O Peru caminha para um segundo turno presidencial entre dois nomes da extrema direita. Com pouco mais de metade das atas apuradas na manhã desta segunda-feira (13), Keiko Fujimori, do Fuerza Popular, aparecia com cerca de 17% dos votos, seguida por Rafael López Aliaga, do Renovación Popular, com cerca de 15%, resultado que encaminha uma disputa direta entre o fujimorismo e um empresário de extrema direita no pleito marcado para 7 de junho. Os dados foram divulgados em meio a uma apuração lenta, depois de uma jornada eleitoral marcada por falhas logísticas, denúncias de fraude e a extensão da votação para esta segunda em parte de Lima.
A eleição ocorreu num cenário de fragmentação extrema. Ao todo, 35 candidatos concorreram à Presidência, número recorde no país, e nenhum deles se aproximou dos 50% necessários para vencer em primeiro turno. Mais de 27 milhões de peruanos foram convocados às urnas para escolher presidente, vice-presidentes, deputados, senadores e representantes do Parlamento Andino. O novo presidente terá pela frente um Congresso bicameral e um quadro de governabilidade difícil em um país que teve oito presidentes na última década e poderá chegar ao nono em dez anos.
O resultado parcial consolida o avanço da direita no Peru. Keiko Fujimori, de 50 anos, tenta chegar ao poder pela quarta vez consecutiva em um segundo turno. Filha e herdeira política de Alberto Fujimori, ela comanda o partido Fuerza Popular e baseou sua campanha na defesa de “ordem” e “mão dura”. Seu nome está diretamente ligado ao legado do ex-presidente, condenado por violações de direitos humanos e falecido recentemente. Nas eleições anteriores, Keiko chegou ao segundo turno em 2011, 2016 e 2021, sendo derrotada em todas elas.
Seu adversário mais provável é Rafael López Aliaga, ex-prefeito de Lima, empresário milionário e dirigente do Renovación Popular. O candidato é considerado um ultraconservador e membro da Opus Dei. Em campanha, apresentou um discurso de forte repressão penal, defendendo o envio de presos para cárceres em zonas remotas da Amazônia, a ampliação da punição máxima e até o fuzilamento em determinados casos. Também acusou as autoridades eleitorais de fraude ainda durante a votação e chegou a apresentar denúncia penal contra o chefe da ONPE, Piero Corvetto, pedindo sua detenção imediata.
Embora tenham trajetórias e estilos diferentes, Keiko e López Aliaga convergem em pontos centrais. Ambos fizeram da criminalidade e da corrupção os principais eixos da campanha. Os dois defenderam megapenitenciárias de segurança máxima, a retirada do Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos e políticas de endurecimento repressivo. A disputa, assim, tende a opor dois projetos de direita dura, num país onde a agenda eleitoral foi fortemente dominada pelo tema da segurança pública.
A ascensão dos dois candidatos ocorre em meio a uma prolongada crise política. A própria eleição confirmou esse cenário. Em Lima, problemas na distribuição de material eleitoral impediram a instalação de mesas em 15 centros de votação, afetando dezenas de milhares de eleitores. Inicialmente, a ONPE informou que mais de 63 mil pessoas tinham ficado sem votar; depois, o número foi revisado para 52.251 eleitores, distribuídos em 187 mesas. O Jurado Nacional de Eleições determinou a continuidade da votação nesta segunda-feira para esses casos.
As falhas logísticas desencadearam forte reação política. Candidatos e eleitores passaram a denunciar possível fraude, enquanto a Promotoria realizou diligências na sede da ONPE para apurar os atrasos na entrega do material. López Aliaga foi o mais agressivo entre os presidenciáveis, dizendo ter sido prejudicado justamente em Lima, seu principal reduto eleitoral.
O quadro político peruano também é marcado por forte dispersão do voto. Além de Fujimori e López Aliaga, nomes como Jorge Nieto, Ricardo Belmont, Carlos Álvarez, Alfonso López-Chau e Roberto Sánchez apareceram com percentuais relativamente próximos nas primeiras contagens e pesquisas de boca de urna, mostrando um eleitorado dividido e uma disputa altamente fragmentada. No entanto, conforme a apuração avançou, os dois nomes da direita se consolidaram na dianteira.
A esquerda apareceu enfraquecida na eleição. Roberto Sánchez, herdeiro político do presidente deposto Pedro Castillo, surgiu inicialmente entre os nomes em empate técnico pelo segundo lugar em pesquisas de boca de urna, mas caiu nas contagens posteriores.




