O chanceler do Irã, Abbas Araghchi, afirmou nesta quinta-feira (26) que a terceira rodada de conversas indiretas com os Estados Unidos, realizada em Genebra com mediação de Omã, foi uma das “melhores”, “mais sérias” e “mais longas” até agora. Ao falar com jornalistas ao fim da reunião, ele declarou que Teerã e Washington se aproximaram de um entendimento em alguns pontos e entraram numa análise “séria” dos elementos de um possível acordo, tanto no tema nuclear quanto no levantamento de sanções.
Araghchi disse que foram cerca de seis horas de tratativas no total, “aproximadamente quatro horas” pela manhã e “duas horas” à tarde, e que o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Al Busaidi, atuou novamente como mediador. Ele acrescentou que o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, transmitiu pontos técnicos entre os dois lados e que sua presença foi “tecnicamente útil”.
Rodada longa e equipes técnicas em Viena
De acordo com Araghchi, “bom progresso” foi alcançado e as delegações iniciaram uma revisão detalhada dos termos de um acordo. “Em alguns assuntos, os entendimentos ficaram muito próximos”, afirmou, acrescentando que ainda há divergências, mas que, em comparação com o passado, as partes demonstraram “maior seriedade” para uma solução negociada.
O chanceler disse que ficou acertado que, a partir de segunda-feira (2/3), equipes técnicas começarão em Viena, na AIEA, “revisões técnicas detalhadas” para organizar questões específicas dentro de um marco definido, que depois seria alinhado com as exigências políticas de ambos os lados. Araghchi informou também que a quarta rodada deve ocorrer “em breve”, com expectativa de que seja em cerca de uma semana, após preparo de documentos e consultas às respectivas capitais.
Em declaração à Press TV no local das conversas, Araghchi disse que houve discussões “muito intensas e detalhadas” e que foi possível “definir os elementos principais” de um possível acordo e debater esses pontos. Ele repetiu que ainda existem diferenças, mas afirmou que, “na maioria dos casos”, há ao menos um entendimento geral de como resolver as questões.
Sanções e Conselho de Segurança
Araghchi afirmou que o tema das sanções foi tratado extensamente e que o Irã apresentou com clareza suas expectativas: quais medidas devem ser adotadas, quais sanções norte-americanas devem ser retiradas e qual procedimento deve ser seguido em pontos vinculados ao Conselho de Segurança da ONU. Segundo ele, essas divergências e medidas necessárias foram expostas por Teerã, e o tema será examinado “com mais detalhe” na próxima sessão.
Escopo das conversas, diz Baghaei
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse à televisão estatal iraniana, também nesta quinta-feira (26), que as conversas indiretas com os Estados Unidos estão “estritamente limitadas” ao dossiê nuclear e ao levantamento de sanções “sobre o povo iraniano”. Baghaei rejeitou especulações e afirmou que o que circulou até então eram conjecturas “que não podem ser confirmadas”.
Baghaei descreveu a reunião como “séria”, disse que propostas “importantes e práticas” foram apresentadas sobre a questão nuclear e alívio de sanções e que a avaliação de resultados deve ocorrer após a conclusão da segunda sessão. Ele afirmou ainda que as delegações interromperam a rodada para consultar suas capitais antes de retomar as tratativas.
Pressão e ameaças dos EUA
As conversas ocorrem quase oito meses após negociações anteriores terem sido interrompidas depois de ataques de “Israel” à República Islâmica, em junho de 2025. Nos Estados Unidos, o vice-presidente JD Vance disse na quarta-feira (25), em entrevista ao programa America’s Newsroom, da Fox News, que Donald Trump “continua” favorecendo uma via diplomática, ao mesmo tempo em que repetiu que o presidente norte-americano afirma que o Irã não pode ter arma nuclear e que dispõe de “outras ferramentas”.
As declarações se somam ao tom elevado do governo Trump nas últimas semanas. O próprio Trump, em pronunciamento recente, afirmou que o Irã desenvolve mísseis capazes de ameaçar a Europa e bases norte-americanas no exterior e que estaria trabalhando em mísseis que “em breve” alcançariam os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que confirmou a existência de conversas mediadas.
Antes da rodada em Genebra, Araghchi disse em entrevista à India Today, na quarta-feira (25), que um acordo “justo, equilibrado e equitativo” é possível. Ele afirmou que a negociação é a melhor forma de resolver o impasse, disse que não existe “opção militar” para o programa nuclear pacífico iraniano e declarou que Teerã está disposto a responder a dúvidas e remover preocupações, mas não abrir mão do direito ao uso pacífico da tecnologia nuclear.
Na mesma entrevista, Araghchi disse que o Irã está preparado para “guerra e paz” e que as Forças Armadas estão prontas, afirmando que o objetivo é evitar uma guerra.
Alegações de ‘bomba’
Paralelamente, especialistas e diplomatas contestaram declarações do negociador-chefe de Washington, Steve Witkoff, que afirmou que o Irã poderia estar a “uma semana” de obter material para produzir armas nucleares em escala industrial. O Wall Street Journal registrou que análises de imagens de satélite e avaliações de monitoramento internacional indicam que o programa nuclear iraniano permanece efetivamente congelado após a agressão de 12 dias conduzida por “Israel” e pelos Estados Unidos em junho do ano passado.
O ex-inspetor de armas da ONU David Albright disse que imagens de satélite e o acompanhamento de instalações nucleares apontam que o programa está paralisado. Robert Einhorn, ex-funcionário do Departamento de Estado especializado em não proliferação, afirmou que o enriquecimento está efetivamente suspenso e que não há enriquecimento em curso no Irã.
O diretor da AIEA, Rafael Grossi, disse em outubro que não havia prova de retomada do enriquecimento após os ataques. Naquele mesmo período, Grossi afirmou que a agência tinha uma “firme impressão” de que estoques de urânio altamente enriquecido permaneciam enterrados em locais atingidos pelos ataques de 2025.
Alertas sobre o custo de uma guerra
O ex-diretor-geral da AIEA Mohamed ElBaradei escreveu na quarta-feira (25), em publicação na plataforma X, que os Estados Unidos intensificam o “tamborilar” da guerra contra o Irã e que toda guerra tem custos “horríveis”, lembrando restrições do direito internacional. ElBaradei afirmou que Washington não apresentou base legal para uso da força nem evidência de “ameaça iminente” além de cenários hipotéticos, e comparou o ambiente atual ao precedente da invasão do Iraque, sustentada por acusações farsescas.
Também na terça-feira (24), o ex-diretor da CIA e general aposentado David Petraeus disse à revista Foreign Policy que uma eventual guerra contra o Irã pode se transformar em catástrofe militar para o governo Trump. Ele afirmou que a avaliação estratégica não deveria se apoiar no precedente da agressão conduzida em Caracas em 3 de janeiro, que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, e citou fatores como limitações de meios militares, incerteza sobre a localização de lançadores e arsenais de mísseis iranianos e possibilidade de retaliação por forças de resistência na região.
Petraeus mencionou ainda a escassez de mísseis antiaéreos e antimísseis dos EUA, apontando que parte do arsenal foi empregada no conflito de 12 dias de junho de 2025 para defender “Israel” e que outros lotes foram enviados à Ucrânia. Ele também lembrou o fracasso da operação norte-americana Garra de Águia, em 24 de abril de 1980, no Irã, como exemplo de risco de uma escalada militar.





