Morreu nesta terça-feira (5), em Brasília, Teresa Regina de Ávila e Silva, mãe do ativista brasiliense Thiago Ávila, mantido refém por “Israel” desde 30 de abril. Aos 63 anos, Teresa enfrentava esclerose lateral amiotrófica (ELA) há anos. A morte foi confirmada pelo Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol-DF), do qual a outra filha de Teresa, Luana de Ávila, é vice-presidente. Até o fechamento desta reportagem, a família não havia divulgado informações sobre velório e sepultamento.
A perda ocorre enquanto Thiago Ávila permanece encarcerado em Asquelão, na costa de “Israel” próxima à fronteira norte da Faixa de Gaza, impedido, pela prisão imposta pelo governo de Benjamin Netaniahu, de prestar as últimas homenagens à mãe.
Em audiência realizada também na terça-feira, o Tribunal de Magistrados de AsquelÃo prorrogou por mais seis dias a prisão de Thiago Ávila e do militante espanhol-palestino Saif Abu Keshek. A detenção dos dois agora se estende até as 9h de domingo (10).
A defesa, conduzida pela ONG israelense de direitos humanos Adalah, sustentou na audiência que as acusações apresentadas não têm qualquer fundamento. As advogadas argumentaram que não existe vínculo entre a entrega de ajuda humanitária e qualquer “organização terrorista” e que a legislação israelense não pode ser aplicada aos militantes, sequestrados há mais de mil quilômetros da Faixa de Gaza e sem qualquer cidadania israelense.
A defesa também reiterou os relatos de tortura. Thiago está mantido em cela solitária sem janelas, em ambiente gelado e com luz forte sobre o rosto durante 24 horas para provocar privação de sono. Apresenta marcas no rosto e dores nas costas. Durante a abordagem em águas internacionais, foi espancado até desmaiar e ficou temporariamente cego. No transporte para “Israel”, foi mantido algemado e vendado. Após a captura, iniciou greve de fome.
O sequestro em águas internacionais
Thiago Ávila e Saif Abu Keshek foram capturados na madrugada de 30 de abril durante ataque da Flotilha Global Sumud por forças militares de “Israel” em águas internacionais, a menos de 150 quilômetros da ilha grega de Creta. A operação criminosa prendeu 173 tripulantes de 22 embarcações que tentavam romper o cerco imposto à Faixa de Gaza e levar ajuda humanitária à população palestina submetida ao genocídio. Dos detidos, apenas Ávila e Abu Keshek foram sequestrados e levados a “Israel”; os demais foram levados para a ilha grega de Creta.
A acusação formal contra os dois é de associação à Conferência Popular para os Palestinos no Estrangeiro (PCPA), classificada por “Israel” e pelos Estados Unidos como organização vinculada ao partido palestino Hamas. Durante o interrogatório, foram exibidas fotos da rotina familiar de Thiago, incluindo da esposa, a psicóloga Lara Souza, e da filha Teresa, de dois anos. O episódio levou os deputados federais João Daniel (PT-SE), Luizianne Lins (Rede-CE) e Luiz Couto (PT-PB) a acionarem a Polícia Federal, o Itamaraty, o Ministério Público Federal e o Ministério dos Direitos Humanos.
Lula se manifesta nas redes sociais
No mesmo dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou em sua conta na rede social X um pronunciamento sobre a prisão de Thiago Ávila:
“Manter a prisão do cidadão brasileiro Thiago Ávila, integrante da flotilha ‘Global Sumud’, é uma ação injustificável do governo de Israel, causa grande preocupação e deve ser condenada por todos. A detenção dos ativistas da flotilha em águas internacionais já havia representado uma séria afronta ao direito internacional. Por isso, nosso governo, juntamente com o da Espanha, que também teve um cidadão detido, exige que eles recebam plena garantia de segurança e sejam imediatamente soltos.”
A declaração nas redes sociais é, até o momento, a única manifestação pública do governo brasileiro diante da manutenção do sequestro de um de seus cidadãos.
A vergonha do governo brasileiro
Era melhor que tivesse ficado calado. O pronunciamento do governo Lula nas redes sociais é apenas o registro público da própria fraqueza. Não é reação diplomática, não é defesa efetiva do cidadão brasileiro sequestrado, não é exigência de fato. Reforça a desmoralização de um governo que assiste à tortura de um brasileiro em mãos estrangeiras e responde com uma publicação na Internet.
O crime de Thiago Ávila foi andar de barco. “Israel”, essa entidade que se arroga superioridade moral sobre o conjunto da humanidade, decidiu que navegar rumo à Gaza sitiada constituía ato criminoso e, por essa razão, foi até o mar da Grécia capturar o militante brasileiro e atirá-lo numa prisão onde, segundo a defesa denuncia, está sendo torturado. Mais uma demonstração do profissionalismo do regime sionista quando o assunto é terrorismo e tortura.
O contraste com o caso oposto é verdadeiramente grotesco. Quando um soldado israelense, que efetivamente participou do genocídio na Faixa de Gaza, incluindo o assassinato de uma criança, esteve em território brasileiro, o governo Lula não fez absolutamente nada. Não prendeu, não interrogou, não abriu nenhum procedimento judicial. O criminoso simplesmente foi embora. Foi o Mossad, agência de espionagem estrangeira, que organizou em solo brasileiro a operação de retirada do soldado, salvando-o de eventual julgamento por seus crimes de guerra.
Infelizmente, é preciso reconhecer: o trabalho do Mossad foi muito mais eficiente na defesa dos interesses do governo israelense e de sua população do que o do governo brasileiro na defesa dos seus.
A inversão é completa. Um brasileiro que, longe de cometer qualquer crime, dedica-se e arrisca a vida pela libertação de um povo oprimido, massacrado, martirizado, é abandonado pelo seu próprio governo. Um soldado genocida estrangeiro é protegido em território brasileiro pela ação de uma agência de espionagem de outro país.
A resposta do governo Lula a tudo isso se resume a uma repreensão protocolar a Netaniahu. “Bibi, que coisa feia que você fez”, diz Lula. Nenhuma medida concreta, nenhuma sanção, nenhuma retaliação diplomática. Nada. É vergonhoso.





