O artigo Irã dos aiatolás é um país agressivo que interfere nos Estados à sua volta, de Luiz Felipe Pondé, publicado na Folha de S. Paulo neste domingo (5), é mais uma peça de propaganda sionista/americana, e de péssima qualidade.
Por falar em interferir em Estados à sua volta, quem destruiu Gaza, atacou a Síria, está atacando o Líbano e diz que precisa expandir as fronteiras para construir a Grande não sei o quê?
Quem destruiu a Iugoslávia, a Líbia, sequestrou o presidente da Venezuela e está impondo um cerco genocida contra Cuba? Faltou ponderação ao articulista, pois poderia ao menos escolher um título melhor para seu panfleto, um que não lembrasse ao leitor quem de fato interfere.
Como todo mau escritor, Pondé tenta forçar um ar dramático ao dizer “ouço as gargalhadas dos aiatolás quando veem a mídia de muitos países ocidentais, incluindo o Brasil, torcendo por eles”. Talvez tivesse a esperança de que todos imaginem uns seres de turbante, com ar vampiresco, esfregando as mãos sobre o mapa ensanguentado do Oriente Médio.
Porém, a imagem da escola de meninas reduzida a cinzas, a foto da mochila cor-de-rosa com manchas de sangue, são mais fortes, falam por si. Por isso que, no Brasil, “os aiatolás e sua Guarda Revolucionária contam com esse apoio”.
Advogado de fascistas
No mesmo parágrafo, é dito que “ódio ao Trump, amor ao Irã dos aiatolás, ainda que disfarçados em análises de especialistas”. Trump é reconhecido como um extremista de direita, é ligado a Epstein; não deveria ser odiado? O fascista não deve ser execrado? Que tipo de democrata é o “filósofo” Luiz F. Pondé? Nada como uma crise para desmascarar certos oportunistas.
“Ouvimos os gritos de ‘bem feito’ quando aviões americanos são destruídos ou Israel é bombardeado pelos iranianos”, reclama Pondé; mas, que reação ele espera dos seres humanos quando vêm a punição de genocidas, demolidores de casas, e assassinos de crianças?
A grande imprensa, que tanto fala em democracia, que critica ditaduras, se revela ela mesma fascista.
Confissões de um ‘filósofo’
“Lembro de quando criança” escreve Pondé, “sendo criado num ambiente no qual os adultos discutiam política durante a ditadura, de como a inteligência de então torcia pelos vietcongues, Vietnã do Norte, URSS e China na guerra contra os EUA, guerra esta vencida pelos comunistas”. Nada disso parece ter calado no garoto, que viria a se enfileirar no movimento Jovem Sionista; e que, segundo consta, “serviu para preencher suas ‘ansiedades de jovem adolescente’ tanto no aspecto social quanto no identitário”. Vale lembrar que o articulista fez pós-graduação na Universidade de Telavive.
Pondé pondera que, “longe daquele tempo, vimos o capitalismo vencer tanto na Rússia, quanto na China – ambos regimes ainda totalitários – e no próprio Vietnã, hoje destino turístico de gente chique e metida. A mesma reação é vista com relação a Cuba ainda hoje, uma ditadura mentirosa e miserável. Nada mudou”.
A leitura do articulista, para variar, é equivocada. A URSS foi destruída pelo neoliberalismo, o modelo econômico que deslocou setores produtivos inteiros para a China em busca de mão de obra barata. O resultado é uma crise sem precedentes na economia americana e europeia. Além, disso, os governos russo e chinês têm enorme controle sobre a economia, o que os torna um tipo de capitalismo bastante peculiar.
Quanto a crítica à Cuba, Pondé perdeu a chance de ficar calado. O mundo todo está vendo a crueldade da “democracia” americana, que coloca não o governo, mas a população inteira de um país em uma situação calamitosa.
O que esse “filósofo” pensa sobre os americanos terem proibido Cuba de comprar seringas descartáveis e ventiladores pulmonares em plena pandemia de Covid? Quem é a ditadura mentirosa e miserável? É essa que Pondé defende.
Argumentos rasteiros
Apesar de ser tratado em toda parte como filósofo, Pondé utiliza de argumentos dos mais rasteiros. Diz, por exemplo, que “não se trata de dizer que o capitalismo ou os americanos são anjos. Em geopolítica não há anjos”, certo, mas que cogitou essa hipótese?
Apesar do título do artigo, de suas críticas ao Irã e os demais, tem a coragem de dizer que “não há por que torcer por ninguém”. Sério? O que ele está fazendo sem disfarces?
O suprassumo da mediocridade aparece quando escreve o seguinte: “Pergunto-me se quem torce pelo Irã preferiria ir para Nova York ou Teerã? Há uma grave dissociação cognitiva nessa torcida pelo Irã”. O mesmo argumento surrado que aparece nos comentários das redes sociais.
Por que as pessoas não iriam para Teerã? Talvez porque sejam visíveis as marcas que décadas de bloqueios econômicos impostas pelo pessoal de Nova Iorque deixaram no Irã?
Pondé acusa Cuba de ser uma ditadura mentirosa, mas é ele quem mente descaradamente ao dizer que “o regime do Irã pratica feminicídio, perseguição a gays —toco nesses temas porque estão na moda na imprensa— tortura da sua população, corrupção em larga escala”.
Para azar do articulista, o mundo todo sabe que os EUA e “Israel” praticam feminicídio e infanticídio simultaneamente e não apenas em Gaza e no Irã. E ele toca no assunto porque é uma caneta de aluguel.
Os sionistas torturam os presos palestinos, inclusive crianças de um ano, isso está amplamente divulgado. Os EUA, na Escola das Américas, desde 1946, treinaram mais de 60 mil soldados a praticarem tortura. Por que ele não fala de Dan Mitrione, da Operação Condor?
Apesar disso e de “não torcer por ninguém”, Pondé diz que “a democracia americana é uma federação real, os estados têm enorme autonomia em sua legislação (…) enquanto o Brasil é uma federação de araque em que todo o dinheiro e o poder estão nas mãos de Brasília”. Enquanto reclama da corrupção brasileira, o “filósofo” se esquiva de explicar como o contribuinte americano paga US$ 4 milhões por um mísero míssil.
Pateticamente, o articulista diz que “há poucos dias vimos milhares de pessoas protestando contra a guerra nos Estado Unidos. Alguém preso? Torturado? Internet cortada?”. O que foi que fizeram com os estudantes que protestaram contra o genocídio em Gaza? Ou será que Pondé tem memória de peixe?
Manipulando a realidade
Outra falsificação do articulista é dizer que “desde a Revolução Islâmica no Irã em 1979, o Irã se definiu como um poder inimigo e competidor dos Estados Unidos na disputa pelo poder no Oriente Médio” e é preciso corrigir. O Irã foi definido como inimigo porque tirou do poder o ditador queridinho dos EUA, o xá Reza Pahlavi.
No último parágrafo está escrito que “o Irã caminha para se tornar um ‘proxy’ da China na região. Todo mundo sabe disso, por isso Trump foi pra guerra”. Como mais uma prova de sua “isenção”, Pondé, ataca o Irã, a China; e, de quebra, apoia o fascista Trump e justifica a guerra.
Finalmente, pitando seu cachimbo e tentando fazer cara de inteligente e ponderado, Pondé decreta que “o problema com as análises geopolíticas ideologicamente enviesadas é que ignoram a realidade em favor do ‘parquinho anti-imperialista’”. Ele é uma piada.




