O Congresso do Peru derrubou nesta terça-feira (17) o presidente interino José Jerí, encerrando um mandato de cerca de quatro meses e empurrando o país para mais um capítulo da crise que se arrasta desde a eleição de 2016. A destituição foi aprovada por 75 votos a favor, 24 contra e três abstenções, e ocorreu a menos de dois meses do pleito presidencial marcado para abril.
Jerí exercia a Presidência de forma interina por ser o presidente do Congresso. Ele assumiu após a queda de Dina Boluarte, destituída em outubro de 2025. Com a censura no Parlamento, Jerí perdeu imediatamente a investidura e o Peru voltou a ficar sem presidente. Nos últimos oito anos, o país já teve oito chefes do Executivo.
A queda foi motivada por investigações abertas contra Jerí. Entre as acusações mencionadas estão supostas reuniões semiclandestinas com empresários chineses que mantêm contratos com o Estado e suspeitas de irregularidades na contratação de funcionárias que teriam se encontrado com ele no Palácio de Governo. As denúncias avançaram no Congresso, viraram moções de censura e terminaram confirmadas na sessão desta terça-feira.
Em declarações reproduzidas pela imprensa peruana, Jerí negou ter cometido crime. Também foi registrado que, oficialmente, ele dizia não pretender disputar as eleições, embora existisse a possibilidade legal de fazê-lo por ser parlamentar. Com o impeachment aprovado, ele pode perder direitos políticos, o que impediria, inclusive, a tentativa de reeleição como congressista.
Novo presidente interino deve sair do Congresso
Com a destituição, o Congresso convocou nova sessão para esta quarta-feira (18), às 18h, para eleger o próximo presidente do Legislativo, que assumirá automaticamente a Presidência interina até 28 de julho, data prevista para o término do atual ciclo de governo e a posse do eleito.
O jornal peruano La República aponta quatro nomes como candidatos à chefia do Congresso: Héctor Acuña (Honra e Democracia), Maricarmen Alva (Ação Popular), Edgar Reymundo (Bloco Democrático Popular) e José Balcázar (Peru Livre). Quem vencer a disputa assume, ao mesmo tempo, o controle do Parlamento e a Presidência interina da República. As próximas eleições gerais estão marcadas para 12 de abril.
Histórico de quedas em série desde 2016
A derrubada de Jerí faz parte de uma sequência de crises e impeachments. Primeiro, Pedro Pablo Kuczynski, eleito em 2016, renunciou em março de 2018 para escapar de impeachment. Em seu lugar, assumiu Martín Vizcarra, destituído em novembro de 2020. Na sequência, Manuel Merino ficou apenas cinco dias no cargo, entre 10 e 15 de novembro de 2020, e acabou substituído por Francisco Sagasti, que completou o mandato até julho de 2021.
Depois, Pedro Castillo, eleito presidente, foi destituído em dezembro de 2022, após passar por duas tentativas de impeachment em 16 meses. Sua vice, Dina Boluarte, assumiu e permaneceu até outubro de 2025, quando também foi derrubada. Jerí entrou por ser presidente do Congresso e agora cai, deixando o país novamente na condição de “governo provisório” comandado a partir do Parlamento.
Denúncias de ingerência dos EUA
Às vésperas da votação que derrubou Jerí, parlamentares denunciaram ingerência do embaixador norte-americano Bernie Navarro, que teria mencionado “consequências” caso o interino fosse afastado.
O tema foi retomado em entrevista do advogado e especialista em direitos humanos Ricardo Soberón, que classificou a situação como uma “crise terminal do sistema político, democrático, representativo”. Para ele, o Peru é um caso extremo: mesmo com oito presidentes em menos de uma década, mantém um modelo econômico que atrai capitais estrangeiros graças aos altos preços internacionais do ouro e do cobre. Soberón afirmou que a população “já não crê em seus políticos”, mas o país segue “absolutamente propício para a intervenção de capitais estrangeiros” que exploram recursos naturais.
O advogado também criticou a atuação do embaixador Navarro, observando que o diplomata “nem sequer apresentou cartas credenciais” e, ainda assim, já se reunia com o presidente agora destituído. Soberón vinculou o assunto ao porto de Chancay, entregue a uma empresa privada, e a decisões que diminuem o controle estatal sobre o empreendimento.
Ainda na mesma entrevista, Soberón enumerou ações atribuídas aos Estados Unidos: a declaração do Peru como aliado extra-OTAN; pressão para a compra de caças F-16 como substitutos na Força Aérea; anúncio de investimento de US$1,5 bilhão para modernizar a base naval da Marinha de Guerra peruana, localizada a cerca de 80 quilômetros de Chancay; e convênios para instalação de um “porto espacial” na base aérea de Talara. Para ele, o conjunto demonstra que o Departamento de Estado “não tem nenhum problema” em pressionar o país à revelia da soberania peruana.
Manobra eleitoral e controle do Congresso
Soberón apontou Keiko Fujimori, líder da Fuerza Popular e candidata recorrente à Presidência, e o empresário César Acuña como figuras que “gerenciam o Congresso” em benefício próprio. Na avaliação do advogado, a queda de Jerí não seria um “golpe de ética”, mas uma manobra eleitoral: forças conservadoras que inicialmente apoiaram o interino teriam se afastado diante das investigações para tentar recompor imagem diante do eleitorado.
O advogado afirmou ainda que o país segue “sequestrado por forças políticas corruptas”, ligadas à criminalidade da mineração do ouro, ao narcotráfico e a esquemas dentro do Estado, e sustentou que esses grupos operam o Congresso desde 2016.





