Em Cinco semanas dramáticas, Valério Arcary subordina sua política à disputa eleitoral. Depois de apresentar a vitória de Lula como questão “vital”, avalia medidas segundo seu efeito nas urnas e descarta as candidaturas independentes da esquerda como “testemunhais”. O problema é que ganhar uma eleição não significa derrotar a burguesia que sustenta a direita, muito menos conquistar o controle do Estado.
A experiência do próprio PT demonstra isso. Dilma Rousseff chegou à Presidência, mas seu governo não controlava a Polícia Federal, o Ministério Público, o Judiciário, o Congresso e os demais aparelhos estatais. Durante seu mandato, a própria presidenta foi alvo de investigações e de uma operação política que terminou em sua derrubada.
Ter a Presidência da República não significa que os trabalhadores tomaram o poder.
Arcary, no entanto, escreve que a eventual aprovação do fim da jornada 6×1 seria “decisiva para vencer as eleições” e que outras votações, como o Marco Legal dos Minerais Críticos, o fim da “Taxa das Blusinhas” e até a ultrarreacionária PEC da segurança seriam “eleitoralmente, positivas”.
O critério está invertido. Uma medida vale pelo que representa para os trabalhadores, não pelo número de votos que pode render a uma candidatura. Uma política reacionária não se torna progressista porque melhora o desempenho eleitoral de Lula.
Arcary afirma que “campanha eleitoral é um espaço de luta de classes”. É verdade, mas ele transforma esse terreno particular na própria luta de classes. Toda sua estratégia passa a ser organizada em função de vencer a eleição, subordinando a política dos trabalhadores ao calendário eleitoral.
Lênin combatia precisamente essa inversão. Os revolucionários deveriam participar das eleições e utilizar o Parlamento, mas sem transformar esse terreno na medida de toda a luta política. Chamava de “cretinismo parlamentar” a tendência de enxergar a força das classes principalmente através das instituições parlamentares. Uma greve, por exemplo, pode revelar muito mais sobre a força real dos trabalhadores do que uma votação. Arcary faz o caminho inverso: mede a política pelo que é “eleitoralmente positivo” e, depois, mede a importância das organizações pelo número de votos que possuem.
A burguesia não perde o poder nas urnas
Se a tarefa é derrotar a extrema direita, simplesmente eleger Lula não pode realizá-la.
Bolsonaro perdeu em 2022 e o bolsonarismo não desapareceu. A razão é simples: a direita não nasce da urna, mas da divisão social. Ela recebe apoio de setores do grande capital, dispõe de organizações políticas, dinheiro, imprensa e relações profundas com o aparelho estatal.
A burguesia pode perder uma eleição sem perder seu poder social.
Pode perder a Presidência e continuar controlando bancos, grandes empresas, terras, meios de comunicação e parcelas fundamentais do Estado. Pode utilizar o Congresso, o Judiciário, o Ministério Público e a imprensa contra um governo eleito.
Foi exatamente o que ocorreu com Dilma.
Também é ilusório imaginar que a repressão judicial possa substituir a luta política contra a extrema direita. Donald Trump utilizou os processos contra ele para fortalecer a imagem de perseguido. Na França, as medidas judiciais contra Marine Le Pen não destruíram sua corrente. Seu partido continuou crescendo.
A extrema direita precisa ser derrotada politicamente pela mobilização dos trabalhadores, é um erro terceirizar essa tarefa para os juízes.
Arcary chama sua orientação de “realismo revolucionário”, mas seu realismo termina na contagem de votos. A mobilização aparece como instrumento para eleger Lula, e não como força capaz de impor um programa próprio contra a burguesia.
Do ‘papel testemunhal’ ao voto útil
Arcary despreza as candidaturas da esquerda, exceto Lula. Ecreve que Samara Martins, Hertz Dias, Edmílson Costa e “muito menos Rui Pimenta (PCO)” não passariam de candidaturas com “papel testemunhal”, restritas a setores de vanguarda.
Isso não é uma crítica política. É eleitoralismo oportunista.
Se Rui Costa Pimenta está errado, Arcary deveria explicar em quê. Se o programa do PCO está errado, deveria demonstrá-lo em vez de jogar a carta da vantagem eleitoral de Lula.
No fundo, Arcary chega à velha política do voto útil. Como Lula possui mais condições eleitorais de vencer a direita, as candidaturas que apresentam um programa independente são reduzidas à condição de “testemunho”. O critério deixa de ser qual política interessa aos trabalhadores e passa a ser quem possui mais votos neste momento.
Para alguém que se reivindica trotskista, a contradição é gritante. Trótski fundou a IV Internacional quando os revolucionários eram uma pequena minoria, perseguidos tanto pelo fascismo quanto pelo stalinismo. Não concluiu que deveriam abandonar seu programa e seguir as organizações maiores porque estas possuíam milhões de trabalhadores sob sua influência.
Toda organização revolucionária começa minoritária. Se deve renunciar à sua política sempre que aparecer um reformista eleitoralmente mais forte, estará condenada a permanecer minoritária para sempre.
Uma candidatura própria não serve apenas para calcular as chances imediatas de conquistar a Presidência. Serve para apresentar um programa, organizar trabalhadores e construir uma alternativa independente. Chamar isso de “testemunhal” significa tratar a independência política como desperdício sempre que ela não promete uma vitória imediata.
O liberalismo também dá golpes
Esse eleitoralismo está ligado à falsa divisão apresentada por Arcary entre as democracias liberais e a ameaça neofascista.
A história recente brasileira demonstra o problema.
Donald Trump representa uma ameaça. Mas o golpe que derrubou Dilma Rousseff ocorreu quando Barack Obama ocupava a Casa Branca e Joe Biden era seu vice. A Lava Jato contou com ampla colaboração de autoridades norte-americanas e abriu caminho para a derrubada de Dilma, a prisão de Lula e sua retirada das eleições de 2018.
Depois do golpe, o governo norte-americano não isolou Michel Temer. Biden reuniu-se com ele e discutiu normalmente os interesses econômicos dos Estados Unidos no Brasil.
A ala liberal do imperialismo não é uma barreira contra golpes. Os Estados Unidos promovem e apoiam golpes há décadas sob governos republicanos e democratas. A Escola das Américas, criada em 1946, tornou-se símbolo dessa política ao formar militares latino-americanos envolvidos em ditaduras e operações repressivas.
Os setores que derrubaram Dilma não precisaram ganhar uma eleição presidencial. Utilizaram a imprensa, o Congresso, o Judiciário, o Ministério Público, os grandes empresários e o imperialismo.
Que resposta existe para isso numa política concentrada em “vencer as eleições”?
A eleição deve servir à luta
Quando Arcary mede propostas pelo fato de serem “eleitoralmente positivas”, despreza candidaturas por serem pequenas e empurra a esquerda para o voto útil, troca o critério de classe pelo critério eleitoral.
A burguesia pensa muito além de uma eleição. Controla bancos, empresas, imprensa, terras e agentes no Estado qualquer que seja o resultado das urnas.
Os trabalhadores também precisam construir uma força que exista antes, durante e depois da campanha, capaz de combater a extrema direita sem ficar subordinada à burguesia liberal.
Confundir ganhar uma eleição com derrotar a burguesia e, em nome dessa confusão, abandonar o programa e a organização independente dos trabalhadores é preparar a próxima derrota.





