Representantes de entidades de caminhoneiros anunciam a preparação para uma greve nacional no futuro próximo devido ao aumento no preço do óleo diesel. A Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava) e o Sindicato dos Caminhoneiros de Santos (Sindicam) anunciam adesão, com possível paralisação para a próxima semana.
Segundo o representante da Abrava, Wallace Landim, conhecido como Chorão:
“Vai ter greve. Se for preciso, vamos fechar rodovias. A categoria já deliberou por isso e estamos articulando nacionalmente com outros grupos.”
Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL), que havia anunciado sua adesão, retificou a posição, alegando aguardar os frutos de uma reunião nesta quarta-feira (18) com caminhoneiros autônomos em Santos (SP).
A queixa apresentada pelos representantes da categoria reside na viabilidade econômica da realização dos fretes, em razão da alta do preço do óleo diesel e no descumprimento da Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, instituída pela Lei nº 13.703/2018.
Ainda nas palavras de Chorão:
“Esse movimento agora é pela sobrevivência da categoria. Não é mais uma questão pontual; é porque a conta simplesmente não fecha.”
Sem o cumprimento do piso para fretes e com a alta do diesel, “não compensa rodar. Tem caminhoneiro que não tem dinheiro nem para voltar de uma viagem, porque o diesel subiu e o frete não acompanha”, conclui Chorão.
Alta do diesel
Com os preços dos combustíveis atrelados à cotação internacional, o valor do óleo diesel sofreu um aumento no último mês de aproximadamente 19%. Para conter essa tendência, o Governo Lula reduziu a zero as alíquotas de PIS/Cofins, propondo aos governadores uma política similar com as taxas estaduais.
Essa medida tornou-se inócua frente a um aumento efetuado pela Petrobrás no dia posterior à redução, de R$0,38 por litro do combustível. Esse cenário gerou frustração e revolta entre os caminhoneiros, como colocado por Chorão:
“O governo tem que assumir a responsabilidade. Já sabia que a Petrobras ia aumentar o diesel depois das medidas, então, na prática, não resolveu nada para a gente.”
“O problema é que o custo sobe e não conseguimos repassar isso no frete. Quem contrata pressiona para pagar menos”, afirma Chorão.
Piso dos fretes
Em 2018, após mobilização e greve, a categoria dos caminhoneiros conseguiu o atendimento de uma das suas reivindicações mediante a Lei nº 13.703/2018. Essa normativa estabelece uma “tabela” mínima para o serviço de fretes, considerando diversos fatores, o que garantiria uma remuneração mínima aos condutores.
A questão levantada, assim como ocorre com outros mandamentos legais que favorecem os trabalhadores, está no descumprimento dessa legislação, o que acaba proporcionando um aumento no lucro dos contratantes.
“É a mesma situação de 2018. A gente conquistou direitos, como a lei do piso mínimo do frete, mas hoje ela não é cumprida na prática”, denunciou o representante do movimento. “Não tem fiscalização nem penalização para as empresas que não respeitam a lei, e isso acaba jogando o caminhoneiro para baixo”, complementa Chorão.
Economia vai mal das pernas
Embora exista uma campanha sobre os resultados econômicos do governo Lula 3, é notável a insatisfação popular com a política econômica. Destinando quase metade do orçamento federal ao pagamento de juros e amortização da dívida pública, o governo mantém uma taxa Selic elevadíssima, com respectivos juros reais insustentáveis, beneficiando somente a especulação e a usura bancária.
A mobilização atual dos caminhoneiros é uma consequência dessa política, agravada pela alta dos preços do petróleo cru no mercado internacional. A mesma política que mantém o Banco Central independente da população — e dependente dos bancos — conserva e aprofunda a privatização da Petrobrás, atrelando seus preços ao mercado externo para maximizar o lucro dos acionistas.
Parte dessa insatisfação transparece nessa mobilização pelas condições de vida dos trabalhadores condutores de carga. É uma questão objetiva, que coloca a população em oposição aberta contra a superexploração financeira.
Essa eventual greve, justa em suas reivindicações, expõe a fragilidade do governo, colocando-o em uma situação muito delicada. Seja pela força da categoria, cuja greve pode ter um impacto econômico devastador, seja pela perda do capital político ao negligenciar e confrontar reivindicações de uma categoria estratégica, o cenário se agrava por estarmos em um ano eleitoral.




