Economia

Déficit recorde expõe crise da política industrial brasileira

Os números refletem décadas de desindustrialização e de abandono de uma política nacional voltada ao desenvolvimento científico e tecnológico

A balança comercial brasileira de automóveis registrou, no primeiro semestre de 2026, o maior déficit de sua história: US$ 5,32 bilhões. As importações alcançaram US$ 7,79 bilhões, enquanto as exportações caíram 15,2% em relação ao mesmo período de 2025, somando apenas US$ 2,47 bilhões.

A China respondeu por 72% dos automóveis importados pelo Brasil, um salto impressionante diante dos 5% registrados em 2021. Os veículos eletrificados — híbridos e elétricos — representaram 79% de todas as importações do setor, evidenciando o atraso brasileiro na produção de tecnologias de ponta.

Perdendo espaço

Após décadas de grande presença na exportação de automóveis para diversos países da América Latina e do Oriente Médio, entre outros, a indústria nacional vem perdendo espaço.

Em 2017, as exportações brasileiras de veículos atingiram US$ 3,3 bilhões no primeiro semestre; em 2026, caíram para US$ 2,47 bilhões. Desde 2023, quando os veículos elétricos chineses passaram a entrar em massa no mercado brasileiro, a balança comercial do setor tornou-se deficitária, aprofundando uma tendência de perda de competitividade.

O problema não pode ser explicado apenas pela eficiência da indústria chinesa. A diferença está na estratégia adotada por cada país. A China realizou investimentos maciços em pesquisa, inovação, universidades, formação de engenheiros e desenvolvimento tecnológico, além de implementar uma política industrial de longo prazo voltada para setores estratégicos, como a indústria automobilística e a produção de baterias.

Exportador de matérias-primas

O Brasil, por outro lado, consolidou um modelo econômico baseado na exportação de produtos primários, como carnes, soja, minério de ferro e petróleo. Em vez de ampliar a produção de bens industriais de alto valor agregado, o País tornou-se cada vez mais dependente da venda de matérias-primas e da importação de produtos tecnologicamente sofisticados.

Essa opção também se reflete nos investimentos insuficientes em ciência, tecnologia e educação pública. Sem uma política consistente de fortalecimento das universidades, dos centros de pesquisa e da inovação industrial, a capacidade nacional de desenvolver novas tecnologias permanece limitada. O resultado é a perda gradual de espaço da indústria brasileira nos mercados interno e externo.

O déficit recorde da balança comercial de veículos é, portanto, mais do que um dado conjuntural. Ele evidencia o enfraquecimento da capacidade produtiva nacional e a crescente dependência tecnológica do País. Sem uma política de reindustrialização apoiada no desenvolvimento científico, tecnológico e educacional, o Brasil tende a aprofundar sua condição de exportador de matérias-primas e importador de produtos de maior conteúdo tecnológico, ampliando sua vulnerabilidade econômica.

Empobrecimento

O auge da industrialização do Brasil ocorreu há 40 anos, em 1986, quando a participação da indústria chegou a 36% do PIB nacional. Atualmente, a indústria representa cerca de 23,4% da economia nacional, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Quando se isola a indústria de transformação — fábricas, produção de bens de consumo etc. —, o percentual fica próximo de 10,8% do PIB, conforme levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). Um enorme retrocesso.

Na década de 1980, o emprego formal na indústria representava 27% de todos os trabalhadores contratados no País. Atualmente, esse percentual caiu para 14%.

A desindustrialização é o principal fator do empobrecimento nacional, deixando milhões de pessoas desempregadas, sem vínculo formal de emprego ou “pejotizadas”, com salários arrochados, além de 54 milhões de brasileiros dependentes do Bolsa Família para não morrer de fome.

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