Os escândalos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal – STF, deixou a esquerda aturdida, como demonstra o artigo É bom preservar o Supremo. Vai que Deus tirou folga e caiu na folia, de Denise Assis, publicado no Brasil247 neste domingo (15). O título chama a atenção, é quase um ato falho, pois ministros do STF têm levado o adjetivo “supremo” ao pé da letra.
O texto inicia com uma brincadeira, diz que em uma visita ao STF, em 2018, o ex-presidente chileno, Sebastián Piñera, teria perguntado a quem recorrer quando “a Corte falha em suas decisões”. E em seguida teria apontado para o céu e ele mesmo respondido: “à instância suprema”.
Apesar da piada, ou do sarcasmo, como se preferir, é assim que as coisas são no Brasil. A burguesia tem utilizado o STF para governar o País e suas decisões passam por cima dos outros Poderes. Para piorar, essas decisões têm sido respaldadas pela maioria da esquerda, que acredita ter como aliado o Supremo.
Segundo Assis, “no dia 12/02, Deus parece ter tirado folga para se preparar para o carnaval. Não compareceu à reunião a portas fechadas – com funcionários dispensados, incluindo copeiros –, onde o coro comeu. Dois dos personagens presentes ao encontro com Piñera, na ocasião, estavam agora, ali e se colocaram firmes pelo afastamento do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, durante a reunião. Isso, depois de chegar às mãos do ministro e presidente da Corte, Edson Fachin, um calhamaço de 200 páginas contendo investigações da Polícia Federal, pedidas ‘por ninguém’, sobre relações de Toffoli com o dono do banco, Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel”. – grifo nosso.
O fato de ninguém ter pedido um documento contendo investigações sem autorização sobre um ministro do Supremo, mostra que a Polícia Federal, outra instituição que essa esquerda acredita que deveria estar acima e de todos, tem levado a sério esse desejo e continua agindo sem freios.
Crise instalada
A reunião, obviamente, foi chamada para tratar do estrago causado à já combalida imagem do Tribunal, além, claro, de se decidir o que fazer para minimizar os prejuízos. No entanto, a reunião foi gravada e parte do conteúdo vazou. O que só piora as coisas.
Dias Toffoli, encurralado, deixou a relatoria do caso Master, e nisso a jornalista conseguiu ver algo de positivo, e diz que “o algoritmo escolheu o ministro André Mendonça para substituí-lo”. É curioso, pois o “algoritmo” que escolheu o bolsonarista Mendonça com certeza é o mesmo que escolheu Toffoli para a relatoria do mesmo caso. A vida é cheia de coincidências, ou esses sorteios no STF têm algo de ‘divino’.
Salvando mais que as aparências
Denise Assis, considerando “tudo o que já se debitou na comanda do ministro Toffoli, [diz que é] melhor não esmiuçar o seu caso aqui, pois gastaria espaço precioso”. Mais do que uma questão de economia de espaço, a jornalista sabe que Toffoli é indefensável, e não apenas ele.
Parece melhor manter a imagem do STF, cita a ministra Cármen Lúcia que disse o seguinte: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”, mas nem poderia ser diferente. No entanto, a jornalista tem outra preocupação; diz que “o vazamento contínuo, insistente e em decibéis acima do normal, na mídia, trouxe de volta o fantasma dos desmandos da Lava-Jato, operação que levou ₢ao descrédito os políticos e abriu caminho para a lorota do ‘outsider’ Jair Bolsonaro”. O que é inevitável, primeiro porque a Lava Jato não teria agido como agiu sem respaldo. Segundo, os métodos do Supremo são os mesmos daquele julgamento-farsa, que só aplaudido porque é dirigido a adversários políticos.
Eleições
O que tem movido a esquerda, há anos, são as eleições. Por isso a jornalista alerta que “sempre que o país está polarizado, ou a corda se estica em ano de eleição, saem da toca os radicais de plantão para ‘semear’ uma narrativa demolidora, ou monta-se uma usina de boatos que tenta varrer de cena a democracia”.
Não se sabe ao certo de qual democracia trata o parágrafo. Há tempos que o País vive sob uma ditadura judiciária.
A articulista mostra preocupação, faz uma analogia do presente momento com 1937, quando, segundo ela, “a divulgação do ‘Plano Cohen’, um documento apócrifo distribuído aos órgãos de imprensa, atribuído ao general Olympio Mourão Filho (o que iniciou o golpe de 1964), e que serviria para justificar a implantação do Estado Novo”. E aproveita para se referir a “1962/1964, com a verdadeira usina de boatos montada pelo Ipês – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais –, até a queda de João Goulart. E [que] não foi diferente quando se planejou a derrubada de Dilma Rousseff, aí sim, com vazamentos da Operação Lava-Jato”.
Denise Assis não é a primeira jornalista que vê no envolvimento de ministros do STF com o Banco Master uma ameaça a Lula, não apenas à sua possível reeleição, como na continuidade do governo, muito dependente do Supremo.
Segundo escreve, “vazamentos seletivos, em ritmo frenético, até que as notícias engrenam e um clima de insatisfação se estabelece na população, que passa a querer o que os jornais querem: a derrubada ou a troca de poder”. Mas a jornalista deveria se perguntar do porquê de duas forças tão diferentes desejarem o mesmo, visto que os jornais (a burguesia) e a população (a classe trabalhadora) são inimigas políticas.
O governo Lula deixou de lado sua base social, buscou apoiar-se na classe média e nas instituições do Estado, mas nenhum desses setores apoiam Lula, apenas o toleram.
Temendo que a extrema direita domine o Senado e derrube os ministros ligados ao julgamento-farsa da “trama golpista”. A jornalista antevê “a libertação descarada de Bolsonaro e seus cúmplices, a tempo de subir nos palanques de Flavio, e completar o serviço tentado desde junho de 2022”.
Em seguida, pondera: “Vamos apostar nesse desfecho, ou vamos ter em mente que é bom preservar o Supremo? É bom preservar o Supremo. Vai que Deus tirou folga e caiu na folia”. O raciocínio, do ponto de vista da classe trabalhadora, é inválido. O STF é seu inimigo, o sucessor de Bolsonaro vai tentar liquidar a economia nacional em favor do imperialismo, mas o governo Lula tem caminhado cada vez mais para direita.
Está na hora da esquerda deixar de lado as ilusões de que seus problemas serão solucionados por meio de eleições. A esquerda, a classe trabalhadora, precisam caminhar definitivamente com um programa próprio, independente, rumo à revolução, que nunca será possível se depender de meios institucionais.





