Rui na TV 247

Rui Pimenta: burguesia brasileira quer o que Milei está fazendo

Presidente do PCO disse que Milei mostra “volta da escravidão”, criticou juros a 15% e condenou ameaças de Trump ao Irã

Na edição desta sexta-feira (20) da entrevista de Rui Costa Pimenta na TV 247, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) comentou a ofensiva neoliberal na Argentina, avaliou a política econômica do governo Lula, criticou propostas de restrição a redes sociais, condenou ameaças de Donald Trump ao Irã e tratou do caso Banco Master e de disputas no Supremo Tribunal Federal (STF).

“O que o Milei está fazendo é importante, porque ele está mostrando onde é que eles querem chegar. Para onde a política neoliberal se dirige.”

Ao abordar medidas discutidas na Argentina, Pimenta disse que a propaganda liberal sobre “oportunidade” encobre uma regressão brutal nas condições de trabalho.

“No discurso ideológico é para dar oportunidade, mas na realidade é a volta da escravidão, porque pagar o cidadão em algo que não seja um salário em dinheiro é escravidão, não tem outro nome.”

Para o dirigente, a reação das organizações operárias argentinas não tem sido proporcional ao ataque.

“Infelizmente, até o momento, as organizações operárias argentinas, sindicatos e a esquerda não reagem à altura. A reação é muito fraca diante de um ataque muito forte.”

Pimenta afirmou que o caso argentino antecipa a direção pretendida pela burguesia no Brasil e que a aplicação dessa política se daria em etapas.

“Agora, mais do que denunciar a selvageria econômica total, o importante é mostrar o que espera o Brasil. Essa é a política que a burguesia quer implementar no Brasil.”

“Eles vão através de aproximações sucessivas: fazem um ataque duro, aí vem um governo menos agressivo que fracassa, e vem outro ataque mais duro.”

Ao comentar o cenário econômico interno, Pimenta disse que Bolsonaro não teria conseguido aplicar um programa no padrão Milei por contradições internas, e comparou com a ofensiva de Temer.

“O governo Bolsonaro não foi um governo tipo Milei por uma série de contradições internas. O Temer foi bem mais agressivo, principalmente ao engessar o orçamento público para dar todo o dinheiro para os bancos.”

Ele mencionou que Flávio Bolsonaro estaria acenando ao mercado com uma plataforma neoliberal e avaliou que, mesmo sem garantia de execução integral, o tema pesa no horizonte político.

“Agora o Flávio Bolsonaro está fazendo uma campanha neoliberal e acenando para o mercado. Se ele vai conseguir colocar em prática uma política estilo Milei é uma incógnita, mas a ameaça fica pairando.”

Sobre Lula, Pimenta disse que o governo não teria como assumir um programa de choque sem abalar sua base, mas também não estaria revertendo a orientação econômica.

“Eu também não acho que o Lula vai conseguir conter essa política. O Lula não consegue ser o Milei, senão a base social dele explode, mas ele também não vai fazer o contrário.”

Ele citou como exemplos a política de juros e concessões.

“Já estamos num governo Lula que fez uma série de coisas que vão no sentido dessa política: temos a questão da dívida pública, o Lula elogiando o Galípolo por manter os juros a 15% (que estrangula a economia nacional), e cerca de 150 concessões públicas no final do mandato, que na prática são uma forma de privatização.”

No debate sobre proibições de celulares e acesso a redes sociais, Pimenta disse que a escalada de restrições tende a avançar e que parte da esquerda teria apoiado o primeiro passo.

“Quando lançaram a ideia de proibir o celular na sala de aula, muita gente apoiou. Agora já é a proibição total do jovem de acessar as redes sociais […] A lista de proibições vai aumentar exponencialmente, até chegar às universidades, onde não tem nenhuma criança.”

Ele definiu a medida como tentativa de controle político da circulação de informações, citando a experiência recente da guerra em Gaza.

“O que eles estão procurando fazer? Interditar a comunicação. Nós tivemos a experiência do caso de Gaza […] O progresso na comunicação é progresso.”

Pimenta defendeu que a escola se adapte às tecnologias e criticou o clima de perseguição política associado a campanhas de proibição.

“O ensino deveria se adaptar a essas novas tecnologias, mas a política hoje é de uma histeria de caça às bruxas […] Deveria ter aula na escola explicando o que é a inteligência artificial, como funciona o algoritmo e para que serve, em vez de ficar proibindo.”

Na política internacional, Pimenta disse que Trump usa ameaça de guerra como instrumento de pressão sobre o Irã e rejeitou a pretensão dos EUA de impor condições a um país soberano.

“O Trump está usando a ameaça militar como instrumento de negociação para forçar o Irã a um acordo […] Os Estados Unidos não têm direito nenhum de pressionar o Irã; é uma nação soberana que tem o direito de ter energia nuclear. A ameaça militar é criminosa.”

Ele afirmou que uma guerra teria consequências globais e apontou fatores militares e energéticos, como o Estreito de Ormuz.

“Uma guerra com o Irã causaria uma desestabilização internacional profunda […] O Irã tem o poder de fechar o Estreito de Ormuz e Forças Armadas com capacidade para isso.”

Ao comentar Cuba, Pimenta saudou o envio de painéis solares e alimentos por países que enfrentam o bloqueio e criticou a postura do governo brasileiro em relação à Venezuela.

“Ainda bem que tem alguém que se opõe à monstruosidade do bloqueio […] Em vez disso, eu vi a declaração do Lula hoje de que a preocupação dele é ‘restaurar a democracia na Venezuela’ […] A ideia de restaurar a democracia no país do outro é uma política imperialista e colonialista.”

No tema da crise política interna, Pimenta comentou a homenagem a Lula no Carnaval e disse que o episódio expôs a vulnerabilidade do governo diante do ataque da burguesia.

“A homenagem foi um fiasco político porque toda a burguesia criticou. Foi um golpe de publicidade que deu muito errado e a escola acabou rebaixada.”

Ele avaliou que, com Bolsonaro fora do Planalto, a burguesia alterou seu eixo e passou a mirar Lula visando 2026.

“A política da direita tradicional é ‘nem Lula nem Bolsonaro’. Então, o ataque massivo da imprensa agora visa retirá-lo da eleição.”

Sobre o caso Banco Master, Receita Federal e STF, Pimenta disse que a esquerda não deveria se orientar pela defesa de ministros do Supremo e tratou o tema como potencial instrumento eleitoral.

“Não adianta a esquerda defender o Toffoli ou o Alexandre de Moraes. O papel da esquerda é defender o povo, não as estrepolias financeiras de juízes […] A combinação Banco Master com STF está se transformando no principal problema da eleição de 2026. Eu não vejo dificuldade nenhuma para os capitalistas transformarem isso numa nova Lava-Jato.”

Ele afirmou que apurações não são neutras e defendeu transparência, com retirada de sigilo, para evitar manipulação política.

“Não existe investigação policial isenta, isso é só em filme […] Tem que tirar o sigilo do inquérito para haver transparência, senão vira uma armadilha para manipular inimigos políticos.”

Assista ao programa na íntegra:

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