Polêmica

‘Centro-esquerda’ é a direita neoliberal envergonhada

Articulista tenta fazer um diagnóstico do porquê de a esquerda ter perdido a "disputa de narrativa" para extrema direita, mas ele mesmo defende a democracia liberal

Magritte

O artigo A centro-esquerda e a disputa da narrativa antissistema, de João Antonio da Silva Filho, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (17), diz, resumidamente, que embora a esquerda seja historicamente uma crítica do “capitalismo excludente”, é atualmente a direita que domina a “narrativa antissistema”, e questiona como os setores que defendem o capital conseguiram se apropriar do discurso de rebeldia contra as instituições.

No primeiro parágrafo, Silva Filho diz que “vivemos um paradoxo histórico. Em pleno capitalismo globalizado, a esquerda socialista – tradicional crítica do modelo econômico excludente e concentrador de riquezas – vê a bandeira da luta ‘antissistema’ ser apropriada por setores da direita”. E pergunta: “como explicar que aqueles que historicamente denunciaram as contradições do capital tenham perdido a centralidade dessa narrativa?”.

Para o autor, “a resposta não é simples. Ela exige revisitar as transformações políticas ocorridas após a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o fim da Guerra Fria. No pós-Segunda Guerra Mundial, o mundo se organizou em torno de uma polarização clara: de um lado, os Estados Unidos, símbolo do capitalismo liberal; de outro, a URSS, que se apresentava como herdeira da experiência socialista inspirada por Karl Marx e implementada politicamente por Vladimir Lenin após a Revolução de 1917”.

Essa colocação já expõe o problema, defender que o mundo estaria dividido em dois blocos mascarou o problema decisivo da luta de classes: o mundo estava dividido entre países ricos e países pobres, não em uma parte socialista e outra capitalista.

Essa divisão artificial, além de antimarxista, fez com que a esquerda não fizesse uma crítica consequente do stalinismo, que passou a ser tratado como sinônimo de socialismo, o que foi um grande desserviço, pois se tratava de uma política sobretudo contrarrevolucionária e antioperária.

Segundo o articulista, “durante décadas, o trauma do nazifascismo enfraqueceu a extrema direita europeia. No interior do bloco capitalista, quem consolidou hegemonia foram os defensores da democracia liberal e do Estado de bem-estar social. A estratégia era clara: “entregar os anéis para não perder os dedos”. Reformas sociais, ampliação de direitos trabalhistas e políticas de redistribuição de renda funcionaram como mecanismos de contenção do avanço comunista. A social-democracia assumiu, assim, o papel de harmonizar capitalismo e proteção social”.

Na verdade, a burguesia não sentiu necessidade de recorrer ao fascismo para conter os trabalhadores europeus, uma vez que as políticas de bem-estar social davam serviram como amortecedor das tensões entre a burguesia e o proletariado. Por outro lado, na política externa, o fascismo corria solto nas colônias. Estados Unidos e Europa promoveram todo tipo de guerras e ditaduras sanguinárias pelo mundo para saquear os países pobres e atrasados. Dessa maneira, a crise foi paga pelos países ora chamados de “terceiro mundo”.

O Muro de Berlim

Silva Filho diz que “com o colapso soviético – simbolizado pela queda do Muro de Berlim – desapareceu o principal contraponto sistêmico ao capitalismo. Sem a ameaça do socialismo real, as elites econômicas já não precisavam fazer concessões estruturais. O discurso mudou de eixo. A disputa deixou de ser predominantemente econômica e passou a ser cultural”. No entanto, setores que não se reivindicavam socialistas, como o Partido dos Trabalhadores (PT), se aproveitaram da queda do Muro para abandonarem uma posição que nunca tiveram, ou apoiavam frouxamente. O PT não se reivindicava socialista, falava vagamente em combater a exploração do homem pelo homem.

Quando o autor diz que “a disputa deixou de ser predominantemente econômica e passou a ser cultural”, deveria ter deduzido daí o restante. A esquerda passou a defender a democracia, não o socialismo, não existe a perda de nenhuma “disputa de narrativa”, como o título sugere.

O avanço do neoliberalismo, a entrada da China no mercado fez cair muito o valor da força de trabalho e a esquerda entrou em um período de refluxo.

Para Silva Filho, “é nesse contexto que emerge o que se pode chamar de “individualismo competitivo” como núcleo ideológico do novo conservadorismo. A lógica é simples: cada indivíduo é responsabilizado exclusivamente por seu destino. O sucesso é atribuído ao mérito pessoal; o fracasso, à culpa individual. A solidariedade deixa de ser princípio organizador da vida coletiva e passa a ser vista como obstáculo à eficiência”.

A questão do mérito já tinha sido amplamente contestada, o “sonho americano” foi desmascarado no seio do capitalismo em obras como Sobre Ratos e Homens, de John Steinbeck; ou mesmo na desilusão e contestação da Geração Beat e do movimento hippie.

O “individualismo competitivo” seria, no máximo, uma ideia requentada. O que houve mesmo foi o abandono da esquerda de suas posições históricas, o que vem se agravando.

Neoliberalismo

O avanço neoliberal, com a destruição da força produtiva e liquidação de postos de trabalho, deu lugar aos slogans do tipo “seja empreendedor”, “vença por seus próprios méritos”, “o Estado atrapalha”, “direitos trabalhistas geram desemprego”. E por isso “a meritocracia é apresentada como valor absoluto”.

A questão é que a esquerda não fez a crítica, não demonstrou que, ao contrário do que se pregava, os Estados estavam sendo fundamentais para manter de alguma forma a lucratividade das empresas.

Com a crise de 2008, ficou claro que o capital havia parasitado e corroído os Estados nacionais. A luta “antissistema” vem desses setores médios que vão se empobrecendo em uma velocidade alucinante e revivem um certo nacionalismo. Mas esse nacionalismo não pode fazer uma luta consequente contra o capitalismo. Isso já ficou claro, por exemplo, na Itália, quando Giorgia Meloni, depois de eleita aderiu completamente às diretrizes gerais do imperialismo, o demonstra sua contradição insuperável: a extrema direita não tem nada para oferecer para as classes trabalhadoras.

Adaptação

Silva Filho finaliza seu texto dizendo que “um dos equívocos estratégicos da centro-esquerda nas últimas décadas: ao buscar ampliar sua base eleitoral, passou a assimilar parcialmente o vocabulário e os pressupostos do adversário”. Ao classificar um setor político de esquerda como “centro”, além da imprecisão, o articulista demonstra que a esquerda mesmo já não existe. E não teria havido apenas uma assimilação de vocabulário, mas uma mudança de campo político.

Efetivamente, a esquerda, em sua maioria, abandonou o socialismo, uma luta positiva; e a substituiu por uma política negativa, a “luta antifascismo”, convocando os trabalhadores a se unirem às democracias liberais (vulgo imperialismo) contra a extrema direita. O problema é que essas democracias agem como agiam os fascistas e esmagam todos os direitos e conquistas das classes trabalhadoras.

O último parágrafo do artigo é uma completa adaptação do autor, que diz que “não se trata de negar a importância da responsabilidade individual, da inovação ou da eficiência econômica. Trata-se de recolocar a solidariedade no centro do debate político. Uma sociedade democrática não se sustenta apenas pela competição; ela exige cooperação, reconhecimento das desigualdades estruturais e compromisso com a dignidade humana”. Esse é um discurso que não tem nada a ver com esquerda, muito menos com socialismo. Daria, e olhe lá, para montar uma igrejinha.

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