O artigo Declaração de Neymar mostra como vai ser desafiador criminalizar misoginia, de Milly Lacombe, publicado nesta sexta-feira (3) no UOL, mostra que retornamos à Idade Média. Se, antes, se perseguiram as bruxas, hoje, são os “misóginos”. Mudou-se o objeto, mas a mentalidade é a mesma: prender, punir. A fogueira foi substituída pelas prisões, que matam igual, mas mais lentamente; e, claro, torturam.
No resumo do texto se lê que “Neymar saiu do jogo bastante nervoso, apesar da vitória do seu time, e disse que o juiz, cuja arbitragem teria sido ruim e injusta, estava ‘de chico’”. A expressão é decadente e um dia foi usada para apontar mulheres que estariam menstruadas. É uma expressão ruim e infantil e, no caso, usada para sugerir que mulheres em seus dias de menstruação são incapazes de agir com sensatez.
Para a colunista do UOL, “é misoginia. Ponto. Mas e agora? O que fazer?” É senso comum que as mulheres, quando prestes a menstruar, ou no período, ficam com o humor alterado. Se falar isso for misoginia, e misoginia virar crime, vai ser necessário colocar grades em volta do Brasil, vai ser necessário prender todo mundo, inclusive mulheres. É o fim dos tempos.
Como se não bastasse, Lacombe diz que “o repórter que estava entrevistando Neymar passou acelerado pela declaração misógina. Nada para ver aqui, circulando. Não chamou a atenção de Neymar para a misoginia explícita e emendou com outra pergunta sobre o jogo. Volta para o estúdio. Narrador e comentaristas tampouco reclamaram da misoginia. Zero. Não incomodou, será? Ou incomodou e eles preferiram não se envolver? Não sabemos”.
É o mais completo absurdo. A jornalista ataca o jogador, ataca também o repórter que, segundo ela, deveria trabalhar para a polícia de costumes. Além do repórter, o narrador e o comentarista também ficaram calados. O que sugere que são todos misóginos, ou, no mínimo, cúmplices.
Não ocorreu à senhora Lacombe que ninguém falou nada porque chega a ser inacreditável que isso deva ser considerado misoginia.
Patrulha ideológica
Na cabeça da jornalista, “tudo o que sabemos é que precisamos de homens que estejam dispostos a se envolver. Não adianta apenas postar homenagens à colega de trabalho quando o presidente do Flamengo é misógino sem citar o nome do misógino”. Quem vai querer ficar trabalhando de fiscal da moral, repreendendo os outros e policiando tudo o que falam?
Em seguida, afirma: “vai ser preciso que homens confrontem outros homens, que se indisponham, que tenham coragem. Isso, claro, se quiserem ser chamados de aliados”. Será que isso tem alguma chance de acontecer? Será que essa jornalista tem alguma ideia de como funcionam os relacionamentos humanos? Se um trabalhador ouvir seu patrão falando algo “misógino”, vai repreendê-lo? Não, vai ser “aliado”.
A jornalista diz que “haverá sempre aqueles que preferem não se misturar porque, afinal, essa luta não é deles. É por causa desses comportamentos que o machismo finca suas garras. Por causa dos que são abertamente misóginos e por causa daqueles que olham para o outro lado quando testemunham seus pares sendo misóginos”.
Fica assim decretado que o machismo é culpa de quem o pratica e também de quem está por perto. Agora, surge uma pergunta: qual será a diferença entre machismo e misoginia? Todo machista é misógino? E todo misógino é machista? Um misógino que for preso deve ter a pena agravada se também for machista? E, se não for, deve receber algum tipo de atenuante, talvez apenas pagar algumas cestas básicas?
Segundo a colunista, “misoginia é a diminuição, a ridicularização, o deboche e o desprezo por tudo o que é da ordem do feminino. No trilho da misoginia, a fala é a estação primeira e o feminicídio é o ponto final. É por isso que estamos prestes a criminalizá-la. Tardiamente, diga-se”.
Sendo assim, qualquer piada sobre mulheres será misoginia. Sendo assim, é preciso proibir a divulgação de antigos programas de humor que depreciem as mulheres, ou nos quais elas apareçam com poucas roupas, pois isso seria uma exploração da imagem da mulher. Aqueles sketches com mulheres burras estão definitivamente banidos.
O escritor inglês Bernard Shaw, conhecido por sua “misoginia”, deverá perder seu título de Sir, e seus livros deverão ser queimados. Platão? Nem de longe deve ser lido, nem mesmo nos cursos de Filosofia. Gregos? Fora! Nietzsche? Ai de quem for pego lendo um de seus livros. Aliás, todos os livros que citam o autor deverão ser reeditados, com advertências e notas explicativas sobre sua intransigente misoginia. Monteiro Lobato? Esse aí já está no Index Librorum Prohibitorum identitário faz tempo.
Certos trechos da Bíblia não devem mais ser lidos. O Velho Testamento deverá ser reescrito.
Toda arte erótica deverá receber tarjas nas partes pudendas das mulheres ou ser retirada dos museus. A pornografia deverá ser punida com prisão perpétua ou, a depender do caso, pena de morte.
Fica decretado que as palavras homem e misógino passam a ter o mesmo significado.
Retrospectiva
Para punir os homens de hoje, Lacombe recorre ao passado. Diz que “a ideia de que a menstruação é sinônimo de sujeira e de fraqueza prevaleceu” e que “foi com o genocídio de mulheres, chamado folcloricamente de ‘caça às bruxas’, que a ideia ganhou consenso”. Além disso, “o colonialismo exportou para as colônias a noção de que a menstruação estava ligada a coisas espúrias e que homens deveriam manter distância de mulheres enquanto elas sangram porque o descontrole aumenta”.
Assim como a humanidade herdou o pecado original de Adão e Eva, os homens que nasceram nas colônias recebem também esse penduricalho.
Tentando pegar uma carona na sociologia — seria melhor que se concentrasse nos comentários esportivos —, Milly Lacombe diz que há no mundo uma divisão “entre razão (dos homens) e emoção (das mulheres)”. Não satisfeita, crava que “essa divisão é o que causa tantas violências contra corpos femininos”. Chamar mulher de “corpo feminino” não seria misoginia? É depreciativo, diminui… Não são as condições precárias de vida e a posição subalterna na produção social de riquezas que provocam a violência, mas uma suposta divisão entre razão e emoção.
Que fique o alerta: todo homem/misógino que for tecer alguma consideração sobre os comentários esportivos da senhora Lacombe não diga nada, guarde para si; a menos, óbvio, que sejam elogios.


