Polêmica

A esquerda ranzinza que só reclama do esporte

A crítica do esporte por parte da esquerda pequeno-burguesa é uma atitude arrogante, e o único resultado disso é o afastamento da classe trabalhadora

Discóbolo - Mirone di Eleutere – 455 a.C.

A esquerda pequeno-burguesa, completamente ranzinza quando se trata de esporte, repete uma discussão de pelo menos 2.600 anos. Xenófanes de Colofão, um filósofo da Grécia Antiga, não via como a força física poderia ser superior à sua sabedoria. Essa, que não gosta de nada que seja popular, pois considera inferior, segue na mesma linha, como se vê no artigo Das Olimpíadas de Hitler à Copa do Mundo de Trump, de Giorgio Mitralias, publicado no sítio Esquerda Online neste domingo (21).

Na época de Xenófanes (séc. VI a.C.), um vencedor dos Jogos Olímpicos ganhava o status de verdadeiro semideus. Eles recebiam pensões vitalícias, estátuas, isenção de impostos e os melhores assentos nos teatros. Xenófanes olhava para aquilo e pensava: “estamos invertendo os valores”. Em um de seus fragmentos que restaram, argumenta mais ou menos que “se um homem vencer uma corrida, ou no pentatlo, ou na luta livre… ele será visto como mais ilustre pelos cidadãos. Ganhará comida do Estado e um presente caro. Mas ele não é tão digno quanto eu! Pois a nossa sabedoria (filosofia) é muito melhor do que a força física de homens e cavalos”.

O filósofo complementava dizendo que a força de um boxeador ou de um corredor não enchia os celeiros da cidade e nem melhorava as leis da pólis. Em suma: músculos não geram boa governança.

Milênios depois…

Na maioria da esquerda, a desculpa para odiar os esportes, especialmente o futebol, é a questão dos negócios e do uso político da modalidade.

O artigo foca na questão do fascismo e do racismo. A chatice começa logo no primeiro parágrafo que diz que “a primeira surpresa que temos nesta Copa do Mundo de 2026 é a impressionante amnésia de todos os envolvidos, incluindo a mídia internacional. Nada, nem uma palavra, absolutamente nenhuma menção à sua infame “antecessora”, as Olimpíadas de Berlim de 1936. Pois, apesar dos 90 anos que as separam, as afinidades eletivas entre as Olimpíadas de Hitler e a Copa do Mundo de Trump são gritantes: a mesma exploração midiática de um evento esportivo pelos mesmos regimes autoritários, racistas e opressores da liberdade, conduzidas por líderes supremos megalomaníacos desprovidos de escrúpulos morais e democráticos.”

Mais impressionante seria alguém ficar se lembrando das Olimpíadas de 1936. Naquele ano, aliás, Hitler era bem visto pelo mundo “civilizado”. Muitos o enxergavam como um caso de sucesso por debelar uma inflação astronômica, controlar preços e salários, se impor sobre os sindicatos e por conter a classe operária.

A “Copa do Mundo de Trump” não será pior que uma de Joe Biden, ou um Barack Obama (que é negro, já que se fala em racismo) que destruiu a Síria, a Líbia, intensificou a ocupação no Afeganistão, espionou Dilma Rousseff, etc.

No parágrafo seguinte, o autor escreve que “semelhanças e afinidades eletivas nos permitem compreender e avaliar melhor as diferenças entre as Olimpíadas de Hitler e a Copa do Mundo de Trump. E a primeira delas diz respeito às reações populares e de outros setores que elas provocaram. Praticamente nenhuma em 2026, pelo menos por parte de Nações e de organizações internacionais. E apenas alguns, bem poucos mesmo, protestos e críticas aqui e ali por parte de ONGs e movimentos sociais. Em suma, uma apatia que revela uma aceitação resignada do evento, baseada em um fatalismo clássico: ‘o que alguém pode fazer contra esse gigantesco circo?’.”

Não se sabe por onde anda quem escreveu esse artigo. Em São Paulo, e foi assim seguramente por todo o País, as ruas estavam desertas pouco antes do jogo da Seleção. Até os camelôs que ficam próximos das estações de metrô foram para casa. Havia pessoas apressadas pelos corredores das estações para pegarem a condução e chegarem logo em casa e não perderem o início da partida.

O Brasil inteiro para para assistir os jogos. Só a esquerda pequeno-burguesa esteve apática, eis a grande verdade.

No que diz respeito às ONGs, a maioria delas recebe dinheiro da CIA ou de fundações que servem como fachada, tipo Open Society (de George Soros), Fundação Ford, etc., todas apoiadoras do genocídio em Gaza. De que adianta reclamar de Trump e aceitar dinheiro de outros fascistas que se escondem atrás da máscara da democracia?

O “circo”

O que o Xenófanes não percebeu, e nem esse pessoal do Esquerda Online, é que o esporte não é apenas um espetáculo vazio. Em diversas culturas, serve como meio de coesão social, rituais sagrados e preparação para a sobrevivência.

Nossos índios, por exemplo, mantêm os Jogos dos Povos Indígenas. Bem antes disso, já aconteciam as celebrações do Kuarup (no Xingu), onde se luta o Huka-huka. Existe ainda a corrida de tora, testes de arco e flecha e canoagem.

Os esportes podem ter uma função de rito, onde a competição não serve para enriquecer o vencedor e humilhar os perdedores; tem o intuito de testar a resistência dos jovens, celebrar, treinar para caça e defesa. Há ainda outra vantagem: no esporte, a agressividade é canalizada dentro de um ambiente controlado

Enquanto essa esquerda chata fica falando que “o notório colonialista, racista, antissemita e misógino “pai das Olimpíadas modernas”, Barão de Coubertin, jamais escondeu sua admiração por seu “amigo” Adolf Hitler (…) Copa do Dinheiro”, etc., se esquece que o futebol, por exemplo, é um dos únicos meios da população negra sair da pobreza, e inclusive se destacar, basta olhar para as seleções de países como a França, Bélgica, dentre outras. A esquerda pequeno-burguesa, inclusive, se esquece de olhar para a própria natureza.

Existe o comportamento lúdico no reino animal. Quando filhotes de felinos passam horas se perseguindo, dando botes falsos, se engalfinhando e fingindo morder o pescoço uns dos outros, eles estão fazendo exatamente o que um jovem atleta faz em um treino de boxe, jiu-jitsu ou futebol.

O jogo serve para o treino fino dos reflexos, do cálculo de distância, da força da mandíbula e da musculatura. Um felino que não brinca de caçar quando filhote se torna um adulto desajeitado, incapaz de conseguir alimento ou de se defender.

Grandes primatas (como chimpanzés e bonobos) e outros macacos frequentemente fazem acrobacias, saltos ornamentais de galho em galho, piruetas e cambalhotas apenas por diversão.

Existe prazer no movimento, o cérebro dos mamíferos superiores é recompensado com dopamina e endorfina quando eles realizam movimentos complexos e desafiadores.

Além de fortalecer os músculos, essas acrobacias “por diversão” mapeiam o cérebro do animal, alteram sua plasticidade, ensinando-o a lidar com a gravidade, o equilíbrio e a percepção espacial.

Para um povo guerreiro, como foram os gregos, Xenófanes estava errado ao achar que a força física dos atletas não servia para nada na pólis grega, foi fundamental para a economia e até mesmo para liberar os filósofos do trabalho físico.

Nos dias de hoje, temos uns esquerdistas que não conseguem entender uma coisa básica como nossa realidade biológica. Além de tudo, essa chatice arrogante só faz com que a classe trabalhadora se afaste ainda mais da esquerda.

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