“Não há, ó gente oh não, luar como este do sertão”.
Este é o verso mais conhecido do poeta e violonista Catulo de Paixão Cearense. A música “Luar no Sertão” teve o primeiro registro fonográfico em 1914 quando foi cantada por Eduardo das Neves (https://www.youtube.com/watch?v=1FS-3ZxgyXw). Posteriormente, ganharia adaptações por Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Chitãozinho & Xororó.
O autor da canção, entretanto, é, hoje, um ilustre desconhecido. Foi um poeta sertanejo, autodidata e responsável pela popularização do violão, numa época em que o instrumento era extremamente mal visto pela sociedade. Mas a sua maior importância certamente decorreu do seu trabalho de compilação em texto escrito de uma cultura oral sertaneja do Brasil profundo, numa época em que não existia rádio nem indústria fonográfica.
Catulo de Paixão Cearense (1863/1946) nasceu em São Luís do Maranhão. Aos dezessete anos mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, então o maior centro urbano do país. Essa mudança configuraria um dos elementos constitutivos da sua poesia: o canto triste do matuto que veio para a cidade e sofre das saudades da sua terra natal.
O poeta foi um autodidata, o que lhe confere maior mérito literário. Não tinha nenhuma escolaridade e foi alfabetizado por sua mãe. Trabalhou como estivador e relojoeiro. Aprendeu o violão e passou a ministrar aulas de música. Foi assim que pôde entrar em contato com a literatura: teve acesso à biblioteca de um Conselheiro e Senador, cujo filho era seu aluno.
Foi por este caminhou que levou a cultura sertaneja ao conhecimento da elite cultural do país. As suas apresentações de violão colaboraram para a maior aceitação do violão e sua popularização. Também publicava seus versos em livros a preços baixos e com alta tiragem. Teve como admiradores o maestro Villa Lobos, Mário de Andrade e o diplomata português Júlio Dantas. Esse fazia questão de visitar o poeta na sua humilde casinha no subúrbio do Rio de Janeiro, onde lhe era oferecida a cachaça brasileira, ao invés do champagne; e o qualificou Catulo como o nosso poeta “Virgílio do Sertão”. É curioso que o maior admirador do nosso grande poeta sertanejo seja um português.
Os seus principais poemas são “O Fazendeiro e o Roceiro”, “João Branco na Capital”, “Braz Macacão” e “Resposta de Jeca Tatu”, reunidas no livro “Sertão em Flor”.
Pode-se destacar em todos eles uma facilidade de rimar típica dos cantadores populares – um deles, inclusive, reproduz o famoso duelo de cantadores, cada qual mangando do outro mediante a poesia e as notas do violão.
Nos versos também se evidencia a beleza da natureza experimentada pelo sertanejo – essas imagens do campo brasileiro desabrocham naturalmente, a poesia surge de forma espontânea, natural, imperfeita como a realidade, reproduzindo o sotaque a linguagem do caipira:
“O verso aqui do sertão
é um bêja-frô que se sente
saí da boca da gente,
cum as penuginha inda quente
do ninho do coração”.
O poeta matuto retrata sua terra com a mesma expressão visual de uma pintura realista. O que se soma ao sentimento de saudades: são diversos versos que abordam o sentimento de saudade da terra natal pelo sertanejo migrado à cidade. O que confere à poesia uma noção de perspectiva: está sempre retratando o espanto com que o matuto descobre os hábitos do mundo urbano. É o camponês que melhor aprecia sua terra natal depois de confrontá-la com a cidade.
Um poema particularmente notável de Catulo é “Resposta do Jeca Tatu”.
Dá-se a voz ao sertanejo caluniado pelo homem letrado da cidade, que só sabe ver o homem do campo de uma forma pitoresca. Trata-se de uma resposta direta a um discurso de Rui Barbosa, que usou do personagem criado por Monteiro Lobato para evidenciar aquilo que entendia ser o atraso no homem do campo. O bacharel da cidade que nunca viu um cabo de enxada, nunca experimentou a fome, anda de carro sem nunca percorrer léguas a fio diariamente , esse homem das leis qualifica o caboclo como preguiçoso, indolente e negligente…
Na sua resposta, Jeca Tatu honra a figura do camponês caluniado por Rui Barbosa:
Priguiçôso? Maracêro?
Não sinhô, Seu Conseiêro!
É pruquê vancê nun sabe
O qui seja um boiadêro
Criá cum tanto cuidado,
Cum amô e aligria,
Umas cabeça de gado…
E, dipôis, a impidimia
Carregá tudo, cos diabo,
In mêno de quato dia!…
É pruquê vancê nun sabe
O trabáio disgraçado
Qui um home tem, Seu Dotô,
Pra incoivará um roçado…
E quano o ôro do mío
Vai ficano inbunecado,
Pra gente, intoce, coiê,
O mío morre de sêde,
Pulo só isturricado,
Sequinho, como vancê!
É pruquê vancê nun sabe
O quanto é duro, um pai sofrê,
Veno seu fio crescendo,
Dizeno sempre:
Papai, vem mi insiná o ABC!
Si eu subesse, meu sinhô,
Inscrevê, lê e contá,
Intonce, sim, eu havéra
Di sabê como assuntá!
Tarvêis vancê nun dexasse
O sertanejo morrendo,
Mais pió qui um animá!
Apesar de ter sido um músico e poeta popular em seu tempo, consta que Catulo de Paixão Cearense morreu na pobreza. E o Brasil ainda segue em dívida com o seu maior trovador sertanejo.

Bibliografia
“Sertão em Flor” – Catulo de Paixão Cearense – Ed. Iba Mendes Digital




