Coluna

Neoliberalismo não desenvolverá o Brasil

Ilusões neoliberais precisam ser combatidas no debate político

Alguém que tenha começado a acompanhar o debate político brasileiro nos últimos dez anos pode facilmente formar a impressão de que o Brasil seria um país “estatizante”, hostil à iniciativa privada, sufocado por direitos trabalhistas e dominado por privilégios do funcionalismo público. Essa narrativa liberal foi repetida à exaustão pela imprensa, pelos bancos, pelos grandes empresários e pelos porta-vozes do mercado financeiro até se transformar em senso comum. Entretanto, basta olhar minimamente para a realidade concreta para perceber que o quadro é precisamente o oposto.

O Brasil é um país profundamente subordinado aos interesses do grande capital. O sistema financeiro registra lucros bilionários ano após ano, mesmo em meio a crises econômicas e desemprego em massa. As privatizações avançaram em diversos setores estratégicos, o investimento público foi desmontado em nome do “ajuste fiscal” e os trabalhadores sofreram sucessivos ataques: reforma trabalhista, terceirização irrestrita, reforma da previdência, teto de gastos e destruição de serviços públicos. Tudo isso foi vendido como necessário para “modernizar” a economia e atrair desenvolvimento. O resultado concreto foi mais precarização, mais dependência econômica e menos capacidade de crescimento nacional.

O problema é que a esquerda institucional, especialmente o PT, frequentemente abandona o terreno econômico e aceita os marcos ideológicos impostos pela direita. Em vez de atacar o bolsonarismo e o liberalismo pelo conteúdo de suas propostas econômicas — que aprofundam a miséria social e a submissão do país ao imperialismo — prefere concentrar sua crítica em pautas morais ou em denúncias de corrupção. Evidentemente, corrupção existe e preconceitos devem ser combatidos. Mas reduzir o enfrentamento político a isso significa deixar intacto o núcleo central do problema: o projeto econômico defendido pela direita.

A direita transforma qualquer discussão econômica em um debate moral. Quando se fala em direitos trabalhistas, dizem que o trabalhador é “privilegiado”. Quando se defende empresa estatal, acusam de “atraso”. Quando se critica banqueiros e rentistas, falam em “insegurança jurídica”. O objetivo é impedir que a população compreenda quem efetivamente controla a riqueza do país e quem se beneficia da destruição nacional.

É preciso recolocar a questão econômica no centro do debate político. Nenhum país subdesenvolvido alcançou desenvolvimento seguindo o receituário imposto pelo Banco Mundial, pelo FMI e pelos economistas liberais. Pelo contrário: os países hoje desenvolvidos utilizaram forte intervenção estatal, proteção da indústria nacional, planejamento econômico e controle estratégico sobre setores fundamentais da economia durante seus processos de industrialização. Como demonstra Ha-Joon Chang em “Chutando a Escada”, as grandes potências defendem para os países periféricos exatamente o oposto daquilo que fizeram para enriquecer. O mesmo argumento aparece em “Como os Países Ricos Ficaram Ricos… e Por Que os Países Pobres Continuam Pobres”, de Erik Reinert, ao mostrar que o livre mercado serviu historicamente muito mais para consolidar a dependência dos países pobres do que para promover desenvolvimento.

Enquanto isso, no Brasil, continua-se repetindo que o problema do país seria “gasto público”, “excesso de direitos” ou “Estado grande”, quando o verdadeiro peso morto da economia nacional é a transferência permanente de riqueza para o setor financeiro e para os grandes grupos privados associados ao capital internacional.

A esquerda precisa abandonar a defensiva ideológica e enfrentar diretamente os dogmas liberais. Não é possível combater a extrema direita aceitando silenciosamente sua visão econômica de mundo. O debate político deve ser recolocado em termos de classe, desenvolvimento nacional e soberania econômica. Pânico moral e guerras culturais são instrumentos utilizados pela direita justamente para esconder o essencial: a destruição das condições de vida da maioria da população em benefício de uma minoria parasitária.

O terreno econômico é justamente aquele em que a realidade mais desmente a propaganda liberal. E é exatamente por isso que ele precisa voltar ao centro da disputa política.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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