O Brasil fez novamente um bom jogo contra o Japão e carimbou sua passagem para as oitavas de final da Copa do Mundo.
Mais importante do que a vitória, o time mostrou que continua evoluindo no campeonato. A partida contra o Japão, um time que jogou os 90 minutos na retranca, ainda que possa ter apresentado algumas deficiências, como a dificuldade para finalizar durante o primeiro tempo e a falha que originou o gol japonês, mostrou uma Seleção bem emocionalmente, ofensiva e que entregou muito em campo. Penso que essas três características sejam muito importantes e explico por quê: o melhor futebol do mundo nós temos, os melhores jogadores do mundo são brasileiros, o que nos trai é o psicológico, a falta de vontade (no sentido da raça futebolística) e a perdição de se render a um jogo burocrático de tipo europeu, em que a criatividade é substituída por um jogo sem ofensividade, que não é e nunca poderá ser a nossa característica.
Enfim, apesar da tensão do jogo, tendo que virar a partida e fazendo o gol da virada já nos acréscimos, o Brasil não levou um sufoco do Japão. Teve a partida sob controle nos 90 minutos de jogo, mas o futebol, sabemos, é injusto e esse domínio não se converteu em mais gols.
O gol do Japão foi anotado por Sano e os do Brasil por Casemiro e Martinelli. Criticamos muito a ideia de que o Brasil precisa de um técnico estrangeiro. E essa ideia em si é absurda e sempre será. Isso não significa, porém, que Ancelotti seja um mau treinador, apenas que o Brasil também tem dezenas de bons treinadores que poderiam desempenhar a função. A diferença, como vi dias atrás Dunga declarar, é que Ancelotti tem a vantagem de não ser brasileiro e, portanto, ser muito menos suscetível à pressão.
Arrisco-me a dizer, ainda, que Ancelotti até agora não cometeu nenhuma falha grave e mostra ter um controle bastante frio da situação, o que é importante, e esse jogo mostrou muito bem isso, pois os dois gols foram resultado de decisões tomadas pelo treinador: uma foi a de deixar Casemiro em campo mesmo com um primeiro tempo fraco e pendurado com cartão — Casemiro cresceu muito no segundo tempo e fez o gol; outra foi a decisão de colocar Martinelli. Os fãs de Neymar, como eu sou, dirão: mas Ancelotti insistiu em não colocar Neymar num jogo em que um jogador como ele poderia fazer a diferença. Mas até mesmo essa decisão pareceu acertada. Ancelotti já mostrou que não tem nada contra Neymar; na minha opinião, ele sabe que Neymar ainda precisa de mais ritmo de jogo e colocá-lo numa fogueira contra o Japão não seria a melhor decisão. O melhor mesmo, como se mostrou um acerto, era manter o time que estava desempenhando bem e ganhar sem precisar de Neymar.
Creio que, se o Brasil continuar evoluindo e passando jogo a jogo, Neymar tende a desempenhar um papel crucial nos jogos decisivos. Muito melhor do que corrermos o risco de perdê-lo novamente por lesão, numa Copa em que até os japoneses estão dando pisadas maldosas no tornozelo — justo o Japão, que tem uma característica de jogar mais limpo.
O Brasil ganhou sem precisar do seu melhor jogador e isso é muito bom!
Para terminar, é preciso anotar a pintura que Vinícius Jr. fez no jogo e que, por capricho dos deuses do futebol, não terminou em gol. Estava ali o artista, dando caneta, entortando o zagueiro, colocando caprichosamente a bola para dentro do gol como se um maestro empurrasse a bola com sua batuta. A bola sabia que seu caminho era o gol. Aquela bola sabia que ela seria lembrada pelo resto da história e ia contente, feliz da vida, entrar na meta japonesa, pronta a cumprir o seu ideal mais nobre enquanto bola. Mas apareceu ali Suzuki, o goleiro japonês, mais precisamente a ponta dos seus dedos, para desviar a bola de seu destino sublime.
Apesar de não ter feito o gol, creio que a jogada de Vinícius Jr. tenha sido importante para a partida. Ela fez com que os japoneses se lembrassem de que estavam enfrentando o futebol mais potente do mundo. Aquele zagueiro nunca mais foi o mesmo; talvez ele esteja lá no campo ainda, pensando em fechar as pernas para evitar o drible, como se a bola nunca mais fosse sair dali. O espírito daquela bola ficará no meio das pernas daquele zagueiro por algum tempo, talvez eternamente.
Era desse tipo de jogada que o Brasil precisou no primeiro tempo e que finalmente Vinícius Jr. fez no segundo, dando confiança para o Brasil e desmoralizando um pouco os japoneses que, pobrezinhos, acreditaram na propaganda de que o Brasil já não seria mais lá essas coisas.
Enfim, a rodada ainda nos deu a ótima notícia de que continuaremos sendo a nação dominante no futebol. Os nossos irmãos paraguaios eliminaram a Alemanha nos pênaltis, depois de um empate por 1 a 1, e não apenas garantiram a vaga para as oitavas, como eliminaram a “forte” Alemanha que não consegue nada desde 2014 (como a mandinga brasileira é boa, meu Deus!), mas, mais ainda, garantiram para nós, sul-americanos como eles, a hegemonia de sermos a Seleção que mais ganhou Copas do Mundo.
O Marrocos, também nos pênaltis e também após um 1 a 1, eliminou a também “forte” Holanda. Essa Copa não está sopa para o imperialismo europeu. Holanda e Alemanha jogaram um futebol horrível nesse campeonato e mereceram sair.
Para a “nossa” imprensa entreguista, nada disso é o suficiente. Grande parte de nossos cronistas e comentaristas esportivos vive com diarreia, principalmente quando o Brasil vence, o que dá a eles uma munição quase infinita para continuar jogando merda em nosso futebol. Não vi toda a repercussão dessa rodada de segunda-feira, mas estou certo de que a média da imprensa burguesa continuará procurando todos os problemas do mundo na Seleção — problemas reais ou imaginários (a maioria imaginários) —, que esse negócio de ser a única pentacampeã do mundo não vale nada (apesar de ninguém ter conseguido chegar até aí) e falará apenas que a Alemanha e a Holanda “tropeçaram”, que triste!
Que o Brasil siga evoluindo e que enfrentemos novos adversários que acreditem que não somos mais nada, que não metemos mais medo. A história das nossas vitórias em Copas mostrou que é melhor assim.





