O comandante das Forças Terrestres do Exército iraniano, general Ali Jahanshahi, declarou no sábado (21) que as unidades do país monitoram “em tempo real” todos os movimentos inimigos ao longo das fronteiras e que o nível atual de capacidade permite neutralizar qualquer ameaça “na sua fase inicial”. Em visitas a unidades de fronteira, incluindo inspeção à Brigada 164 de Assalto Móvel, em Piranshahr, Jahanshahi afirmou que a vigilância permanente e o estado de alerta das forças armadas são o principal fator de dissuasão contra “erros de cálculo” dos adversários.
O general disse que a força terrestre mantém prontidão contínua para “salvaguardar o território nacional”, defendeu a incorporação de equipamento moderno e táticas atualizadas para enfrentar ameaças assimétricas e afirmou que exercícios e treinamentos na região devem ocorrer de forma constante. Jahanshahi declarou ainda que as forças armadas “não permitirão” ações de grupos hostis contra o país.
Vigilância no mar e produção militar própria
A posição do Exército é apresentada em linha com declarações anteriores do comandante da Marinha iraniana, contra-almirante Shahram Irani, que afirmou neste mês que as forças navais mantêm vigilância constante sobre movimentos “hostis” nas águas regionais.
Irani também apontou a ampliação das capacidades de dissuasão e destacou que destróieres, submarinos e equipamentos navais são fabricados por engenheiros iranianos, enfatizando a política de produção militar própria.
Sanções, petróleo e conversas indiretas com os EUA
No campo diplomático, um alto funcionário iraniano disse à Reuters no domingo (22) que o Irã e os EUA divergem sobre o alcance e o mecanismo do levantamento de sanções, e afirmou que o Irã não aceitará abrir mão do controle de seus recursos de petróleo e minerais para os Estados Unidos.
O mesmo relato aponta que haverá conversas indiretas com os EUA no início de março e que existe a possibilidade de um acordo temporário. Já ocorreram duas rodadas de negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano, em Mascate e em Genebra. O chanceler Abbas Araghchi declarou que foram acertados “princípios orientadores” e que as partes trabalhariam em direção a um esboço de estrutura, enquanto a Casa Branca sustentou que ainda existem divergências relevantes e que o Irã deveria apresentar uma contraproposta por escrito “nos próximos dias”.
Araghchi também falou por telefone com o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, e afirmou que o Irã pretende defender seus direitos nucleares por meio da diplomacia, dentro do Tratado de Não Proliferação (TNP) e do direito internacional. Os dois discutiram os desdobramentos das negociações indiretas e a cooperação técnica, incluindo temas de salvaguardas e a implementação de uma lei do Parlamento iraniano sobre o programa nuclear. Autoridades iranianas reiteram que qualquer entendimento precisa garantir levantamento “efetivo e verificável” de sanções, com benefícios econômicos concretos.
Prazo de Trump e ameaça de guerra
As conversas ocorrem sob pressão aberta dos EUA. Donald Trump fixou na quinta-feira (19) um prazo de 10 a 15 dias para decidir se seguirá pela via diplomática ou se ordenará ação militar. No sábado, o enviado especial Steve Witkoff disse à Fox News que Trump lhe perguntou por que o Irã não “capitulou” diante da pressão, citando o volume de meios navais e militares deslocados para a região.
Também no sábado, uma fonte iraniana disse à emissora libanesa Al Mayadeen que uma guerra contra o Irã abriria “um caminho inevitável para a desintegração da ordem global”, com consequências que ultrapassariam a região.
Jordânia vira centro de concentração aérea dos EUA
O New York Times publicou em 22 de fevereiro que a base Muwaffaq Salti, no centro da Jordânia, tornou-se um “centro-chave” para preparativos dos EUA. Imagens de satélite registraram mais de 60 aeronaves, mais que o triplo do usual, e dados de rastreamento indicaram ao menos 68 aviões de carga pousando na base desde o domingo anterior. Entre os meios visíveis estariam caças F-35, além de drones e helicópteros. O jornal registrou ainda a instalação de novas defesas aéreas para proteger a base em caso de resposta iraniana.
Autoridades jordanianas disseram ao NYT que o deslocamento ocorre sob um acordo de defesa com os EUA. Ao mesmo tempo, uma fonte jordaniana citada pelo portal israelense Ynet afirmou que, publicamente, a Jordânia tenta sustentar a imagem de neutralidade e de que não permitiria o uso do território para um ataque, enquanto, na prática, facilita a preparação norte-americana.
Autoridades iranianas, por sua vez, já declararam que atacariam estados regionais que colaborem com uma agressão norte-americana ao país.

Porta-aviões, caças e guerra prolongada
O deslocamento para a Jordânia faz parte de uma operação de intimidação maior. O porta-aviões USS Abraham Lincoln e três destróieres estão no Mar da Arábia desde o fim de janeiro. Duas semanas antes, Trump determinou o envio de um segundo porta-aviões, o USS Gerald R. Ford, acompanhado de três destróieres.
Além disso, caças como F-35, F-22, F-15 e F-16 foram vistos seguindo para a Ásia Ocidental a partir de bases nos EUA e na Europa. O aparato inclui ainda 85 aviões-tanque e mais de 170 aeronaves de carga.
Diferentemente das guerras contra o Iraque, os EUA não está deslocando uma força terrestre para a região. Em 1991, os EUA enviaram mais de 500 mil soldados para atacar o Iraque; em 2003, cerca de 250 mil para a invasão e ocupação. Analistas citados pela emissora norte-americana PBS apontam que isso impõe limites ao “pacote de força” atual, mas, ao mesmo tempo, indica preparação para uma ofensiva aérea.
Retirada de efetivos em Catar e Barém
O New York Times informou em 21 de fevereiro que centenas de militares dos EUA foram retirados de bases no Catar e no Barém como “medida de precaução”, com fontes do Pentágono citando temor de resposta iraniana caso os EUA ataque. O movimento incluiu pessoal da base de Al Udeid, em Doa, a maior instalação militar norte-americana na Ásia Ocidental, com cerca de 10 mil soldados, e também instalações no Barém, onde opera a 5ª Frota da Marinha dos EUA.
Depois, autoridades norte-americanas negaram que a retirada estivesse relacionada a receio de resposta iraniana, alegando reposicionamento para “outras missões”. Mesmo assim, o NYT citou advertências de que uma guerra prolongada pressionaria estoques de interceptadores e tornaria bases vulneráveis a fogo contínuo de mísseis. O jornal afirma que ainda permanecem entre 30 mil e 40 mil soldados dos EUA distribuídos por 13 bases na região.
Irã leva ameaças à ONU
Em 19 de fevereiro, o embaixador iraniano na ONU, Amir Saeid Iravani, enviou carta ao secretário-geral Antonio Guterres e ao presidente do Conselho de Segurança, James Kariuki, criticando ameaças norte-americanas e citando referências a operações a partir de Diego Garcia e outras bases. Iravani afirmou que tais declarações violam o Artigo 2(4) da Carta da ONU e disse que, se atacado, o Irã exercerá o direito de autodefesa previsto no Artigo 51.
Na mesma linha, o brigadeiro-general Mohammad Jafar Asadi, da sede central Khatam al-Anbiya, chamou de “gesto teatral” o deslocamento de navios e caças dos EUA e citou a fala do aiatolá Saied Ali Khamenei: “um porta-aviões é um dispositivo perigoso, mas mais perigosa do que o porta-aviões é a arma que pode enviá-lo ao fundo do mar”. Asadi afirmou que as forças iranianas estão prontas e que a resposta a qualquer “tolice” do inimigo será “mais devastadora do que nunca”.



