Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, concedeu entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, no YouTube, na noite de terça-feira (11), poucas horas depois de ter sua residência invadida pela Polícia Filial do imperialismo (PF).
Na entrevista, Pimenta relatou como ocorreu a ação policial, explicou o que se conhece até agora sobre a investigação e denunciou a operação como uma perseguição política. Chamou atenção, principalmente, para o momento escolhido pela PF: três dias depois do lançamento oficial de sua candidatura à Presidência.
“Eu acho que o momento em que aconteceu é muito suspeito. Nós acabamos de lançar, no sábado passado, os nossos candidatos à Presidência e à vice-presidência. Três dias depois, a Polícia Federal aparece em casa, quebrando o portão etc. Uma coisa meio bizarra, porque eu suponho que você faz essas coisas com pessoas que estão sendo perseguidas pela Justiça, por condenação e tal. Eu, na realidade, nem mesmo fui ouvido nesse inquérito.”
O dirigente ressaltou que seu endereço é conhecido pela Justiça Eleitoral e que jamais havia se recusado a prestar depoimento.
“Lembra os tempos da ditadura”
Pimenta contou que ainda dormia quando ouviu os agentes forçando a entrada da residência. O portão já havia sido arrombado quando sua esposa desceu para verificar o que estava acontecendo. Ao abrir a porta, encontrou cinco ou seis policiais federais armados.
“Estava tudo escuro. E aí eu abri a porta, aparecem cinco ou seis policiais federais armados, com arma em punho. […] Era assim, meio que eu ia responder a bala à entrada da Polícia Federal. Um negócio surrealista, realmente. É uma cena que lembra os bons e velhos tempos da ditadura. Só que o pessoal não vai te arrastar para um calabouço e te torturar, mas, fora isso, é o mesmo esquema.”
Os agentes levaram o telefone celular de Pimenta e apreenderam seu passaporte. Seu computador também foi examinado. O dirigente disse ter fornecido acesso aos aparelhos e perguntado aos policiais o que procuravam.
Quando questionou por que não havia sido simplesmente intimado para depor, ouviu de um dos agentes, segundo relatou, que a PF não enviava oficial de Justiça nesse tipo de situação.
Pimenta comparou o método ao empregado pela Lava Jato: ações realizadas no primeiro horário permitido por lei, grande aparato policial, invasão de residências e exposição pública dos investigados.
“Eu critiquei tanto isso aí quando fizeram com Lula, e agora estão fazendo comigo também.”
https://www.youtube.com/watch?v=Tzl0euI82-0
Onde está o crime?
A investigação envolve gastos eleitorais do PCO com empresas que prestaram serviços ao Partido. Um dos elementos levantados seria o fato de integrantes ou responsáveis por algumas dessas empresas terem vínculos com a organização.
Pimenta rejeitou a ideia de que isso constitua qualquer irregularidade. Segundo ele, não existe proibição para que um partido contrate serviços prestados por pessoas ligadas à própria organização.
“Todo o processo, na realidade, é o seguinte: o que é que eles alegam? Que nós contratamos empresas que contavam, na sua direção, com militantes do Partido. Agora, isso não é crime. Eu não sou obrigado a contratar a empresa de outro partido. Eu posso contratar a empresa de gente do meu próprio partido. Eles questionaram até o fato de nós termos contratado um advogado que é advogado do Partido.”
O material gráfico contratado, acrescentou, foi efetivamente produzido e distribuído. Há fotografias dos impressos e registros dos gastos com os Correios para sua distribuição.
O dirigente citou a última campanha eleitoral do PCO, na qual teriam sido impressos cerca de 8 milhões de panfletos. Comparando o valor pago pelo Partido com preços oferecidos por gráficas comuns, sustentou que não existe sequer indício de superfaturamento.
“Não há o menor indício de superfaturamento. Se houvesse, eu até falaria: bom, temos que explicar por que estamos gastando tanto dinheiro. Nós estamos gastando abaixo do mercado. […] O material foi impresso. Se eles falassem: ‘vocês deram dinheiro para a gráfica, mas a gráfica não imprimiu o material’, não. Nós temos fotografia do material, toneladas de material. A gente colocou na prestação de contas os gastos com os Correios para onde a gente mandou o material impresso.”
Ao comentar a busca em sua residência, Pimenta contou que um delegado teria explicado que uma das finalidades desse tipo de diligência seria verificar o padrão de vida do investigado. O presidente do PCO mora de aluguel no Jabaquara, bairro de classe média baixa da zona sul de São Paulo, em uma casa comum a dez minutos de uma favela.
“A única riqueza que vocês vão encontrar aqui são os livros”, contou ter dito aos policiais.
Operação em plena campanha
Para Pimenta, a data escolhida para a busca não pode ser separada da disputa presidencial. O PCO havia realizado, no sábado (8), o lançamento nacional de suas candidaturas. Três dias depois, a PF foi à residência do candidato à Presidência.
https://www.youtube.com/watch?v=pFjLMa3mmmQ
Ele lembrou uma pesquisa sobre potencial de voto na qual 14% dos entrevistados disseram admitir votar em sua candidatura. Nesse quadro, avaliou que uma operação policial com ampla repercussão na imprensa pode servir para desgastar eleitoralmente o Partido.
“Eu acho que o que aconteceu hoje tem um intuito de nos prejudicar eleitoralmente. Nós temos falado aqui que a gente aparece sistematicamente com 1% dos votos. Eu tenho a mais plena convicção de que, dos candidatos presidenciais da chamada extrema esquerda, eu sou de longe a pessoa mais conhecida. O Poder360 fez uma pesquisa que perguntava em que candidato você poderia votar. A resposta para a nossa candidatura foi de 14%. Então, acho que esse negócio de hoje tem o intuito de nos prejudicar. Não acho normal que alguém faça isso no meio da eleição.”
O dirigente recordou ainda que, nas duas eleições anteriores, o PCO recebeu os recursos eleitorais praticamente no fim da campanha. De acordo com seu relato, quando Alexandre de Moraes presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o dinheiro foi liberado somente após pressão do Partido. Em outra eleição, sob a presidência de Cármen Lúcia, os recursos chegaram faltando cerca de uma semana para o término da campanha.
Questionado por Fortes se outros partidos haviam sofrido o mesmo tratamento, respondeu: “não, só o PCO”.
A origem da investigação
Segundo Pimenta, o inquérito começou com a investigação de valores recebidos por um militante do Partido. Tratava-se, afirmou, de contribuições destinadas a um curso de formação política ministrado por ele próprio, mas a movimentação passou a ser tratada como possível lavagem de dinheiro.
O PCO realiza regularmente cursos de formação política, divulgados publicamente.
Depois, reportagens do Diário do Centro do Mundo (DCM) teriam sido incorporadas ao inquérito. Na avaliação do dirigente, o portal utilizou informações públicas da prestação de contas eleitoral para construir uma denúncia contra o Partido.
“Começou com esse negócio da suposta lavagem de dinheiro através da Internet. Na verdade, a pessoa estava recolhendo contribuição para um curso que eu estava dando, só isso. […] E o DCM tem uma participação aí. Uma denúncia totalmente fraudulenta que eles fizeram.”
Pimenta relatou que uma promotora chegou a questionar se o verdadeiro objetivo da investigação não seria atingir o PCO. O caso foi posteriormente encaminhado a Brasília.
O peso da perseguição sionista
Outro elemento destacado na entrevista foi a sucessão de processos contra o Partido desde que o PCO intensificou sua campanha em defesa da resistência palestina.
Pimenta afirmou que existem atualmente cerca de 12 processos e procedimentos relacionados às posições políticas do Partido.
Um deles teria sido aberto depois de uma reportagem segundo a qual uma empresária contratada para produzir material gráfico apoiaria o Hamas. Para o presidente do PCO, o caso revela a tentativa de criminalizar uma despesa partidária com base na posição política de quem prestou o serviço.
“Quer dizer que você agora precisa ter uma certidão política da pessoa para quem vai encomendar a impressão de um panfleto? Como é possível isso? […] Agora, se eu for comprar um almoço ou alugar um auditório para fazer uma atividade do Partido, eu tenho que pedir a capivara política do dono do lugar, porque, se ele apoiar o Bolsonaro, o Hamas, o Hesbolá, sei lá o quê, eu estou dando dinheiro público para o terrorismo?”
Pimenta atribuiu ao sionismo um papel central nessa ofensiva.
“Desde que o Hamas fez a ação do dia 7 de outubro e eu falei: ‘nós não somos 100% Hamas, somos 1.000% Hamas’, a perseguição é implacável. Eu já falei aqui: nós temos 12 processos.”
Os métodos da Lava Jato
O presidente do PCO situou a operação dentro de um processo mais amplo de crescimento das arbitrariedades judiciais no País. Para ele, métodos aceitos inicialmente contra determinados setores acabam depois sendo empregados contra outros.
O dirigente lembrou que o PCO denunciou as violações cometidas durante a Lava Jato mesmo quando Lula e dirigentes petistas ainda eram tratados como criminosos por grande parte da imprensa.
“Eu acompanhei o processo da Lava Jato, foi uma coisa horrorosa. Na época, a gente falou que isso era um grave problema que estava acontecendo. […] A gente foi até criticado: ‘vocês estão defendendo o corrupto’. Eu falava: ‘olha, meu amigo, eu não sei se o Zé Dirceu ou o pessoal aí é corrupto. Eu não sei, eu não estava lá’. Agora, eu acho que o mínimo que você pode exigir em termos democráticos é que tudo seja provado preto no branco, minuciosamente, e que todos os direitos da pessoa que está sendo acusada sejam respeitados. E isso não está acontecendo. Aí eu vi de novo esse negócio com os bolsonaristas e agora está acontecendo com a gente.”
A posição, ressaltou, independe de concordância política com quem é perseguido. O PCO defendeu Lula contra a Lava Jato e também se posicionou contra processos arbitrários contra bolsonaristas e figuras da direita.
Liberdade para todos
Fortes também questionou Pimenta sobre a campanha promovida por setores da chamada esquerda radical para exigir a presença de PSTU, UP e PCB nos debates eleitorais, excluindo o PCO.
O dirigente classificou a posição como contraditória. Para ele, quem defende direitos democráticos deve defender a participação de todas as candidaturas, e não apenas daquelas com as quais concorda.
“Se você é um político sério, se você defende os direitos democráticos, você vai defender não que a esquerda participe do debate, mas que todo mundo participe do debate. Eu acho que a gente tem que defender, em primeiro lugar, o eleitor, o povo. Se você é um partido revolucionário, um partido de trabalhadores, tem que defender o povo, o trabalhador. Então, o povo tem que ter o direito de conhecer todos os candidatos, independentemente da posição política.”
Embora tenha uma avaliação negativa dos partidos que participaram da campanha, Pimenta defendeu que todos eles estejam nos debates.
Na sequência, relacionou essa posição à tradição do movimento operário de defesa da liberdade de palavra, pensamento, organização e manifestação, criticando os setores da esquerda que passaram a defender a censura como uma medida progressista.
Solidariedade
Sobre as reações à operação da PF, Pimenta disse ter recebido manifestações de integrantes do PT e destacou a solidariedade enviada por José Rainha, dirigente da Frente Nacional de Lutas (FNL).
“Eu acho que, fundamentalmente, a solidariedade na esquerda vai vir do PT. […] A solidariedade maior, o interessante, é das pessoas que sofrem. Imediatamente, o Zé Rainha se solidarizou com a gente, falando que só quem passou por isso sabe como é. Porque é isso mesmo, a solidariedade é uma questão que você viveu, você sabe como é.”
O presidente do PCO afirmou que pensa em escrever uma carta aberta a Lula para expor a perseguição contra o Partido. Recordou que o PCO participou ativamente da campanha pela liberdade de Lula e realizou três atos diante da sede da Polícia Federal em Curitiba enquanto o atual presidente estava preso.
Até o momento da entrevista, PSTU, PCB e outras organizações da chamada esquerda radical não haviam se manifestado sobre a operação. Até a publicação desta reportagem, apenas um partido de extrema esquerda havia denunciado a perseguição, o Partido Operário Revolucionário (POR).
Ministério Público fora de controle
A entrevista abordou também o poder do Ministério Público. Pimenta recordou que, antes do golpe de 2016, o governo Dilma Rousseff enfrentou uma campanha de grandes proporções ao tentar restringir o poder de investigação do órgão.
Para o dirigente, o Ministério Público tornou-se uma estrutura com enorme autonomia e praticamente sem controle.
Ao ser questionado por Fortes se considerava o órgão “sem nenhum controle”, respondeu: “sem nenhum controle”. Perguntado se seria totalmente autônomo dentro do Estado, confirmou: “totalmente”.
Pimenta informou ainda que está em preparação um comitê para reunir vítimas de perseguição política e judicial. Entre os nomes com quem já houve conversas, mencionou Breno Altman e Ahmed Shehadeh, presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal), além de pessoas ligadas a outros casos de perseguição.
“Nós vamos fazer uma campanha. Precisa denunciar. Eu estou pensando, inclusive, em ver a possibilidade de abrir um processo contra eles, porque o que eles estão fazendo é perseguição judicial. Não pode ser.”
A iniciativa deverá reunir pessoas atingidas por diferentes processos e organizar uma campanha comum contra a perseguição judicial e em defesa das liberdades democráticas.




