Ásia

Afeganistão alerta Paquistão contra escalada de conflito

Chefe do Estado-Maior afegão afirma que novas agressões podem tornar “insegura” até mesmo a capital paquistanesa, Islamabade

As tensões entre Afeganistão e Paquistão se agravaram nesta sexta-feira (27) após declarações de altos oficiais militares afegãos advertindo o governo paquistanês contra a continuidade das hostilidades na fronteira. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Afeganistão e comandante das operações contra o Paquistão, Fasihuddin Fitrat, afirmou que Cabul responderá “com firmeza” a qualquer ataque e disse que novas agressões podem atingir diretamente a segurança de Islamabade.

“Se eles [o Paquistão] cometerem agressão contra qualquer área do nosso país, receberão a mesma resposta. Estamos confiantes de que, se quiserem minar a segurança do Afeganistão, nossas forças são capazes de tornar os centros, até mesmo a capital, Islamabade, insegura”, declarou Fitrat em mensagem de vídeo publicada na página do Ministério da Defesa afegão na rede X.

A fala ocorre em meio ao aumento de confrontos ao longo da fronteira, com ambos os lados se acusando de ataques transfronteiriços e de violações do espaço aéreo. Autoridades afegãs também alegaram que aeronaves paquistanesas seguem atuando sobre território afegão. “Aviões paquistaneses ainda estão patrulhando no [espaço aéreo] do Afeganistão”, afirmou Zabihullah Mujahid, segundo o canal Ariana News. O governo paquistanês não apresentou resposta imediata às falas mais recentes.

Enquanto Cabul afirma enfrentar agressões e violações aéreas, o Exército paquistanês divulgou números elevados de baixas do lado afegão. Em comunicado, o porta-voz das Forças Armadas do Paquistão, Ahmed Sharif Chaudhry, afirmou que 274 combatentes do Talibã teriam sido assassinados e mais de 400 pessoas feridas em confrontos noturnos, no âmbito da Operação Ghazab lil-Haq (“Fúria Justa”). As autoridades afegãs não confirmaram esses números.

A escalada desta semana sucede uma operação militar descrita pelo Ministério da Defesa do Afeganistão como retaliação contra posições paquistanesas ao longo da chamada Linha Durand. Em nota, o ministério afirmou que a ação foi lançada após bombardeios paquistaneses que causaram vítimas civis. “À meia-noite, por ordens diretas do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Emirado Islâmico do Afeganistão, a operação militar foi conduzida com sucesso”, declarou o órgão, afirmando que postos militares do Paquistão em províncias do leste e do sudeste foram atacados e que houve perdas de tropas e equipamentos do lado paquistanês, além de baixas também entre forças afegãs.

O conflito ocorre em meio a ataques cruzados e relatos de novos bombardeios. Durante a noite, a Força Aérea do Paquistão bombardeou alvos em Cabul, Kandahar e na província de Paktia, em resposta a operações transfronteiriças atribuídas ao Afeganistão no dia anterior. Islamabade atacou território afegão no sábado passado, alegando reação a atentados suicidas e outros episódios violentos em solo paquistanês reivindicados pelo Tehrik-i-Taliban Pakistan e pelo Estado Islâmico da Província de Khorasan.

Diante da crise, integrantes do BRICS se pronunciaram pedindo o fim imediato dos confrontos. A Rússia declarou acompanhar de perto a situação e afirmou que choques diretos “não trazem nada de bom” para a estabilidade regional. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, pediu que os dois países abandonem a confrontação e retomem o diálogo político e diplomático.

A China disse ter atuado por canais próprios para contribuir com a redução da tensão e afirmou observar com “profunda preocupação” os acontecimentos, lamentando as vítimas. Em entrevista coletiva, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, advertiu que o prolongamento ou a intensificação do conflito trará mais danos e perdas para ambos os lados, defendendo conversações e negociação para alcançar cessar-fogo “no menor tempo possível”. O governo iraniano também chamou Afeganistão e Paquistão ao diálogo e disse estar disposto a mediar uma solução política.

A Índia, por sua vez, condenou os confrontos e afirmou que bombardeios conduzidos por Islamabade buscam desviar a atenção de problemas internos do Paquistão. O porta-voz da chancelaria indiana, Randhir Jaiswal, declarou que as incursões aéreas paquistanesas, que teriam provocado vítimas civis, seriam “uma nova tentativa de externalizar fracassos domésticos”, ao mesmo tempo em que reiterou apoio à soberania e à integridade territorial do Afeganistão.

A fronteira entre Afeganistão e Paquistão, conhecida como Linha Durand, foi estabelecida em 1893 pela administração britânico-indiana. Após a independência do Paquistão, em 1947, o Afeganistão não reconheceu oficialmente o traçado, alimentando disputas por décadas. Nos últimos meses, o Paquistão registrou aumento da violência, sobretudo em Khyber Pakhtunkhwa e Baluchistão, com ataques atribuídos a grupos “terroristas”. Em 6 de fevereiro, o Estado Islâmico reivindicou um atentado contra uma mesquita xiita em Islamabade, o mais letal na capital desde o ataque ao Hotel Marriott, em 2008, que deixou 60 mortos.

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