitos violentos contra os índios pela posse da terra.
A representação altera o sentido da frase.
Segundo o documento, o título colocaria Pocahontas “na posição de quem colabora conscientemente com autores de crime contra a vida praticado contra indígenas”. Mas o DCO não escreveu que ela fazia campanha “para assassinos de índios”. Escreveu que fazia campanha para a “candidata dos assassinos de índios”.
A diferença é fundamental.
Dizer que alguém faz campanha para assassinos seria atribuir apoio direto aos autores de homicídios. Caracterizar Tebet como candidata dos assassinos de índios é uma afirmação política sobre os interesses sociais que ela representa.
Em nenhum momento a matéria afirmou que Simone Tebet participou do massacre ocorrido em Caarapó, em 2016, ordenou o ataque ou possui responsabilidade criminal pela morte do agente de saúde guarani-caiuá Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza.
A crítica é outra: Tebet pertence ao meio dos grandes proprietários rurais de Mato Grosso do Sul e sua atuação política esteve ligada aos interesses do latifúndio num dos Estados onde a disputa entre grandes fazendeiros e índios assumiu formas particularmente violentas.
A representação procura reduzir essa relação a uma coincidência geográfica. Afirma que não haveria qualquer elemento além da proximidade territorial entre Tebet e o ataque de Caarapó.
Os fatos documentados ao longo dos últimos anos pelo DCO mostram uma situação bem diferente.
A família Tebet administra propriedades rurais em Mato Grosso do Sul, inclusive na região de Caarapó. Seu marido, Eduardo Rocha, também construiu carreira política no Estado e esteve ligado às posições dos proprietários rurais nas disputas pela terra.
Depois do massacre de 2016, Rocha esteve na região prestando apoio aos fazendeiros envolvidos no conflito, segundo matéria publicada anteriormente pelo DCO.
Há também a atuação parlamentar de Simone Tebet.
Quando senadora, ela apresentou o Projeto de Lei 494/2015, que previa a suspensão de procedimentos de demarcação quando houvesse ocupações ou conflitos na área reivindicada.
A proposta atingia diretamente as retomadas de terras, uma das principais formas utilizadas pelos índios para pressionar pelo reconhecimento das áreas das quais foram expulsos.
Na prática, os próprios índios poderiam ter um processo de demarcação interrompido por terem ocupado a terra cuja devolução reivindicavam.
Tebet também defendeu indenizações aos proprietários atingidos por demarcações. Eduardo Rocha, por sua vez, participou na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul de uma CPI contra o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade que atuava junto aos índios nas disputas pela terra.
Isso significa que não existe apenas o “nexo geográfico” alegado pela representação. Existe uma posição política.
De um lado estão os índios que realizam retomadas, reivindicam a devolução de terras e enfrentam despejos, pistoleiros e forças policiais. Do outro estão os grandes proprietários que procuram impedir essas ocupações e limitar as demarcações.
Simone Tebet, parceira de empreitada eleitoral da Pocahontas do PSOL, não ficou acima desse conflito.
Sua condição de proprietária rural, sua atuação parlamentar e suas relações políticas em Mato Grosso do Sul mostram a que setor ela esteve ligada.
É nesse sentido que o DCO a caracterizou como candidata dos setores responsáveis pela repressão aos índios.
O aspecto mais curioso da representação de Pocahontas aparece justamente neste ponto.
Simone Tebet não é a autora do processo.
Se Pocahontas entendia que havia sido atingida pela matéria, poderia defender sua própria conduta. Poderia explicar por que decidiu fazer campanha ao lado de Tebet ou sustentar que essa aliança não contradizia sua trajetória política.
Em vez disso, a representação dedica-se a defender a própria Tebet.
Procura demonstrar que a latifundiária ex-MDB, que apoiou o golpe de 2016, não poderia ser associada politicamente aos fazendeiros envolvidos na repressão aos índios e tenta reduzir suas relações com o latifúndio sul-mato-grossense a uma questão territorial.
É uma defesa que Pocahontas não precisava fazer para sustentar que havia sido pessoalmente ofendida.
Ela a faz porque defender Tebet tornou-se necessário para defender a própria aliança.
A representação chega a considerar particularmente grave a crítica do DCO porque Pocahontas teria construído sua trajetória pública na defesa dos índios.
Mas esse é precisamente o centro da crítica.
Quanto mais Pocahontas reivindica uma trajetória de defesa dos índios, mais problemática se torna sua campanha ao lado de uma representante política do latifúndio.
Os guarani-caiuá de Mato Grosso do Sul não enfrentam os grandes proprietários numa disputa retórica. A luta pela terra produziu ataques armados, despejos, prisões e mortes.
Foi nesse ambiente que Simone Tebet construiu sua carreira política e defendeu medidas favoráveis aos proprietários rurais.
Ainda assim, Pocahontas decidiu fazer campanha com ela, abandonando os índios que diz defendem à sua própria sorte.
Agora, diante da crítica, resolveu também sair em sua defesa no processo contra o DCO.
A tentativa de censurar a caracterização feita pelo jornal acaba, assim, revelando o grau da própria aliança política que se pretendia esconder.
A Pocahontas do PSOL comporta-se, assim, como um índio domesticado pelos bandeirantes para caçar outros índios durante as Bandeiras. Ou, fazendo jus ao seu caráter importado dos EUA, comporta-se como um “indian scout” (batedor indígena). Com a diferença, porém, que ela não foi obrigada a fazer essa aliança espúria. Ela a faz voluntariamente, traindo os índios e servindo aos seus algozes.



