O Movimento de Resistência Islâmica (Hamas, na sigla em árabe) reiterou que não aceitará um desarmamento unilateral na Faixa de Gaza e denunciou o governo de Benjamin Netaniahu por buscar pretextos para retomar uma ofensiva em grande escala. A posição foi apresentada pelo dirigente Basem Naim em declarações ao sítio Drop Site, em meio à pressão aberta do presidente norte-americano Donald Trump e do primeiro-ministro de “Israel” por uma “desmilitarização total e imediata” como condição para qualquer reconstrução no enclave.
“Está claro que Netaniahu está buscando novas justificativas para continuar a agressão contra Gaza e retomar a guerra”, disse Naim, que afirmou ter participado das tratativas do cessar-fogo. Segundo ele, antes de qualquer debate sobre “confisco” ou entrega de armas, é necessário que o governo de Netaniahu e os mediadores, “com o garantidor norte-americano”, assegurem a implementação integral do que foi acordado na primeira fase do entendimento firmado em outubro, de modo a produzir “uma mudança fundamental” na situação humanitária.
Naim declarou que “a resistência palestina e suas armas são um direito legítimo” e que a exigência de desarmamento “não será aceita por nenhum palestino”. Ele afirmou ainda que “o problema é fundamentalmente político, não de segurança”, e que a solução passa por “pôr fim à ocupação sionista”. “Gaza não é um projeto imobiliário; é parte integral da pátria palestina”, acrescentou.
Exigência de desarmamento e ameaça de guerra
No domingo (15), Trump escreveu na rede Truth Social que seria “muito importante” que o Hamas mantivesse um compromisso com a “desmilitarização total e imediata”. A demanda tem sido apresentada como pré-condição para iniciar qualquer reconstrução em Gaza, sem garantias para a segurança e a soberania palestinas. Um alto funcionário do governo de “Israel” afirmou na segunda-feira (16) que Trump avalia impor um prazo de dois meses para a entrega de armas por parte dos palestinos, sob ameaça de retomada de uma guerra em grande escala se o Hamas não ceder.
O secretário do gabinete de “Israel” e assessor de Netaniahu, Yossi Fuchs, afirmou em al-Quds ocupada que o governo norte-americano solicitou um período de cerca de 60 dias para que o Hamas tenha “a oportunidade” de se desarmar antes de um novo ataque amplo.
“Estamos em completa coordenação com os norte-americanos; este é o pedido deles”, disse Fuchs, afirmando que, se não houver “desarmamento completo” até junho, o Exército israelense retomaria a ofensiva total.
No domingo, Netaniahu também reiterou que a Faixa de Gaza deve ser “completamente desmilitarizada” como condição para avançar para uma segunda fase do acordo — escondendo que a entidade sionista nem sequer respeita os termos definidos para a primeira fase. Em fala em al-Quds ocupada, em evento da conferência de presidentes das principais organizações sionistas norte-americanas, ele afirmou que “desarmar significa entregar as armas” e rejeitou negociações sobre desmantelamento. Na mesma declaração, Netaniahu tratou armas leves como centrais, dizendo que “a arma pesada” em Gaza seria o fuzil AK-47.
Hamas diz não haver proposta formal
Segundo Naim, não há negociação formal com o Hamas há meses. O dirigente afirmou que, apesar de versões sobre rascunhos e preparativos norte-americanos, nada foi apresentado oficialmente ao partido, nem houve reuniões formais para discutir cenários. Ele disse que o Hamas só aceitaria discutir o tema das armas se isso estivesse ligado a um cessar-fogo de longo prazo que imponha restrições a “Israel” e caminhe junto a um processo político que leve ao estabelecimento de um Estado palestino e de uma força armada capaz de se defender.
Naim questionou como falar em desarmamento enquanto a agressão prossegue, citando que “quase 60%” da Faixa de Gaza continua ocupada por “Israel”. Ele também mencionou a formação e o apoio a bandos armados para operações de segurança, como sequestros e assassinatos, e afirmou que a ausência de pactos de segurança recíprocos deixaria “Israel” livre para operar “onde, quando e como quiser” em Gaza.
Armas ‘congeladas’ e pactos de segurança mútua
Em contatos com mediadores regionais, o Hamas sugeriu repetidamente um arranjo de segurança no qual a resistência armazenaria ou “congelaria” suas armas e se comprometeria a não empregá-las em ataques contra “Israel”, como parte de um cessar-fogo plurianual com respaldo internacional. Naim afirmou que qualquer proposta deve se basear em pactos de segurança mútua, e não em exigências unilaterais. Ele citou, como hipótese, um cessar-fogo de três, cinco ou sete anos, com supervisão palestina, árabe e internacional, durante o qual as armas seriam retiradas do terreno e armazenadas, e um governo palestino ou comitê administrativo trataria de assuntos civis e de segurança “sem interferências”.
Dirigentes do Hamas e do partido Jiade Islâmica Palestina sustentaram que a dissolução da resistência armada só ocorreria no contexto de uma força armada palestina reconhecida internacionalmente, capaz de defender território e população.
‘Junta de Paz’ e debate sobre força internacional
As declarações ocorrem quando Trump se prepara para convocar, na quinta-feira (19), a primeira reunião oficial da chamada “Junta de Paz”. Trump anunciou no fim de semana que teria recebido mais de US$5 bilhões em compromissos e que países parceiros prometeram tropas para uma Força Internacional de Estabilização. A Indonésia foi citada como o primeiro país a declarar publicamente participação, mencionando a preparação para um possível envio de até 8.000 militares.
O Ministério das Relações Exteriores da Indonésia afirmou em nota de 14 de fevereiro que sua participação não se destinaria a missões de combate nem de desmilitarização, e que o mandato teria caráter humanitário, com foco na proteção de civis, assistência humanitária e sanitária, reconstrução e formação da Polícia Palestina. A chancelaria indonésia declarou que encerraria a participação caso o emprego da força se desviasse desse mandato.
Naim disse que o Hamas poderia aceitar uma força internacional apenas como zona neutra de contenção entre tropas israelenses e palestinos em Gaza, e criticou pressões do tipo “ou desarmamento ou guerra”, apontando que esse ultimato equivale a repetir a posição do governo de “Israel”.
Violações do cessar-fogo e bloqueio à ajuda
O dirigente do Hamas também vinculou a exigência de desarmamento ao descumprimento do acordo por parte de “Israel”. De acordo com números divulgados pelo Gabinete de Imprensa do Governo de Gaza, desde a entrada em vigor do cessar-fogo em 10 de outubro, foram registradas cerca de 1.620 violações, incluindo tiroteios, bombardeios, ataques aéreos, incursões em áreas residenciais e demolições, com ao menos 603 palestinos assassinados e mais de 1.600 feridos.
Ainda conforme esses números, “Israel” impediu a entrada dos níveis acordados de ajuda e itens essenciais. O volume previsto seria de 600 caminhões por dia, mas a média ficou em torno de 260. No caso do combustível, entraram 861 caminhões de um total de 6.000 previstos. Além disso, “Israel” restringiu a passagem pelo cruzamento de Rafá após reabertura parcial, permitindo aproximadamente um quarto do fluxo previsto de saída e retorno de palestinos, além de avançar posições militares e construir infraestrutura no leste de Gaza, indicando planos de ocupação prolongada.



