Donald Trump passou a segunda-feira (16) tentando vender a ideia de que teria uma coalizão internacional a caminho para enfrentar a decisão do Irã de fechar o Estreito de Ormuz aos Estados Unidos e seus aliados. Até o momento, porém, nenhum país confirmou participação na operação, e vários governos já rejeitaram publicamente o pedido norte-americano.
A tentativa de formar uma força naval para impor a passagem pelo estreito encontrou resistência justamente entre países do núcleo mais poderoso do imperialismo, que ajudaram a empurrar a guerra contra o Irã, mas agora procuram deixar Trump sozinho. O presidente norte-americano chegou a dizer que “numerosos países” estariam a caminho, mas se recusou a citar nomes. Também afirmou que o secretário de Estado, Marco Rubio, faria um anúncio oficial. Até agora, esse apoio não apareceu.
A recusa mais importante veio da Alemanha. O porta-voz do governo de Friedrich Merz, Stefan Kornelius, declarou em Berlim que “esta guerra não tem nada a ver com a OTAN” e que a aliança militar “não é a aliança desta guerra”. Segundo ele, os Estados Unidos e “Israel” não consultaram os europeus antes de iniciarem a agressão e, no começo da guerra, chegaram a afirmar que a ajuda europeia não era necessária nem desejada.
O governo alemão informou que não participará de nenhuma operação militar para manter o estreito aberto “enquanto esta guerra continuar”. Kornelius acrescentou ainda que Berlim sequer recebeu um pedido formal dos EUA para esse tipo de participação.
A declaração procura apresentar a Alemanha como se estivesse à margem do conflito. Não é o caso. No começo da guerra, o próprio Merz viajou aos Estados Unidos e afirmou a Trump que estava “na mesma página” quanto ao objetivo de mudança de regime no Irã. Agora, diante do agravamento da crise econômica e dos efeitos da guerra sobre a principal economia europeia, o governo alemão tenta se afastar da operação naval sem romper politicamente com a agressão.
A contradição apareceu nas próprias declarações das autoridades alemãs. Kornelius afirmou que a posição de Berlim sempre foi de acordo “em princípio” com o objetivo da operação, embora agora passem a surgir dúvidas sobre o caminho adotado. O ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, já havia se mostrado cético no sábado (14). O ministro da Defesa, Boris Pistorius, foi ainda mais direto ao perguntar o que Trump esperaria “de um punhado de fragatas europeias que a poderosa Marinha dos EUA não consegue fazer”.
A França também rejeitou o pedido norte-americano para enviar navios de guerra ao Estreito de Ormuz. O Ministério das Relações Exteriores francês negou que estivesse preparando esse envio e informou que seu grupo naval permaneceria no Mediterrâneo Oriental. A formulação francesa tenta sustentar que a posição de Paris continuaria “defensiva e protetiva”, embora a França faça parte do bloco imperialista que dá cobertura à guerra.
Outros países também recusaram o chamado. Austrália, Japão, China, Noruega e Espanha negaram participação. Polônia, Suécia e Espanha afirmaram que não têm intenção de enviar embarcações militares. O Reino Unido e a Coreia do Sul disseram que ainda analisam a situação. Londres, apesar da pressão pública de Trump, deslocou apenas oito marinheiros para o Barém, como parte de uma unidade de caça-minas.
As potências europeias, a OTAN e o aparato de Estado dos EUA empurraram o governo Trump a agredir o Irã e iniciar uma guerra regional e, possivelmente, mundial. Agora, quando a resposta iraniana afeta a economia mundial e põe em xeque a dominação do imperialismo no Oriente Próximo, esses mesmos governos procuram aparecer como se a guerra fosse apenas uma aventura pessoal de Trump.
No fim de semana, o presidente norte-americano havia exigido que os países da OTAN e os grandes importadores de petróleo se unissem à operação. Chegou a ameaçar os aliados que recusassem apoio, dizendo que enfrentariam “um futuro muito ruim”. Em outra declaração, citou nominalmente China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido como países que deveriam participar.
Ao mesmo tempo em que faz ameaças, Trump tenta demonstrar força com números grandiosos. Nesta segunda-feira (16), afirmou que mais de 100 embarcações iranianas teriam sido “afundadas ou destruídas” desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, além de falar em forte redução dos ataques iranianos com mísseis e VANTs. Em outro momento, Trump chegou a afirmar o absurdo de que os EUA haviam destruído toda a Marinha iraniana. Mas se isso tudo é verdade, então como é que o Irã consegue manter controle sobre o Estreito de Ormuz de maneira absoluta?
A posição iraniana, por sua vez, permaneceu firme. O comandante naval do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), Alireza Tangsiri, declarou que o estreito não foi bloqueado militarmente, mas está sob controle. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o Estreito de Ormuz permanece aberto, mas fechado aos petroleiros e embarcações dos inimigos do Irã, isto é, dos países que atacam a República Islâmica e de seus aliados. “Os demais estão livres para passar”, declarou.
Na prática, vários países já aceitaram negociar diretamente com Teerã. A Índia confirmou que duas de suas embarcações cruzaram o estreito após conversas com o Irã. Uma embarcação turca também recebeu autorização. A situação mostra que o controle iraniano sobre a passagem não corresponde a um bloqueio indiscriminado, mas a uma medida de guerra dirigida contra os agressores.
O novo fracasso de Trump lembra outra tentativa recente dos EUA de montar uma coalizão naval na região. Depois que o Iêmen iniciou o bloqueio no Mar Vermelho em apoio à Palestina, em 2023, os EUA lançaram a operação Prosperity Guardian, destinada a proteger a navegação e intimidar as forças de Sana. A iniciativa não conseguiu reunir apoio suficiente e fracassou.
Agora, com o Estreito de Ormuz sob controle iraniano e com o Ansar Alá declarando que está pronto para intervir ao lado dos aliados do Irã, o imperialismo enfrenta a possibilidade de ver ameaçadas duas rotas energéticas centrais ao mesmo tempo. Enquanto isso, Trump segue anunciando uma coalizão que, até o momento, existe apenas em suas declarações.



