Documentos sigilosos da Receita Federal, entregues à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado do Senado, revelam que o Banco Master, comandado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, pagou R$ 80,2 milhões ao escritório de advocacia Barci de Moraes Sociedade de Advogados ao longo de 22 meses, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, é uma das sócias do escritório, que também tem como sócios os dois filhos do casal.
Os pagamentos, fixos em R$ 3.646.529,72 por mês, totalizaram R$ 40,1 milhões em 2024 e igual montante em 2025. O contrato, que previa R$ 129 milhões em três anos, foi interrompido em novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, instituição no centro do que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou como “a maior fraude bancária da história do Brasil e talvez uma das maiores do mundo”.
Desde a posse de Alexandre de Moraes no STF, em 2017, o patrimônio imobiliário do casal cresceu 266%. Atualmente, o casal detém 17 imóveis avaliados em R$ 31,5 milhões. Nos últimos cinco anos, foram gastos R$ 23,4 milhões na aquisição de propriedades; todos os pagamentos foram realizados à vista. O escritório também é proprietário do Instituto Lex de Estudos Jurídicos, que detém 11 imóveis avaliados em R$ 12,4 milhões, incluindo a residência do ministro em São Paulo e apartamentos de luxo em Campos do Jordão, apesar de sua atividade oficial ser apenas “capacitação profissional”, sem estrutura física de ensino ou corpo discente.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, descreveu os pagamentos como uma “anomalia econômica” e “desproporcional”, observando que valores dessa magnitude são raros mesmo para escritórios globais em operações de fusões bilionárias.
Documentos investigados pela CPI indicam que Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes realizaram ao menos oito voos em aeronaves particulares vinculadas a empresas ligadas a Daniel Vorcaro entre maio e outubro de 2025. Em uma das ocasiões, o ministro teria voado de Brasília a São Paulo em um avião ligado ao banqueiro e se encontrado com ele no dia seguinte, o que levanta questões sobre possível conflito de interesses, dado que o STF é a instância máxima para julgar questões relacionadas à liquidação do Banco Master.
O gabinete de Alexandre de Moraes afirmou que o ministro “nunca viajou em avião pertencente a Daniel Vorcaro ou em sua empresa”, mas não abordou a possibilidade de voos em aeronaves de empresas associadas a Vorcaro, nem negou o suposto encontro. O escritório Barci de Moraes, por sua vez, inicialmente afirmou que “não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente”, para depois esclarecer que contrata serviços de táxi aéreo e que os custos são “abatidos dos honorários advocatícios nos termos contratuais”.
O contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes previa serviços de representação perante o Banco Central, a Receita Federal e o Congresso. Porém, após questionamentos formais dos senadores Eduardo Girão (NOVO-CE) e Magno Malta (PL-ES), todas essas instituições responderam que Viviane Barci de Moraes nunca atuou em nome do Banco Master perante esses órgãos.
Em março de 2026, o escritório informou que realizou 94 reuniões de trabalho, 79 delas presenciais na sede do Master, e que montou uma equipe de 15 advogados mais três consultorias especializadas. O escritório afirmou ter fornecido “consultoria e atuação jurídica” e destacou que “nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF”.
Os senadores Girão e Malta protocolaram pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal de Viviane Barci de Moraes, alegando “modus operandi clássico de organizações criminosas de colarinho branco”, no qual honorários astronômicos são pagos por serviços sem evidência de execução.
A maior fraude bancária da história do Brasil
O caso do Banco Master vai muito além dos pagamentos ao escritório de Moraes. O esquema fraudulento comandado por Daniel Vorcaro causou prejuízos estimados em R$ 56 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e levou à liquidação de oito instituições financeiras, incluindo Banco Master, Will Bank, Letsbank e Banco Pleno.
A fraude incluía a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB (Banco de Brasília) por meio da empresa de fachada Tirreno. Vorcaro oferecia CDBs com rendimentos de até 140% do CDI, utilizando a garantia do FGC de R$ 250 mil para atrair investidores. O esquema era sustentável apenas enquanto novos investidores continuassem a alimentar o fluxo de recursos, uma pirâmide financeira disfarçada de instituição bancária.
Investigações sugerem que Vorcaro pagava “mensalidades” a servidores do Banco Central, incluindo Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-diretor de Supervisão) e Belline Santana, para facilitar aprovações e burlar a fiscalização regulatória. Há indícios de que a compra inicial do Banco Máxima (posteriormente renomeado para Banco Master) em 2017 envolveu fundos do narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin.





