No dia 21 de fevereiro, o blogueiro Eduardo Guimarães publicou no Brasil 247 o artigo intitulado Folha insinua que Malu Gaspar pode ser presa, no qual sai em defesa virulenta do ministro Alexandre de Moraes e ataca o que chama de “mídia neobolsonarista”. A polemica, no entanto, vai muito além de uma mera briga entre veículos de imprensa: o texto de Guimarães é uma a expressão de uma esquerda pequeno-burguesa aloprada que, em nome de uma suposta “defesa da democracia”, passou a celebrar abertamente o uso do aparato repressivo do Estado para calar o jornalismo investigativo. Ao validar a tese de que jornalistas devem sofrer sanções penais por expor escândalos que atingem a cúpula do Poder Judiciário, essa esquerda abandona qualquer princípio democrático para se tornar a tropa de choque do autoritarismo de toga.
O ponto central do ataque de Guimarães é a reportagem de Malu Gaspar e Lauro Jardim sobre o contrato de R$129 milhões entre o escritório de advocacia da esposa de Moraes e o Banco Master. Para o articulista, a divulgação dessas informações é criminosa e não deve ser tolerada. Ele escreve, com um tom de satisfação indisfarçável, que “liberdade de imprensa não é salvo conduto para cometer crimes a fim de denunciar supostos crimes”. O que Guimarães chama de “crime” é, na verdade, a essência do jornalismo: o acesso a informações de interesse público que o poder constituído tenta manter sob sete chaves. Ao afirmar que o sigilo fiscal de parentes de autoridades é sagrado, mesmo quando há indícios de tráfico de influência, Guimarães propõe a criação de uma casta de intocáveis, cujos negócios privados estariam imunes ao escrutínio da sociedade.
A submissão de Guimarães ao arbítrio chega a ser teórica, ao abraçar conceitos do direito estrangeiro para justificar o injustificável no Brasil. Ele cita entusiasticamente o princípio do Contempt of Court (desacato à corte) para defender que Alexandre de Moraes permaneça como relator de um caso onde sua própria família é a parte interessada. Segundo o autor, “é graças ao conceito do Direito Anglo-Saxão do Contempt of Court que o inquérito dos Vazamentos e uma possível ação penal devem ficar no STF”. Trata-se de uma aberração jurídica defendida por quem se diz progressista: a ideia de que a vítima pode ser o juiz do agressor. Essa esquerda prefere ignorar o devido processo legal e a imparcialidade judiciária para garantir que o “xerife” do STF continue operando sem freios contra qualquer um que ouse questionar sua conduta.
A hipocrisia atinge seu ápice quando o autor confronta as preocupações levantadas pela Folha de S. Paulo e por outros setores da sociedade sobre o risco de prisão de repórteres. Ele desdenha da posição de quem defende a liberdade de publicação, tratando-a como um “belo truísmo que usam o jornal e a jurista golpistas”. Ao ridicularizar a afirmação de que “em democracia nenhuma isso é crime”, Guimarães sinaliza que, para a sua visão de mundo, a democracia brasileira deve ser uma exceção global onde o segredo de Estado e o segredo de gabinete dos ministros valem mais que o direito à informação. Ele chega a comparar o caso com sua própria experiência na Lava Jato, mas com uma conclusão perversa: se ele foi perseguido e “arcou com as consequências”, os outros também devem ser.
O texto no Brasil 247 é o reflexo de uma esquerda que se perdeu completamente na defesa das instituições burguesas. Ao se colocarem como os guardiões da honra do STF, esses setores ignoram que o mesmo Alexandre de Moraes, que hoje eles aplaudem, é um representante direto dos interesses do grande capital e do imperialismo.





