O programa de governo apresentado pela chapa Lula-Alckmin em 7 de agosto trata o latifúndio como peça central da economia brasileira, afirma que o setor é “fundamental para o desempenho de nossa balança comercial” e promete diversificar as fontes de financiamento, estimular os títulos do chamado “agronegócio”, simplificar o acesso ao crédito e colocar a pesquisa científica a serviço da produtividade das grandes empresas do campo. Onde o texto de 2022 falava (já de modo extremamente vago e rebaixado) em democratização da posse e do uso da terra, o de 2026 fala em juros e seguro rural, e a reforma agrária desapareceu por completo do documento.
Já em 2022, o programa dedicava mais espaço ao ambientalismo do que à reforma agrária, o que evidenciava a força do lóbi ongueiro, impulsionado pelos grandes capitalistas que fazem demagogia com o meio ambiente para entravar o desenvolvimento do País e manter intocada a propriedade privada da terra. Agora, o PT dispensou até esse rodeio e passou ao elogio direto do latifúndio, mostrando o avanço de sua direitização.
Trata-se de uma traição a um dos setores mais tradicionais e combativos de sua própria base social e eleitoral. Os sem terra, sobretudo os organizados no MST, forneceram militância e votos ao petismo durante décadas e receberam em troca sucessivos governos nos quais os assentamentos foram reduzidos a quase nada. O abandono das reivindicações mais elementares dos camponeses é grave, mas o programa vai além: abraça o inimigo histórico desses trabalhadores, que hoje se apresenta com o nome de agronegócio.
O latifúndio é parasitário e vive do crédito público subsidiado, das renegociações periódicas de dívidas e da grilagem armada. No Plano Safra 2025/2026, foram destinados estarrecedores R$ 516,2 bilhões à agricultura empresarial contra míseros R$ 89 bilhões à agricultura familiar, responsável por abastecer a mesa do povo brasileiro. Mesmo as propriedades classificadas como produtivas são improdutivas do ponto de vista do desenvolvimento nacional, porque exportam matérias-primas in natura, não criam mercado interno e bloqueiam a industrialização, mantendo o País como fornecedor agrícola das potências.
A explicação dessa guinada está na política de frente ampla. O PT disputa com Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Flávio Bolsonaro os mesmos financiadores e a mesma base parasitária rural e, para isso, precisa oferecer garantias cada vez maiores. É nesse quadro que Geraldo Alckmin aparece como representante do governo nas iniciativas do setor. Cada passo dessa adaptação ao regime burguês carcomido é pago com o sacrifício das reivindicações dos trabalhadores, e o programa eleitoral apenas coloca no papel o que já vinha sendo feito.
O programa agrário da frente ampla é mais um indício do que este Diário vem analisando: um novo mandato de Lula será mais à direita que o atual. Atrelado e cada vez mais dependente da burguesia dita “democrática”, PT faz concessões atrás de concessões, abandonando as exigências históricas dos camponeses pobres e sem terra e dando um abraço cada vez mais apertado nos bandidos e pistoleiros que esmagam o povo explorado do campo.
A luta pela terra terá de ser retomada por fora desse programa e contra ele, com a mobilização independente dos sem terra e o apoio dos trabalhadores das cidades, capazes de impor a expropriação dos latifúndios e a reforma agrária que nenhum governo de conciliação realizará.





