O Estreito de Ormuz voltou ao centro da crise no Oriente Médio neste sábado (18), quando as autoridades iranianas anunciaram uma nova restrição total ou severamente condicionada da passagem pela via marítima, em resposta direta à manutenção do bloqueio norte-americano contra portos e navios iranianos. A decisão foi apresentada por diferentes órgãos do Estado iraniano ao longo do dia.
Segundo a Marinha do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), o Irã havia aceitado, após o anúncio do cessar-fogo, permitir a passagem de embarcações não militares por um corredor específico. Essa medida, no entanto, foi revertida no mesmo sábado à noite. Em comunicado, a força naval iraniana afirmou que, diante da violação das condições do cessar-fogo e da manutenção do bloqueio norte-americano contra navios e portos iranianos, o Estreito de Ormuz foi fechado novamente até que esse bloqueio seja removido. o CGRI advertiu ainda que nenhuma embarcação deve se deslocar de seu ponto de ancoragem no Golfo Pérsico ou no Mar de Omã em direção ao estreito sem autorização, classificando qualquer tentativa nesse sentido como cooperação com o inimigo.
A formulação do comunicado revela que o problema central não é simplesmente a circulação marítima em si, mas o fato de os Estados Unidos tentarem impor uma situação de guerra econômica e militar mesmo depois de aceitarem uma trégua. O governo iraniano sustenta que não há cessar-fogo real quando uma das partes mantém medidas de asfixia naval e tenta continuar ditando unilateralmente as regras do trânsito em uma região sobre a qual o próprio Irã possui autoridade direta.
Mais cedo, também no sábado, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã já havia deixado claro que o país manteria o controle de todo o tráfego no Estreito de Ormuz até que fosse alcançado um acordo negociado para o fim da guerra imposta por Estados Unidos e “Israel”. De acordo com esse órgão, a supervisão iraniana sobre a passagem marítima continuará em vigor enquanto não houver encerramento definitivo do conflito. O Conselho afirmou que o Irã exigirá dados completos de todas as embarcações em trânsito, emitirá permissões específicas de passagem, imporá rotas determinadas pelas condições de guerra e cobrará taxas relativas à segurança, à proteção ambiental e aos serviços associados ao tráfego marítimo.
Essa posição foi apresentada como resposta ao fato de que grande parte da logística militar norte-americana no Golfo Pérsico depende justamente de Ormuz. Para o Irã, portanto, a questão não é apenas comercial, mas de segurança nacional. Se os Estados Unidos utilizam a região como plataforma militar contra o próprio Irã, então o trânsito marítimo deixa de ser um assunto neutro e passa a integrar o teatro do conflito.
A atual crise é o desdobramento de uma guerra de agressão iniciada em 28 de fevereiro. Após o começo dessa guerra, o Irã fechou o Estreito de Ormuz para navios vinculados aos agressores e seus aliados. Nas semanas seguintes, a pressão sobre a rota marítima se transformou em um dos principais instrumentos de disputa entre os dois lados.
Depois de cerca de 40 dias de guerra, foi anunciada uma trégua temporária, associada a uma proposta iraniana de dez pontos para encerrar o conflito. Donald Trump aceitou essa estrutura de negociação, mas o próprio desenrolar dos acontecimentos mostrou que o governo norte-americano tentava, ao mesmo tempo, colher os benefícios de uma redução da tensão e preservar os mecanismos de pressão contra o Irã. A contradição apareceu de forma cristalina quando os Estados Unidos mantiveram o bloqueio naval e passaram a fazer declarações públicas sobre Ormuz em aberta divergência com os termos aceitos nas conversas diplomáticas.
Na sexta-feira (17), horas depois de entrar em vigor um cessar-fogo no Líbano — apontado pelo Irã como uma das condições essenciais para sua aceitação da trégua —, o país persa havia autorizado a reabertura limitada do estreito para embarcações comerciais. Não se tratava, entretanto, de uma abertura irrestrita. O chanceler Abbas Araghchi anunciou que o trânsito seria permitido apenas em rota coordenada pelo Irã, e a Guarda Revolucionária esclareceu que somente navios comerciais poderiam passar, sempre mediante autorização e dentro de corredores definidos pelas autoridades iranianas. Navios militares continuariam proibidos, assim como embarcações comerciais ligadas aos países hostis.
O que ocorreu em seguida reforçou a tese iraniana de que o imperialismo não pretendia respeitar nem mesmo um arranjo provisório. Trump correu para as redes sociais para afirmar que o Irã teria concordado em nunca mais fechar Ormuz e que o bloqueio naval norte-americano contra o país permaneceria “em pleno vigor” até a conclusão de uma “transição”. As autoridades iranianas rejeitaram de forma categórica essas declarações.
Na manhã de sábado, o porta-voz do Quartel-General Central Selo dos Profetas, tenente-coronel Ebrahim Zolfaghari, já havia anunciado que o Irã restabelecera o estado anterior de controle sobre Ormuz em razão do que chamou de “pirataria” e “banditismo” dos Estados Unidos sob o disfarce de um bloqueio naval. Segundo ele, a República Islâmica havia aceitado de boa-fé, no curso das negociações, uma passagem administrada de um número limitado de petroleiros e navios comerciais. Mas, como os Estados Unidos seguiram interferindo nas rotas iranianas e não levantaram as restrições contra embarcações de e para o país, a situação voltou ao estágio anterior, sob controle intenso das Forças Armadas.
O chamado bloqueio dos Estados Unidos não corresponde inteiramente à realidade material no mar. Um levantamento com dados da empresa de monitoramento marítimo Kpler indicou que, mesmo durante o período em que o governo norte-americano afirmava ter implementado plenamente o bloqueio, três petroleiros iranianos sancionados — Deep Sea, Sonia I e Diona — conseguiram cruzar o estreito na sexta-feira (17) transportando, juntos, cerca de cinco milhões de barris de petróleo bruto a partir da ilha de Kharg. Para o Irã, isso evidencia que a tentativa norte-americana de transformar Ormuz num instrumento de chantagem esbarra tanto na capacidade operacional iraniana quanto na própria centralidade geográfica do país.





