Juca Simonard

Editor da revista Na Zona do Agrião e redator do Dossiê Causa Operária

Coluna

Natália P.

Seu legado está e estará marcado para sempre nos corações de todos os jovens que lutam — e lutarão — pela libertação da humanidade

Escrever esse artigo é, provavelmente, uma das tarefas mais árduas com as quais me deparei na minha vida. Isso porque, desde o falecimento da minha querida amiga e irmã de outros pais, Natália Pimenta, em novembro do ano passado, ainda não havia escrito nada sobre o assunto. Naquele momento, seria uma missão impossível; seu martírio — pelas mãos do Estado e dos tubarões da saúde — afetou profundamente não só a mim, como a todos os companheiros que viveram ao seu lado.

Mas aqui não quero discorrer sobre minha relação pessoal com Natália — o que seria válido, pois todo o pouco de informação que pode haver sobre a vida da companheira já é um favor à história do movimento operário.

Quero discorrer sobre suas qualidades como militante histórica da luta revolucionária no Brasil. Em primeiro lugar, suas qualidades como organizadora. Natália é daquelas pessoas que os outros se reúnem naturalmente ao redor.

Conheci-a pessoalmente, pela primeira vez, em sua casa no ano de 2017. Já sabia quem era, pois acompanhava a imprensa do Partido desde 2013 e li alguns de seus artigos e assisti a algumas de suas palestras. Quando comecei a frequentar mais assiduamente a Comuna — e, depois, quando morei lá em 2018 —, percebi que Natália era a liderança natural de toda uma juventude que surgira em meio à luta contra o golpe de Estado.

Era para ela que pedíamos conselhos, não apenas da vida pessoal, como para a execução de tarefas políticas. Natália era uma pessoa sensível — e não entendam mal: sabia ser firme quando era necessário; mas, sem dúvida, uma de suas maiores qualidades era lidar com pessoas, algo imprescindível na construção de uma organização revolucionária.

Pessoalmente, minha relação com ela passou a ser ainda mais forte quando, em 2022, fomos trabalhar juntos na Editora Democritos. A partir de então, nos víamos todos os dias, passávamos horas durante e depois do trabalho conversando — às vezes madrugada adentro. E posso dizer, sem nenhuma sombra de dúvida, que ela se tornou a maior amiga que já tive.

Mas, como disse, não é disso que quero tratar.

Natália tinha o dom de organizar pessoas e o Partido. Não por acaso, quando ainda era apenas uma adolescente, foi responsável por reunir um amplo setor da juventude para iniciar o Diário Causa Operária, o primeiro diário da esquerda na Internet. Não apenas isso, foi também responsável por liderar amplas manifestações estudantis entre 2008 e 2012 — editando o jornal USP Livre, que se tornou o principal porta-voz dos estudantes.

E isso me leva a um segundo ponto fundamental para compreender Natália: sua capacidade intelectual extraordinária. Naturalmente, para realizar tudo isso que mencionamos (e muito mais que ficará de fora dessa coluna, mas que lembraremos em um livro que estamos preparando), é necessário ter um profundo conhecimento das mais diversas causas.

Natália tinha uma compreensão refinada de política, mas também de economia, filosofia, marxismo, ciências e, sobretudo, uma bagagem cultural extraordinária. Era uma ávida leitora, cinéfila e uma amante convicta do Brasil. Era ela a líder da célula cultural de São Paulo, que, entre outras coisas, organizava o Cineclube Luís Buñuel, o Clube de Leitura Cadáver Esquisito (agora Natália Pimenta), a produção da revista Breton etc.

Sua preferência, em leitura, como ela mesma afirmou, era a literatura nacional, mas lia todo tipo de coisa: de futebol até mitologia grega.

Era uma grande fã do cinema antigo, principalmente das décadas de 1930 e 1940, e uma fã de carteirinha de Beatles, mas gostava de Cinema Novo, ouvia jazz, samba, música clássica, enfim: era uma apaixonada e conhecedora de todas as coisas boas que a civilização humana nos proporcionou.

Desta forma, era uma grande crítica: sabia argumentar e mostrar seu ponto de vista. Não havia como, ao lado dela, não iniciar importantes discussões sobre os mais diversos assuntos. Portanto, era uma marxista por excelência que engrandecia todos aqueles que estavam no seu entorno.

Na ocasião de seu aniversário, deixo essas humildes recordações — muito aquém do que seria necessário para uma pessoa de tamanha grandeza.

Perdi minha melhor amiga, minha conselheira, minha mestre. O movimento operário e revolucionário perdeu uma liderança única — e a humanidade, uma mente brilhante.

Mas tal perda foi apenas física. Seu legado está e estará marcado para sempre nos corações de todos os jovens que lutam — e lutarão — pela libertação da humanidade.

Te amo, guardo-te para sempre no meu coração e nas minhas memórias.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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