Mulheres e eleições

PCO é único partido de esquerda a assinar carta da Matria em defesa das mulheres

Rui Costa Pimenta e outros cinco candidatos do Partido aderiram ao documento; carta apresenta oito compromissos com direitos das mulheres e das crianças

O Partido da Causa Operária (PCO) é o único partido de esquerda com candidatos presentes, até o momento, na relação de signatários da Carta-Compromisso com as Mulheres e Crianças Brasileiras, lançada pela Associação Matria para as eleições de 2026.

A entidade divulgou nesta quinta-feira (13) a relação dos candidatos que já aderiram ao documento. A lista é suprapartidária e, segundo a própria Matria, será atualizada continuamente à medida que novas assinaturas forem recebidas.

Entre os candidatos do PCO estão Rui Costa Pimenta, candidato à Presidência da República; Ieri de Sousa Braga Junior, candidato ao governo do Ceará; Luan Monteiro, candidato ao governo do Rio de Janeiro; Izadora Dias, candidata ao governo de São Paulo; Simone Souza, candidata a deputada federal por São Paulo; e Stefania Robustelli, candidata a deputada estadual pelo mesmo estado.

Além do PCO, aparecem candidatos de partidos como PL, Novo, PSDB, PP, Podemos, Missão, Democracia Cristã, PSD, Cidadania, PDT, PSB e PV. Entre os partidos efetivamente de esquerda, portanto, somente o PCO aderiu até agora à iniciativa.

A carta foi lançada pela Matria em 5 de agosto. A associação afirma que pretende fazer com que os candidatos assumam durante a campanha compromissos que posteriormente possam ser cobrados pelos eleitores. A entidade destaca particularmente a defesa dos direitos das mulheres com base no sexo e a oposição a intervenções médicas realizadas em menores em nome da chamada “identidade de gênero”.

O documento começa afirmando o compromisso com os direitos, a segurança e a dignidade das mulheres e das crianças brasileiras, tomando como referência a proteção baseada no sexo e dispositivos constitucionais relativos à dignidade da pessoa humana, igualdade, segurança e proteção prioritária de crianças e adolescentes. A partir daí, a carta estabelece oito compromissos.

  1. Proteção dos espaços femininos

O primeiro compromisso é defender que espaços, serviços e políticas destinados às mulheres continuem definidos com base no sexo. A carta menciona especificamente banheiros, vestiários, alojamentos, presídios e casas de acolhimento, além de outros locais nos quais estejam em questão a privacidade, a segurança e a dignidade das mulheres.

A reivindicação toca diretamente em uma questão que se tornou objeto de enorme campanha política nos últimos anos: a tentativa de acabar, na prática, com a separação por sexo em determinados espaços sob o argumento da chamada “identidade de gênero”.

  1. Defesa do esporte feminino

A carta exige também a preservação das categorias esportivas femininas. O compromisso estabelece que as competições destinadas às mulheres devem assegurar condições de igualdade, segurança e oportunidades esportivas às atletas do sexo feminino.

É uma questão que ganhou enorme importância internacional diante da autorização, por diversas entidades esportivas, da participação de homens que se apresentam como mulheres em modalidades femininas. A consequência é particularmente evidente no esporte de alto rendimento, no qual diferenças físicas entre os sexos têm enorme influência sobre os resultados.

  1. Proteção das crianças e dos adolescentes

Outro ponto da carta diz respeito às crianças e adolescentes que apresentam sofrimento relacionado ao próprio corpo ou à identidade. A Matria defende que sejam oferecidos cuidado e acompanhamento integral, com participação de diferentes especialidades e investigação dos fatores psicológicos e sociais envolvidos, dando prioridade à proteção do desenvolvimento infantil.

A posição se contrapõe à pressão para encaminhar menores rapidamente a intervenções médicas em nome da chamada mudança de sexo. Na apresentação da carta, a entidade deixa claro que a rejeição a esse tipo de intervenção em crianças e adolescentes é uma das razões centrais de sua iniciativa.

  1. Liberdade de pesquisa, ensino e expressão

A carta também reivindica o direito de professores, pesquisadores e demais profissionais discutirem questões relacionadas ao sexo, aos direitos das mulheres e das crianças e às políticas públicas sem intimidação ou censura.

Esse ponto adquiriu importância diante da perseguição contra mulheres, professores, pesquisadores e militantes que se opõem a determinados postulados da política identitária. Em muitos casos, até a afirmação de fatos elementares sobre a diferença entre os sexos tornou-se motivo para campanhas de intimidação e tentativas de silenciamento.

  1. Combate à violência contra as mulheres

O quinto compromisso é fortalecer medidas de prevenção e combate à violência baseada no sexo, reconhecendo as características particulares da violência sofrida por mulheres e meninas e assegurando atendimento adequado às vítimas.

O reconhecimento do sexo da vítima é decisivo para compreender fenômenos como o estupro, a violência doméstica e outras formas de violência que atingem particularmente as mulheres. Apagar essa categoria dos dados e das políticas públicas prejudica, antes de tudo, as próprias vítimas.

  1. Participação das mulheres nas decisões públicas

Os signatários comprometem-se ainda com a participação efetiva de organizações de mulheres e representantes femininas da sociedade civil na elaboração de políticas que atinjam diretamente seus direitos e interesses.

A reivindicação aparece em oposição a uma situação cada vez mais frequente na qual políticas apresentadas como destinadas às mulheres são decididas sem que as próprias mulheres possam questionar seus fundamentos.

  1. Dados estatísticos baseados no sexo

O sétimo compromisso trata da coleta e divulgação de dados separados segundo o sexo. A carta defende essa informação como necessária para elaborar, acompanhar e avaliar corretamente as políticas destinadas às mulheres.

Sem saber quantos homens e quantas mulheres são atingidos por determinado problema, torna-se impossível medir com precisão fenômenos como violência sexual, violência doméstica, desigualdade no trabalho, situação prisional ou participação esportiva.

  1. Relação permanente com organizações de mulheres

Finalmente, os candidatos comprometem-se a manter canais de contato com organizações femininas, inclusive com a própria Matria, reconhecendo que existem diferentes posições entre as organizações que intervêm no debate público.

Ao final, a carta reafirma a defesa dos direitos fundamentais das mulheres baseados no sexo e cita tanto a Constituição Federal quanto a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher como fundamentos para os compromissos apresentados.

O fato de o PCO aparecer como único partido de esquerda entre os signatários não é secundário. Grande parte da esquerda pequeno-burguesa transformou a política identitária em artigo de fé e passou a hostilizar qualquer organização ou mulher que questione suas consequências.

A situação chegou ao ponto de direitos elementares conquistados pelas mulheres — como categorias esportivas próprias, espaços separados por sexo e até a possibilidade de organizar politicamente reivindicações específicas das mulheres — serem apresentados como reivindicações reacionárias.

A posição do PCO vai no sentido contrário. A luta pela emancipação das mulheres não depende da negação das diferenças materiais entre os sexos, mas da organização das mulheres trabalhadoras contra a exploração capitalista e contra todas as condições sociais que as submetem à violência, aos baixos salários, ao desemprego e à ausência de serviços públicos fundamentais.

A adesão de Rui Costa Pimenta e dos demais candidatos do Partido à carta da Matria explicita essa divergência com uma parcela da esquerda que abandonou os problemas concretos das mulheres para adaptar-se à política identitária promovida justamente pelos países imperialistas, pelas grandes empresas e pelas instituições da burguesia.

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