A acrobata russa Mariia Konfektova processa o Cirque du Soleil depois de cair de aproximadamente 4,5 metros durante uma apresentação do espetáculo Kooza, em Portland, nos Estados Unidos.
Konfektova realizava um número num aro aéreo quando perdeu o equilíbrio. Não havia rede de segurança sob a estrutura.
A queda provocou 11 fraturas, incluindo lesões no crânio, pulso, região lombar e em sete ossos do rosto. A artista sofreu concussão, passou por várias cirurgias e afirma conviver até hoje com problemas de visão, respiração e outras sequelas.
Em sua ação, ela acusa o Cirque de não oferecer equipamentos suficientes para reduzir o impacto de uma eventual queda. Também afirma ter alertado anteriormente para problemas na estrutura utilizada em seu número.
Depois de retornar ao trabalho e continuar questionando as condições de segurança, segundo seu relato, acabou demitida.
A indenização pedida equivale a aproximadamente R$84 milhões.
O acidente ocorre numa companhia cuja história recente foi profundamente marcada pela entrada do capital financeiro.
Em 2015, o fundo norte-americano TPG Capital assumiu o controle majoritário do Cirque du Soleil. Nos anos seguintes, a empresa acumulou aproximadamente 1 bilhão de dólares em novas dívidas. Quando a pandemia interrompeu os espetáculos em 2020, a companhia já carregava cerca de 900 milhões de dólares em endividamento.
A pandemia derrubou as receitas, mas encontrou uma companhia financeiramente fragilizada. O Cirque entrou em proteção contra credores e seus ativos acabaram passando para os credores garantidos depois da reestruturação.
O processo de Konfektova não permite afirmar que um fundo de investimento tenha determinado a retirada de uma rede ou de qualquer outro equipamento específico.
O problema é mais amplo.
Um circo desse porte depende de grandes gastos com treinamento, estruturas, manutenção, equipes técnicas e medidas redundantes de segurança. Para os artistas, essas despesas são uma condição elementar do trabalho. Para o capital financeiro, entram na contabilidade como custos a serem permanentemente controlados.
A transformação de uma companhia artística em ativo financeiro coloca sua atividade sob a pressão de dívidas, rentabilidade e retorno aos investidores.
Konfektova está entre 16 artistas que, segundo as informações divulgadas sobre o processo, sofreram ferimentos significativos durante apresentações do Cirque nos últimos 20 anos. Três acidentes terminaram em morte.
O Cirque ficou mundialmente conhecido pelo risco e pela complexidade de seus números. Esses espetáculos exigem uma estrutura à altura do perigo enfrentado pelos artistas.
Quando tudo passa a ser subordinado à rentabilidade, a arte deixa de ser a principal preocupação. Primeiro vêm as contas dos credores.



