Trabalhadores da construção civil denunciaram agressões e intimidação na Refinaria de Paulínia (Replan), em Paulínia, na segunda-feira (29), após novos ataques ocorridos durante a paralisação. Dirigentes sindicais cobraram providências da Petrobrás diante de uma sequência de episódios que inclui seguranças privados armados, homens encapuzados, colisão provocada contra veículo sindical, espancamento, ameaça com faca, tiros para o alto e a hospitalização de grevistas, entre eles um trabalhador com risco de perder a visão.
A violência contra os trabalhadores da construção e montagem na Replan chegou a um grau típico de repressão patronal aberta. O caso mais expressivo foi a imagem de um terceirizado com o rosto ensanguentado depois de ter sido agredido durante a mobilização, em cena que foi exposta nas redes sociais.
Na mesma denúncia, aparecem a faca que teria sido usada para intimidar os grevistas e o veículo danificado durante a ação. A legenda divulgada pelo Sindicato dos Petroleiros Unificado apontou:
“Trabalhador da construção civil mostra os ferimentos sofridos após a agressão denunciada durante a greve na Replan. Ao lado, a faca utilizada para intimidar os grevistas, segundo relatos dos trabalhadores, e o veículo danificado durante a ação”.
A paralisação dos terceirizados começou depois que a categoria rejeitou a proposta apresentada pelas empresas contratadas para prestar serviços na unidade. Os trabalhadores reivindicam reajuste salarial de 9%, melhora nos benefícios, aumento do vale-alimentação, do café da manhã, da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e da cesta natalina. A resposta dada ao movimento foi a repressão da greve pela força.
Desde o início da mobilização, os grevistas relataram tentativas de pressão contra o piquete. Na madrugada de quarta-feira (24) para quinta-feira (25), seguranças privados armados apareceram pela primeira vez no local montado em frente à unidade.
A situação se agravou na madrugada de quinta-feira para sexta-feira (26). Dois trabalhadores foram agredidos depois de pararem o veículo para verificar movimentação suspeita nas proximidades da Portaria Sul da Replan. Um dos atingidos relatou que, por volta de 1h40, viu carros se movimentando na região e decidiu parar. Em seguida, cerca de 15 homens encapuzados desceram de cinco ou seis veículos e iniciaram as agressões sem qualquer pergunta ou aviso.
Os trabalhadores apontaram que homens encapuzados cercaram e atacaram grevistas e dirigentes, enquanto veículos eram usados para bloquear a passagem. O automóvel utilizado pelo sindicato também foi alvo da ação. Segundo os relatos, cerca de cinco carros cercaram o veículo dos dirigentes sindicais e provocaram uma colisão. A ação deixou feridos e parte das vítimas precisou ser hospitalizada.
Um dos trabalhadores, com sangue escorrendo pela cabeça, afirmou que foi atingido com taco de beisebol. Ele também relatou que quatro pistolas foram apontadas contra ele, que houve tiro para o alto e que seu carro foi quebrado. A descrição revela um quadro de terror contra a greve: agressão física, arma de fogo, disparos intimidatórios, destruição de patrimônio e ataque coordenado por grupo encapuzado.
Na segunda-feira (29), dirigentes da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Sindipetro Unificado voltaram à Replan para denunciar a escalada da violência e cobrar providências da Petrobrás. A coordenadora-geral interina da FUP, Cibele Vieira, esteve na Portaria Sul e afirmou que, depois da presença de segurança privada armada e de uma madrugada de agressões violentas, a Polícia Militar passou a aparecer de forma ostensiva nas portarias, dificultando o contato entre o sindicato e os trabalhadores mobilizados.
O coordenador-geral do Sindipetro Unificado, Steve Austin, cobrou atuação imediata da Petrobrás. Ele afirmou ser inadmissível que a empresa mantenha relação com firmas acusadas de contratar grupos para atacar trabalhadores que exercem o direito de organização e luta. As denúncias também envolveram a empresa Quality, apontada pelos trabalhadores nas acusações de intimidação.
A Petrobrás, como responsável pela unidade e pelas relações com empresas contratadas dentro de seu sistema, não pode se apresentar como parte externa ao conflito. A greve ocorre em uma refinaria sob sua responsabilidade. Se terceirizados que atuam na Replan são cercados, espancados, ameaçados com faca, intimidados com armas e impedidos de organizar sua paralisação, a empresa tem responsabilidade política e material de intervir para garantir a integridade física dos trabalhadores e o respeito ao direito de greve. Para isso, é necessária pressão ampla dos sindicatos e federações, com atos, apoio direto à greve e fortalecimento dos piquetes e, em último caso, uma ampliação da própria greve.
Manter os terceirizados isolados nesse confronto favorece os patrões. A divisão entre empregados próprios e terceirizados sempre foi uma das formas de enfraquecer a categoria petroleira. Os trabalhadores terceirizados costumam estar submetidos a salários mais baixos, maior instabilidade, mais pressão e condições piores. Quando entram em greve e são atacados com métodos dignos de ditadura, a resposta não pode ser deixá-los sozinhos na linha de frente.
A repressão contra a greve na Replan mostra que o problema ultrapassa uma disputa salarial localizada. Se um movimento por reajuste, vale-alimentação, café da manhã, PLR e cesta natalina pode ser recebido com homens encapuzados, armas, tiros, facas e espancamentos, então o direito de todos os trabalhadores está ameaçado.
Mesmo sob ameaça, intimidação e violência, os trabalhadores seguem mobilizados. Esse fato mostra disposição de luta da categoria, mas também evidencia o risco de desgaste caso a paralisação continue restrita aos terceirizados. A ampliação da greve, com a entrada dos efetivos e o envolvimento de categorias próximas, mudaria a correlação de forças e reduziria o espaço para novas agressões.



