Rio Grande do Sul

Brigada Militar de Porto Alegre detém palestino e proíbe ato pró-Irã

Repressão policial antecede ato de solidariedade ao Irã em Porto Alegre: ativista Nader Baja foi detido em censura prévia em frente ao Consulado dos EUA

Nesta segunda-feira (9), a Brigada Militar do Rio Grande do Sul deteve um militante da causa palestina em frente ao Consulado dos Estados Unidos antes de um ato pró-Irã começar. O ato de solidariedade ao povo iraniano, programado para o período da noite e organizado pela Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino, foi impedido de ocorrer.

O militante Nader Baja, conhecido ativista da causa palestina na região, foi detido pela Brigada Militar antes mesmo do início da manifestação, em uma ação que militantes da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino ouvidos por este Diário classificam como repressão preventiva e tentativa de intimidação do movimento.

O agrupamento estava marcado para 18h30, com concentração inicial em frente a um supermercado Carrefour próximo ao local, seguida de deslocamento até a frente do consulado. Os participantes pretendiam realizar uma vigília em memória das meninas assassinadas no recente bombardeio à escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, em ataque dos Estados Unidos e de “Israel” no âmbito da agressão imperialista contra o país persa. O bombardeio, ocorrido em 28 de fevereiro, matou ao menos 168 crianças e feriu mais de 90.

Os simpatizantes da causa palestina que pretendiam se manifestar levavam bonecas representando as vítimas infantis e imagens das meninas mortas, além de velas que seriam acesas. Ao DCO, Cláudia, militante da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino, afirmou que as pessoas presentes estavam apenas montando o cenário para o ato, colocando as bonecas no chão e preparando as fotos para expor e que não havia gritaria, barulho ou qualquer perturbação, pois o ato nem havia começado.

Por volta das 19h, equipes da Brigada Militar chegaram armadas com fuzis. Os agentes apreenderam imediatamente os materiais, bonecas, cartazes e imagens e iniciaram detenções. Os bonecos foram desmanchados no local pelos policiais.

Nader Baja, identificado pela polícia como o “líder” do movimento, foi levado em separado. Inicialmente, os agentes tentaram pressionar os demais manifestantes a assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) como testemunhas, acusando Nader de “perturbação da paz” por supostamente liderar o movimento que viria a se manifestar. Em troca da assinatura, os outros seriam liberados e apenas Nader seria conduzido. Os demais detidos disseram aos policiais que também eram organizadores do ato, assim como Nader, e, por isso, se ele fosse levado, todos deveriam ser conduzidos também até a delegacia.

Diante da recusa, os policiais liberaram os demais detidos após algum tempo, conduzindo somente o militante palestino Nader, sem informar inicialmente o destino dele. Somente após insistência e pressão dos que pretendiam se manifestar, os agentes revelaram que ele havia sido levado ao Palácio da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, na Avenida Ipiranga.

No Palácio da Polícia Civil, a acusação inicial de perturbação da paz foi alterada ao longo da noite. Policiais mencionaram “incitação ao ódio” e “porte de agentes químicos inflamáveis”, alegando a presença de velas entre os materiais, itens que seriam usados na vigília em homenagem às vítimas de Minab.

Além disso, os agentes citaram uma suposta denúncia de alguém próximo que teria se incomodado com a preparação do ato, conforme relato dos militantes da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino. No entanto, o consulado não fica em área residencial e não havia barulho ou perturbação. Apesar da alegação de ter havido uma denúncia que justificasse a repressão policial preventiva, segundo o advogado que deu assistência ao militante Nader, não havia nenhuma menção no termo circunstanciado a qualquer denúncia feita à polícia solicitando a intervenção dela no ato.

Outro episódio chamou a atenção: uma pessoa que passava pelo local, alheia ao grupo, gritou algo contra Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e foi detida brevemente, mas liberada sem ser levada à delegacia.

Com a informação de onde o militante Nader estaria preso, os apoiadores da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino dirigiram-se ao Palácio da Polícia Civil. Cerca de 15 pessoas estiveram presentes no Palácio em apoio a Nader. O delegado responsável chegou por volta das 22h. O ativista foi levado a depoimento acompanhado de um advogado simpatizante da Frente Gaúcha.

Após negociações, Nader assinou um Termo Circunstanciado apenas pela acusação de perturbação do sossego.As menções sobre incitação ao ódio e porte de inflamáveis foram retiradas. No documento final, não consta referência à denúncia de “alguém incomodado”, apesar de ter sido verbalmente mencionada pelos policiais, conforme relato de militantes da Frente.

Por volta das 22h50, após a liberação, integrantes da Frente Gaúcha saíram da delegacia e emitiram uma declaração conjunta denunciando o episódio como tentativa de criminalização da solidariedade ao povo palestino e de intimidação contra atos de protesto legítimos.

“Nós nem chegamos a conseguir fazer o ato, porque, quando nós estávamos colocando as bonecas que representavam os corpos dessas meninas em frente ao consulado dos EUA e as imagens das meninas, nós fomos abordados de maneira violenta pela Brigada Militar, que nos abordou com um grupo grande de policiais, com fuzis, e chegaram gritando conosco dizendo que era para a gente não olhar para trás, colocar as mãos na cabeça e eles agiram de forma violenta conosco, nos revistaram de forma agressiva, mexeram as nossas mochilas, os nossos pertences pessoais e arrebentaram as bonecas”, afirmou Cláudia, uma das militantes entrevistadas por este Diário.

Outro lado

O Diário Causa Operária tentou entrar em contato com a Polícia Civil, exigindo posicionamento oficial. Até o fechamento desta edição, não houve retorno por parte da corporação.

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