Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

Racismo semiótico

Tribunal identitário, a pretexto de corrigir a sociedade, faz a defesa de um sistema cuja lógica é a exclusão

O pavor de qualquer artista ou pessoa pública, nos dias que correm, é o cancelamento, operação de execração social que, mais cruel que o ostracismo praticado na Grécia antiga, condena o implicado à exprobração, ao isolamento e à ruína financeira, com a perda de emprego e contratos. Mais hora, menos hora, um passo em falso e lá está o famoso às voltas com pedidos de desculpas redigidos por assessorias identitárias. Desta vez, foi a “loira do Tchan” que, acusada de racismo, teve de se explicar.

Que fez Carla Perez? A esta altura, todos já sabem: ao desfilar num bloco de Carnaval em Salvador, ela subiu nos ombros de seu segurança para ficar em posição mais alta e ser vista, como muitas moças fazem com seus namorados em shows ao ar livre, frequentados por multidões. O problema, porém, não foi exatamente a ação, mas o fato de o segurança ser um homem negro, o que gerou uma fotografia capaz de acionar o gatilho identitário.

Em uma rede social, segundo o site G1, uma mulher escreveu o seguinte: “Qualquer pessoa com um mínimo conhecimento de semiótica sabe quão lamentável é essa imagem da Carla Perez”. Outra a secundou, explicando: “Brasil, século XXI? 2026, Sinhá (Carla Perez) e seu serviçal em pleno Carnaval de Salvador”. Carla Perez não foi execrada pelo que fez, subir nos ombros de um homem, mas pelo suposto simbolismo da foto.

A comentadora, aparentemente, estava a exigir da dançarina conhecimento de semiótica. Se a moda pegar, estaremos todos fritos. Na prática, talvez seja melhor demitir o funcionário negro e contratar um segurança branco para evitar problemas. De todo modo, a nota da assessoria, redigida em primeira pessoa, foi distribuída à imprensa, como se Perez tivesse feito um curso rápido de letramento semiótico-identitário nas últimas 24 horas (grifos nossos):

“O meu objetivo sempre foi fazer uma despedida inesquecível, à altura do que o Pipoca/Algodão Doce representou para o Carnaval de Salvador, um bloco pioneiro ao pensar na folia para as crianças, abrindo caminhos e criando memórias afetivas para gerações.

Eu subi nos ombros do segurança para conseguir ter o contato físico e, portanto, estar mais próxima das minhas crianças, em momentos pontuais do percurso, devido a minha estatura.

A imagem que ficou é dura, e eu reconheço isso. Ainda que a intenção tenha sido boa, a cena reproduz simbologias que nos atravessam enquanto sociedade. Remete a desigualdades históricas que estruturam o nosso país e que jamais podem ser naturalizadas. Nada justifica.

Absolutamente nada.

Peço desculpas, de forma direta e sincera.

Reconhecer o erro é o meu primeiro passo. O segundo é agir.

O Carnaval de Salvador, a maior festa de rua do planeta, é feito majoritariamente por pessoas negras e para pessoas negras. Ele é expressão de resistência, cultura e potência. Tenho consciência da responsabilidade histórica que isso carrega.

Errei. Reconheço. E, mais uma vez, peço desculpas.

E reafirmo meu compromisso inegociável de combater qualquer prática ou simbologia que reforce o racismo estrutural.

Aqui finalizo, ressaltando meu pedido de desculpas e com o coração cheio de amor, ainda muito emocionada com a despedida de ontem.

Agradeço a compreensão de todos.”

É difícil imaginar esse discurso sair da boca da dançarina que se notabilizou pela coreografia de uma canção que convidava a segurar o tchan, amarrar o tchan e tchan, tchan, tchan, tchan, mas tudo bem. Vale o escrito.

Esse tipo de episódio chega a ser constrangedor. A nota mostra o pavor de ter sua vida arruinada por não ter imaginado como a cena ficaria na foto. Todo o mundo sabe que Carla Perez é uma moça de origem simples, que, criada num bairro de forte cultura negra, em Salvador, está mais próxima da senzala que da casa-grande, onde a internauta tentou entronizá-la.

Enquanto os identitários, refestelados em confortáveis sofás, fazem análises semióticas de botequim, a população negra acorda de madrugada para trabalhar, lotando ônibus e metrôs, ou se vira nos bicos e nas atividades precárias do mundo uberizado, alheia à fotografia do segurança negro, que não é escravo nem escravizado, a sustentar nos ombros a “loira do tchan”, que não é uma “sinhá”.  Entre a realidade e a imagem, os identitários preferem, é claro, a imagem.

É lamentável alguém ter de se desculpar por algo que não fez. Só seria pior se alguma dessas ONGs apoiadas por bancos e organizações internacionais decidisse processar a moça por racismo semiótico. Infelizmente, não é impossível. Os identitários vibram sempre que podem punir um branco qualquer, pois isso reafirma a sua tese de racismo estrutural, ou seja, de um racismo sem classe social, mais próximo de uma perversão psíquica que de causas materiais.

Do ponto de vista do identitarismo, ser branco é ser racista, ser partícipe do célebre “pacto da branquitude”, outro conceito que borra as tensões de classe e põe em oposição pessoas que estariam juntas na mesma luta. Desse ponto de vista, os brancos só podem redimir-se quando aderem à gramática identitária, com seu vocabulário, com sua sintaxe e, ora vejam, com sua semiótica. O ato de contrição é uma nota de assessoria, como essa redigida em nome de Carla Perez.

O problema vai, porém, além de pedir desculpas por ter nascido branco e, portanto, estar sujeito a toda sorte de deslizes linguísticos e semióticos. Para não ser cancelado por esse tribunal anônimo, é preciso comprar o pacote inteiro de uma política conservadora que, a pretexto corrigir a sociedade, faz a defesa de um sistema cuja lógica é a exclusão. Aderir acriticamente a essa política e engrossar a multidão de linchadores virtuais pode, no máximo, apaziguar a consciência pesada de uma pequena burguesia comodista e hipócrita.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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