A nova leva de documentos liberada pelo Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) no caso Jeffrey Epstein voltou a escancarar não apenas a rede de exploração sexual ligada ao financista, mas também novos dados sobre os crimes do Estado de “Israel”. Entre os materiais hospedados na biblioteca oficial do DOJ, o arquivo identificado como EFTA00692878 vem sendo apontado nas redes por trazer um trecho de e-mail datado de 20 de setembro de 2012 em que um remetente, com o nome tarjado, teria alertado Epstein de que “algo ruim” estava para acontecer em “Israel”. O escândalo está, em primeiro lugar, no fato de que um documento assim esteja no acervo oficial, enquanto a parte essencial — quem escreveu e as circunstâncias — segue protegida por tarjas, impedindo qualquer verificação pública séria.
O DOJ anunciou em 30 de janeiro de 2026 a publicação de mais de 3 milhões de páginas adicionais, somando cerca de 3,5 milhões de páginas, além de milhares de vídeos e imagens, em nome da chamada “transparência” do caso Epstein. No mesmo comunicado, porém, o próprio órgão admite que o material divulgado pode incluir documentos e imagens “falsos” ou enviados de forma enganosa ao FBI, porque optou por incluir tudo o que recebeu do público e que fosse “responsivo” à lei. Em outras palavras: o Estado norte-americano despeja uma montanha de arquivos, faz propaganda política no próprio lançamento e, ao mesmo tempo, mantém sob tarja justamente aquilo que permitiria responsabilizar pessoas importantes de seu aparato.
A conexão levantada pelo arquivo EFTA00692878 tem um ponto objetivo: no dia seguinte, 21 de setembro de 2012, ocorreu um ataque na fronteira Egito–Israel, na região do Monte Harif, quando três militantes armados atravessaram a fronteira e abriram fogo contra soldados israelenses que acompanhavam obras da cerca fronteiriça. Um soldado israelense morreu e outro ficou ferido; os três militantes foram mortos no confronto. Na época, a imprensa internacional registrou que um grupo do Sinai, o Ansar Bait al-Maqdis, reivindicou a ação.
Esse ataque, por sua vez, foi imediatamente incorporado à propaganda do governo israelense. Dois dias depois, Benjamin Netaniahu usou o episódio para reforçar a “importância” da cerca na fronteira com o Egito — obra que, além de militarizar a região, também foi apresentada como instrumento para barrar migrantes africanos e consolidar uma política de repressão e segregação.
É aqui que o documento associado a Epstein vira um escândalo político de primeira grandeza. Se um aviso genérico circulava em bastidores um dia antes, por que chegaria justamente a Epstein? Quem tinha acesso a informação sensível a ponto de repassar isso a um operador como Epstein? E, principalmente, por que o DOJ mantém o nome tarjado, impedindo que a sociedade saiba se se trata de alguém ligado a governos, serviços de inteligência, lobby internacional ou redes privadas de “segurança”?
O comportamento do DOJ reforça essa conclusão. No lançamento oficial, o órgão faz questão de dizer que “não redigiu” nomes de “pessoas notáveis e políticos”, mas, na prática, mantém tarjas e barreiras de acesso que bloqueiam justamente a verificação do que importa quando surge um documento potencialmente explosivo: autoria, cadeia de comunicação e vínculos institucionais.
No caso de “Israel”, a questão é ainda mais grave porque o ataque de 2012 aconteceu numa conjuntura em que a fronteira do Sinai já vinha sendo usada como laboratório de militarização, vigilância e construção de barreiras.




