As Forças Terrestres do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) realizaram, nesta terça-feira (24), um exercício combinado de grande escala na costa sul do Irã, no Golfo Pérsico. De acordo com comandantes iranianos, a manobra serviu para demonstrar o emprego de tecnologias modernas no combate e a aplicação de táticas atualizadas diante das ameaças existentes contra o país persa.
A simulação reuniu várias unidades das Forças Terrestres do CGRI e, em etapas planejadas previamente, praticou um cenário de “defesa sólida” do litoral e das ilhas iranianas. Forças especiais também entraram em ação para enfrentar o inimigo e impedir sua aproximação da costa. O general de brigada Mohamad Karami, comandante das Forças Terrestres do CGRI, afirmou que todas as forças em diversos campos, incluindo mísseis, artilharia, drones, forças especiais, veículos blindados e cavalaria, executaram ações planejadas “em função das ameaças existentes”.
Segundo informações divulgadas por autoridades, a manobra se concentrou na costa sul, mas exercícios semelhantes também vêm ocorrendo em outras partes do país. Nessas áreas, unidades de mísseis engajaram alvos a diferentes distâncias com sistemas “novos e diversos”. A defesa passiva foi implementada integralmente e, no campo da guerra eletrônica, foram realizadas ações de ofensiva e de defesa eletrônica.
Em material divulgado sobre o exercício, oficiais iranianos descreveram o treinamento como parte de esforços para reforçar a prontidão defensiva e proteger as aproximações marítimas do sul do país. A manobra ocorreu em províncias do sul e em ilhas no Golfo, com a base Madinah Munawwarah exercendo papel operacional central. Ainda segundo autoridades, houve operações de tiro real controlado, calibradas ao alcance e às especificações de sistemas de armas recém-introduzidos, e táticas coordenadas integrando tecnologias modernas para ampliar a efetividade de combate. Veja:
O exercício ocorre em meio ao aumento das tensões na região, diante de ameaças dos Estados Unidos contra o Irã e do crescimento do deslocamento militar norte-americano nas proximidades das costas do país. Enquanto Teerã e Washington mantêm negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano, sob mediação de Omã, o presidente norte-americano Donald Trump voltou a ameaçar ataques caso as conversas não resultem no que ele pretende.
Na segunda-feira (23), Trump publicou na rede Truth Social que o Irã enfrentaria “um dia muito ruim” se não aceitar um acordo nuclear. Na mesma publicação, o presidente atacou reportagens que atribuíam ao chefe do Estado-Maior Conjunto, general Daniel Caine, preocupações sobre os riscos de uma campanha contra Teerã, e escreveu: “eu sou quem toma a decisão. Eu preferiria ter um acordo, mas, se não houver acordo, será um dia muito ruim para o Irã”, escreveu Trump. Ele também afirmou que é “100% incorreto” dizer que o general Daniel Caine seria contra uma guerra e declarou que, na avaliação do militar, uma campanha seria “facilmente vencida” e que ele “lideraria a ofensiva” se recebesse essa ordem.
Anteriormente, o chanceler iraniano Abbas Araghchi declarou que o programa nuclear do país é pacífico e que “zero enriquecimento” é inaceitável. Ele também classificou o programa de mísseis como “linha vermelha”, e advertiu que, caso o Irã seja atacado, poderia atingir bases norte-americanas na região. No parlamento iraniano, o porta-voz do Comitê de Segurança Nacional e Política Externa, Ebrahim Rezaei, escreveu na rede X que “as negociações de quinta-feira são um teste para Trump e determinarão se soldados americanos irão para o inferno ou retornarão à América”.
Do lado iraniano, autoridades insistem que Teerã “opta pela diplomacia”, mas afirma estar pronto para “qualquer cenário”. Declarações divulgadas junto ao anúncio do exercício afirmam que qualquer agressão ao país, “por mais mínima que seja”, poderia desencadear uma guerra regional de grande escala.
Nesta terça-feira, em paralelo às manobras, o ministro da Defesa do Irã, general de brigada Aziz Nasirzadeh, afirmou que o país não busca guerra, mas que, se um conflito for imposto, responderá com firmeza e “ensinará aos inimigos uma lição inesquecível”. Em declarações, ele destacou a necessidade de preservar a soberania dos Estados da região, rejeitou a intervenção externa e disse se opor a qualquer alteração do ordenamento político regional. Em encontro com o ministro da Defesa da Armênia, Suren Papikyan, Nasirzadeh agradeceu a postura armênia de condenar agressões de Estados Unidos e do regime de “Israel” contra a República Islâmica, e ressaltou a importância de trocar pontos de vista sobre questões fronteiriças, de segurança e geopolíticas, afirmando que as relações com Erevan se baseiam na paz e na amizade.
Papikyan, por sua vez, declarou que a paz e a segurança beneficiam todos os países e disse que a Armênia apoia o processo de paz. O ministro armênio afirmou que Irã e Armênia são vizinhos comprometidos e que “a estabilidade e a inviolabilidade das fronteiras entre ambos os países são de vital importância para nós”. Ele também se reuniu com o ministro iraniano Nasirzadeh.
O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, general de divisão Abdolrahim Musavi, também elevou o tom ao tratar das ameaças dos EUA. Em reunião nesta terça-feira com Papikyan, Musavi afirmou que o Irã não iniciou guerras, mas que “mudou seu enfoque” em razão das ações dos Estados Unidos. “Esta vez, se comete um erro, infligiremos grandes baixas ao inimigo e nossa nação e Forças Armadas estão decididas a enfrentar o sistema de dominação até o final”, disse. Musavi acrescentou que a presença de potências extrarregionais prejudica os interesses dos povos e atua como fator de instabilidade, e afirmou que o mundo atravessa uma transição para fora de uma era unipolar, processo que, segundo ele, os norte-americanos tentariam impedir por “ações ilegítimas e ilegais”. O general também se referiu à guerra de 12 dias travada em junho por “Israel” e Estados Unidos contra a República Islâmica, relembrando que, apesar de ferimentos e do martírio de comandantes, cientistas e civis, as Forças Armadas, com apoio popular, obrigaram o inimigo a pedir cessar-fogo.
No campo diplomático, o vice-chanceler iraniano para Assuntos Políticos, Mayid Tajt Ravanchi, declarou em entrevista à rádio norte-americana NPR, publicada nesta terça-feira, que Teerã está pronto para chegar a um acordo “o mais rápido possível”, e que fará “tudo o que for necessário” para isso. Ele afirmou que o único tema na reunião de quinta-feira em Genebra será a questão nuclear, e pediu que os Estados Unidos priorizem a diplomacia: “centremo-nos na diplomacia, já que a diplomacia beneficiará a todos… Não existe nenhuma solução militar para o caso nuclear do Irã”. Tajt Ravanchi advertiu que, se uma guerra estourar, não será possível contê-la e que iniciar um conflito pode ser possível, mas encerrá-lo “não será fácil”, além de dizer que toda a região sofreria consequências. Ele também declarou que, se os Estados Unidos atacarem, o Irã não ficaria em silêncio e atingiria ativos e objetivos norte-americanos na região.
A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohayerani, declarou, também nesta terça-feira, que diplomacia e dissuasão são duas linhas voltadas a preservar a dignidade nacional e garantir interesses nacionais, e que, junto ao acompanhamento “sério e decidido” da via diplomática, o fortalecimento de uma dissuasão firme está no plano das Forças Armadas. Ela afirmou que as recentes manobras mostraram a preparação do país diante de ameaças e disse que as Forças Armadas monitoram “cada ameaça”, mantendo plena prontidão. Em tema interno, Mohayerani destacou a importância do diálogo com estudantes, pediu engajamento racional sem cruzar “linhas vermelhas”, e afirmou que “inimigos buscam dividir o Irã e vender ilusões”, defendendo mais unidade e coesão nacionais.
Nos últimos dias, o Irã também realizou exercícios navais conjuntos com a Rússia no Golfo de Omã e no norte do oceano Índico, apontando para um aprofundamento da coordenação militar entre os dois países.





