Frente ampla

Com aval de Alckmin, PSB trai o PT nas eleições no DF

Impulsionado durante anos pelo governo Lula e pela esquerda, Ricardo Cappelli mantém candidatura contra o PT com respaldo de Geraldo Alckmin

O PSB decidiu manter Ricardo Cappelli como candidato ao governo do Distrito Federal contra Leandro Grass, do PT, apesar da pressão dos petistas por um acordo. Cappelli registrou sua candidatura na noite de quinta-feira (13), depois de conversar com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que deu aval para que o correligionário permanecesse na disputa.

A candidatura, portanto, não é uma aventura individual de Cappelli. Alckmin é vice-presidente da República, ministro do governo Lula e uma das principais figuras nacionais do PSB. Seu apoio mostra que o enfrentamento ao PT tem respaldo no alto escalão do partido.

O caso expõe mais uma vez o resultado da política de frente ampla. O PT faz concessões à direita, entrega cargos, ministérios e posições eleitorais, promove inimigos do povo como aliados da “democracia” e, quando procura alguma contrapartida, descobre que fortaleceu partidos que agora disputam espaço contra ele.

No caso de Cappelli, isso é ainda mais evidente. Sua projeção nacional foi construída, em grande medida, graças ao impulso recebido da esquerda e do próprio governo Lula.

Sua carreira ganhou força no Maranhão, onde foi homem de confiança de Flávio Dino e ocupou cargos durante seus governos. Quando Dino assumiu o Ministério da Justiça e Segurança Pública, Cappelli tornou-se secretário-executivo da pasta. Também era colunista do Brasil 247.

Depois dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, Lula escolheu Cappelli para comandar a intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal. A função lhe deu enorme exposição nacional e fez dele, para a imprensa e amplos setores da esquerda, uma figura destacada da chamada defesa da democracia.

Pouco depois, com a saída de Gonçalves Dias do Gabinete de Segurança Institucional, Cappelli assumiu interinamente o GSI e comandou a exoneração de 87 militares.

Do Maranhão à segurança federal, Cappelli foi impulsionado por Dino, pela esquerda e pelo governo Lula. Agora, depois de adquirir projeção suficiente para disputar o governo do Distrito Federal, usa essa posição para enfrentar diretamente o candidato do PT.

Cappelli vinha afirmando que só desistiria caso Lula lhe fizesse pessoalmente o pedido. O presidente não o fez. O candidato também avisou que, mesmo fora da disputa, não aceitaria ser vice de Leandro Grass “em hipótese alguma”, alegando a rejeição histórica ao PT no Distrito Federal.

A suposta rejeição aos petistas, porém, nunca foi problema quando se tratava de ocupar cargos de destaque no governo Lula ou ganhar projeção política graças às decisões do presidente.

Alckmin dá sinal verde

O papel de Geraldo Alckmin torna a traição ainda mais clara.

Durante décadas, Alckmin foi uma das principais figuras do PSDB, candidato presidencial contra Lula e representante de uma política de direita que o próprio PT dizia combater. Em 2022, foi transformado em companheiro de chapa do petista em nome da frente ampla.

O PT não lhe entregou uma posição qualquer. Deu-lhe a Vice-Presidência da República e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Fortalecido pela aliança com Lula, Alckmin tornou-se uma das figuras centrais do governo.

Agora, diante de uma disputa entre PT e PSB no Distrito Federal, ele não trabalha para preservar os interesses do partido que o colocou na Vice-Presidência. Faz o contrário: dá sinal verde para Cappelli enfrentar Leandro Grass, sabotando o PT.

O novo PSDB

O principal beneficiário dessa política é o PSB.

Apesar do nome de Partido Socialista Brasileiro, trata-se de um partido de direita que, com a ajuda do PT, ocupa cada vez mais o espaço deixado pelo velho PSDB. O material político analisado pelo DCO já apontava que a frente ampla está reconstruindo “o falido PSDB na figura do PSB”.

O maior exemplo é o próprio Alckmin, durante décadas um dos principais tucanos do País. Márcio França, outra figura importante do PSB, também passou pelo PSDB. Nas eleições de 2026, França recebeu um posto de destaque justamente na chapa petista de São Paulo, como candidato a vice-governador de Fernando Haddad.

Enquanto o PT reduz suas candidaturas próprias e entrega espaço para preservar a chamada frente democrática, o PSB ocupa essas posições e aumenta seu peso dentro da frente.

Isso acontece em vários estados. O PT foi abrindo mão de terreno político em benefício de aliados de direita e enfraquecendo sua própria presença. O partido foi cedendo o terreno para outros partidos nos Estados, até perder espaço onde antes tinha peso próprio.

Em São Paulo, o fenômeno aparece de forma cristalina. Márcio França ocupa a vice na chapa de Haddad, garantindo ao PSB uma posição majoritária importante no maior colégio eleitoral do País. A latifundiária Simone Tebet, que votou pelo impeachment de Dilma e trocou o MDB pelo PSB há poucos meses, é candidata ao Senado apoiada pelo PT. No governo federal, o partido já recebeu ministério e Vice-Presidência. Onde interessa ao PSB, porém, como agora no Distrito Federal, ele lança candidato contra o próprio PT. Em Minas, algo semelhante está ocorrendo: o PSB recusou apoiar o candidato do PT ao governo, também porque supostamente perderia eleitores de direita.

https://causaoperaria.org.br/2026/psb-sabota-candidatura-do-pt-ao-governo-de-minas-gerais/

PT pavimenta o caminho do novo PSDB

Cappelli resume o resultado dessa política. O PT ajudou a projetá-lo, fortaleceu o partido ao qual ele pertence e colocou uma das principais figuras do PSB na Vice-Presidência da República. Quando tentou fazer valer a aliança no Distrito Federal, recebeu uma negativa.

A direção do PSB não apenas manteve Cappelli na disputa. Geraldo Alckmin avalizou pessoalmente sua candidatura.

Leandro Grass, que entrou no PT em 2025 após sair do PV com a perspectiva de disputar o Palácio do Buriti e cuja candidatura tem a simpatia de Janja da Silva, terá agora de enfrentar também um político que ganhou projeção nacional cumprindo missões para o próprio governo Lula.

O PT fortalece o PSB e enfraquece a si próprio. O PSDB entrou em decadência, mas a política de frente ampla está pavimentando o caminho para que outro partido de direita, recheado de antigos tucanos e figuras da burguesia, ocupe seu lugar.

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