Juca Simonard

Editor da revista Na Zona do Agrião e redator do Dossiê Causa Operária

Coluna

Início difícil é o padrão das campanhas vitoriosas

Empate serviu como um teste competitivo real, onde o técnico acertou ao corrigir a defesa no segundo tempo, sacando os jogadores amarelados e dando solidez ao time

O empate do Brasil em 1 a 1 contra o Marrocos não é nenhum desastre. O torcedor sempre quer ganhar, mas a história mostra que grandes campanhas começam sob teste. Em 2018, empatamos com a Suíça na estreia; em 1994, empatamos com a Suécia na fase de grupos; em 2002, contra a Turquia, o jogo foi duríssimo; e em 2010, classificamos após empatar com Portugal.

O Marrocos é uma seleção de altíssimo nível, semifinalista da Copa passada, que só não passou da França por conta da roubalheira da arbitragem. O regulamento atual classifica dois times por grupo e os melhores terceiros colocados. Brasil e Marrocos vão passar sem problemas. O jogo serviu para o técnico testar o time contra um adversário competitivo. O sufoco inicial de dez minutos estava previsto, pois a Seleção Brasileira joga com uma pressão brutal em cima da cabeça.

A Seleção é a que mais sofre pressão no planeta. Não apenas por ser a melhor do mundo e entrar em campo sempre com a obrigação da vitória, mas devido à campanha de desestabilização promovida pela imprensa pró-imperialista, pelos cartolas e pelos empresários que orbitam o futebol. É essa pressão que faz o time iniciar partidas de forma desorganizada, com os jogadores dispersos e inseguros. Em 1970, contra a Checoslováquia, começamos perdendo por 1 a 0 antes de virar para 4 a 1. Em 58 e 62 a pressão era gigante sobre o que chamavam de “o melhor futebol fracassado do mundo”.

O trabalho de ser técnico do Brasil é o mais difícil do mundo porque o país tem qualidade técnica individual para montar três seleções (A, B e C) e todas entrariam como favoritas na Copa do Mundo. Essa abundância de material humano gera uma fritura pública que não ocorre em nenhuma outra seleção.

É preciso denunciar a situação anômala e absurda desta Copa do Mundo sediada nos Estados Unidos. Enquanto no Catar a propaganda da imprensa burguesa focava na situação dos trabalhadores, o que vemos agora em solo americano é o puro terrorismo de Estado do imperialismo. Um jogador do Iraque ficou retido por horas tendo que provar que não era terrorista. Um árbitro da Somália foi sumariamente deportado e impedido de trabalhar. Torcedores de diversos países tiveram seus vistos negados.

O caso do Irã é o mais grave e criminoso. A delegação teve vistos negados e foi obrigada a se hospedar no México. Para jogar na Costa Oeste dos EUA, os jogadores precisam viajar, jogar e voltar no mesmo dia. A Rússia foi banida das competições, mas os Estados Unidos cometem esses absurdos e não sofrem nenhuma punição da FIFA, que é uma entidade totalmente submissa aos interesses financeiros do imperialismo. Se a FIFA fosse séria, os EUA seriam banidos de sediar qualquer torneio de futebol para sempre. Proibiram até a camisa do Haiti, que homenageava a revolução haitiana e a primeira revolta de escravos vitoriosa do século XVI. Essa Copa já nasceu manchada.

O VAR funciona como o “vídeo arrumador de resultados”, exatamente como denunciamos em 2018. No jogo recente entre Estados Unidos e Paraguai, o jogador paraguaio simulou uma falta, o juiz deu amarelo para o defensor americano, mas o VAR chamou para inverter a marcação e punir o paraguaio, blindando os donos da casa.

Nas Copas anteriores, a seleção brasileira foi assaltada de forma sistemática. Em 2018, contra a Bélgica, houve um pênalti claríssimo em cima de Gabriel Jesus e o VAR sequer acionou o juiz. Em 2022, contra a Croácia, houve mão na área não marcada e uma agressão contra o Antony, que foi puxado pela boca num lance proibido até no MMA, e ninguém chamou o árbitro.

O regulamento do futebol está virando uma espécie de Constituição interpretativa, cheia de brechas que facilitam a manipulação dos resultados externos. Copa do Mundo é guerra. A delegação brasileira precisa entrar em campo sabendo que jogará contra 11 atletas e contra a manipulação da arbitragem. Em 1970, o Pelé tomava chute na cara dentro da área, a Itália descia o cacete, e ganhávamos por 4 a 1 porque o time entendia essa realidade.

Do ponto de vista técnico, o grande problema do Brasil na estreia foi a falta de construção no meio-campo. É o tipo de jogo que demonstra a falta que o Neymar faz à seleção. Ele virou o cérebro do time. Não é mais o jogador de arranque de 2014, e o próprio Tite estava correto ao dizer que ele precisa jogar por dentro. O arranque hoje deve ficar para os pontas como Vini Jr., Luiz Henrique e Rafinha; o Neymar é o cara que pensa o jogo e quebra as linhas defensivas — dado estatístico comprova que ele foi o jogador que mais furou linhas adversárias e o que mais sofreu faltas na última Copa antes de se lesionar.

Paquetá atuou como organizador ofensivo hoje, mas não fez uma boa partida e não se entendeu com Rafinha. Por outro lado, as mexidas táticas foram corretas. O treinador tirou os jogadores amarelados (Ibañez e Casemiro) e colocou Danilo e Fabinho, o que garantiu maior solidez defensiva no segundo tempo. Destaco também o uso de faltas táticas para parar o contra-ataque adversário imediatamente, uma postura agressiva que nos faltou no fim do jogo contra a Croácia em 2022.

Vinícius Júnior fez um golaço em jogada individual. A crítica de que ele não rende na seleção o mesmo que no Real Madrid esbarra em um fator psicológico e na carga de responsabilidade jogada sobre ele devido à ausência de Neymar.

A vitória da Coreia do Sul sobre a República Checa serve para uma reflexão profunda. No passado, quando a Checoslováquia, a Hungria e a Iugoslávia eram Estados operários com economias planificadas, o esporte era organizado em benefício do desenvolvimento da população. Mesmo com a burocracia, o avanço era extraordinário e esses países disputavam finais de Copa do Mundo com equipes tecnicamente formidáveis. O imperialismo destruiu tudo, fatiou a Iugoslávia em sete nações, e o futebol da região ruiu. Hoje, a Chéquia pratica um futebol decadente, limitando-se a lançamentos de lateral na área e chuveirinhos com jogadores gigantes e trogloditas.

Se o Brasil, que é o país do futebol, tivesse uma economia planificada estruturando o esporte de forma racional, teríamos um nível futebolístico inimaginável. O Brasil só se mantém como o maior vencedor de Copas e eterno favorito por causa de uma cultura enraizada no povo, que resiste à desorganização criminosa provocada por empresários, cartolas e pela imprensa burguesa. Enquanto isso, a Itália fica de fora de sua terceira Copa do Mundo consecutiva, o que escancara a farsa da supremacia do futebol europeu.

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