O Estado de “Israel” foi surpreendido no início de maio deste ano pela força demonstrada pelo Hesbolá em ataques com foguetes e drones contra alvos militares.
Após os assassinatos de lideranças da milícia xiita, incluindo o secretário-geral Sheik Hassan Nasrallah, morto em bombardeios em Beirute em 2024, e das mortes ocasionadas pelas explosões de pagers, o governo israelense afirmou que o Hesbolá estava enfraquecido e não representaria mais uma ameaça. A imprensa imperialista mundial levou adiante uma campanha contra o Hesbolá, dizendo que este fora abatido e se encontrava isolado diante da população.
Em 27 de novembro de 2024, foi assinado um acordo de cessar-fogo entre “Israel” e a milícia xiita. Nos 15 meses seguintes, os israelenses violaram o acordo mais de 15 mil vezes e forçaram o deslocamento de cerca de 800 mil libaneses do sul para regiões centrais e do norte do país. O grupo armado aproveitou esse período para se recuperar das perdas e reconstituir sua capacidade de combate, fato reconhecido pelo Centro Meir Amit de Inteligência e Informações sobre o Terrorismo.
O colunista Haviv Drucker, do jornal Haaretz, destacou que “Benjamin Netanyahu, Israel Katz e Eyal Zamir prometeram eliminar a ameaça do Hesbolá e desarmar o grupo. No entanto, o governo não conseguiu sequer desarmar o Hamas, muito mais fraco, em dois anos”.
Os ataques do Hesbolá, realizados em solidariedade ao Irã, evidenciaram a dificuldade de derrotar o grupo, apesar dos bombardeios constantes no sul do Líbano, nos subúrbios de Beirute e das tentativas de operações terrestres.
Diante disso, “Israel” passou a adotar uma nova tática: fomentar uma guerra civil no Líbano, incentivando o confronto entre as forças armadas libanesas e a milícia xiita. O Hesbolá conta com cerca de 100 mil combatentes armados e treinados, além de um vasto arsenal de mísseis e drones. Já o Exército Libanês possui aproximadamente 80 mil homens, mas carece de armamento estratégico devido ao embargo imposto pelos Estados Unidos.
O cessar-fogo também trouxe mudanças políticas internas. O presidente Joseph Aoun e o primeiro-ministro Nawaf Salam, apoiados pelos Estados Unidos, elaboraram um plano para desarmar o Hesbolá e transferir suas armas ao Exército. O Secretário-Geral Naim Qassem reagiu afirmando que o desarmamento deixaria o país indefeso diante do expansionismo israelense e facilitaria a execução do projeto da “Grande Israel”.
Salam declarou à CNN que buscava normalizar as relações com “Israel”, apesar das constantes destruições de infraestrutura e mortes de civis libaneses. O enviado norte-americano Tom Barrack ironizou a ideia de fortalecer o Exército Libanês para defender o território, afirmando que Washington estaria armando-o para lutar “contra seu próprio povo”.
No início de maio, Salam intensificou sua ofensiva política contra o Hesbolá, classificando os ataques contra alvos israelenses como “ilegais”. Em Beirute, foi aprovado um plano para banir todas as atividades militares da milícia.
O comandante das Forças Armadas, Rudolphe Haykal, posicionou-se contra o desarmamento imediato, defendendo que isso só poderia ocorrer após o fim da guerra. Ele ressaltou que não fazia sentido atacar aqueles que combatem a agressão israelense. O próprio Exército anunciou ter atuado em conjunto com o Hesbolá para impedir a infiltração de soldados israelenses mediante um pouso de helicóptero no Vale Bekaa.
Estados Unidos, Arábia Saudita e França, pressionaram pela substituição de Haykal. Contudo, há resistências no interior do Exército Libanês devido a receios de que a instabilidade política se aprofunde no país. Uma parcela significativa da população é favorável ao Hesbolá, que é um partido político com representação parlamentar e administra um conjunto de organizações de assistência social, religiosas e esportivas.
As posições de Haykal dificultaram a execução do plano de desarmamento, levando o senador norte-americano Lindsey Graham (Partido Republicano – Carolina do Sul) a pedir sua remoção. Paralelamente, a França apresentou uma proposta que incluía o reconhecimento do Estado de Israel por parte de Beirute.
Analistas apontam que o Exército Libanês poderia se dissolver caso fosse forçado a combater o Hesbolá, já que é reconhecido que grande parte de seus integrantes simpatiza com a milícia. Estima-se que entre 25% e 50% dos militares sejam xiitas, mesma identidade étnico-religiosa do grupo.
Na impossibilidade de derrotar o Hesbolá militarmente, potências estrangeiras buscam utilizar agentes internos no Líbano para tentar destruir a milícia. O lançamento do Exército do Líbano contra o Hesbolá poderia deflagrar uma guerra civil de consequências imprevisíveis.




