O portal Poder360 publicou, nesta sexta-feira (13), o conteúdo de uma sessão reservada do Supremo Tribunal Federal (STF) realizada no dia anterior. O portal não revelou sua fonte, o que contribuiu para que aumentasse ainda mais o atrito entre os ministros do STF. Enquanto parte dos magistrados, segundo boatos da grande imprensa, culparam o ministro Dias Toffoli pelo vazamento, Toffoli culpou o sistema de informática da Corte.
Segundo a reportagem do Poder360, a reunião ocorreu em meio à pressão gerada por um relatório de 200 páginas produzido pela cúpula da Polícia Federal e entregue ao presidente do STF, Edson Fachin, por meio do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. De acordo com o relato, o material deveria embasar um pedido para arguir a suspeição de Toffoli na investigação ligada ao Banco Master, descrito como liquidado em novembro de 2025, com rombo “na casa dos R$ 50 bilhões” para o Fundo Garantidor de Créditos. Ainda conforme o texto, o caso poderia ser decidido em plenário no dia seguinte, mas a falta de unanimidade e o risco de o Supremo sair dividido levaram os ministros a discutir uma saída política.
O Poder360 descreve que, entre os 10 ministros que participaram da sessão (com a observação, no próprio texto, de que havia uma cadeira vaga), oito votos estariam alinhados pela permanência de Toffoli como relator e dois sinalizariam posição contrária. O placar apontado era o seguinte: a favor de Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques, além do próprio Toffoli; contra, Cármen Lúcia e Fachin. A matéria informa que, apesar da maioria, a discordância de dois ministros era vista como um problema, porque abriria uma votação sem consenso e manteria o tema em alta.
Antes da sessão ampliada, o texto relata uma conversa ainda mais reservada, com cinco ministros: Fachin, Moraes, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia e Toffoli. Nesse encontro, segundo a reportagem, Toffoli disse que, se a Corte decidisse arguir sua suspeição, ele pretendia “agravar”, isto é, apresentar recursos e “arrastar o caso por algum tempo”. Ainda conforme o relato, Moraes antecipou que votaria pela permanência de Toffoli e classificou como “absurdo” a Polícia Federal ter feito investigação sobre ministro do Supremo sem autorização, argumentando que autoridades com prerrogativa de foro só podem ser alvo de relatório da PF com autorização prévia. Gilmar Mendes, também segundo o texto, informou que votaria a favor de Toffoli e interpretou o movimento da PF como reação a decisões do ministro no caso: “eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar”.
Cármen Lúcia, por sua vez, aparece defendendo uma solução rápida por causa do desgaste institucional e é citada com a frase: “todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”. No mesmo trecho, o artigo diz que ela afirmou ter “confiança” em Toffoli, mas que era necessário “pensar na institucionalidade” e resolver antes do Carnaval para o assunto não continuar “sangrando”, porque “não é só você [Toffoli] que sangra, é Corte inteira”.
No encontro ampliado, Fachin teria relatado que recebeu Andrei Rodrigues e o relatório, e passou a palavra primeiro a Toffoli. O ministro é descrito dizendo “não ter nada a temer” sobre negócios próprios ou de familiares e mencionando, segundo o texto, o caso do Resort Tayaya, empreendimento no norte do Paraná que teria tido, em 2021, participação de pessoa ligada a Daniel Vorcaro, fundador do Master, e que essa pessoa teria deixado a sociedade em fevereiro de 2025. Ainda conforme o relato, Toffoli propôs discutir código de ética no STF e condicionou a ideia a uma divulgação ampla de declarações de Imposto de Renda, empresas e familiares até segundo grau.
Gilmar Mendes interrompeu, dizendo: “nós não estamos aqui para discutir Código de Ética”, e Toffoli respondeu que não abriria as informações “sozinho”. O texto afirma que, na sequência, Toffoli sustentou que a Polícia Federal não teria autoridade para atuar como atuou e que o relatório seria ilegal.
A reportagem descreve uma escalada de críticas à PF durante a sessão. Moraes teria insistido que a apuração sobre Toffoli era irregular e, no mesmo texto, aparece citado em conexão com o caso por causa de contrato da esposa, a advogada Viviane Barci, com o banco de Vorcaro, no valor de R$131 milhões por três anos. Nunes Marques, por seu turno, chamou a arguição de suspeição de “um nada jurídico”, disse ter lido “rapidamente” o relatório e não ter visto “nada” que justificasse suspeição.
André Mendonça, conforme o Poder360, disse que o relatório falava em “relação íntima” entre Toffoli e Vorcaro, mas afirmou: “isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa?”, e também comentou que, se eventos patrocinados fossem critério, “todos nós somos suspeitos de tudo”. Luiz Fux é retratado encerrando seu posicionamento de forma direta: “o ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo”.
O ponto mais escandaloso do texto aparece quando Cristiano Zanin menciona que o relatório citava uma empresa chamada Black Wall Global, descrita na própria reportagem como uma agência israelense-emiradense de inteligência digital, cibersegurança e defesa, fundada por veteranos de unidades de elite de inteligência e “contraterrorismo”. Zanin diz, no relato, que não sabia exatamente do que se tratava e que a referência surgia em mensagem atribuída a pessoa ligada ao banco, indicando que já teria sido apresentado um contrato para o Master contratar os serviços dessa empresa. Nesse momento, segundo o texto, Alexandre de Moraes interrompe e diz: “eu conheço. Isso aí é o pessoal do Mossad”.
O próprio Poder360 informa, em seguida, que a Black Wall Global teria capacidade de descriptografar celulares com senha e acessar conteúdo em nuvem, e relaciona essa informação ao fato de que, na operação citada como “Compliance Zero”, houve aparelhos apreendidos, incluindo o de Daniel Vorcaro, embora “não esteja claro qual tecnologia foi usada pela Polícia Federal” para quebrar sigilos. A passagem, do modo como foi publicada, introduz uma associação direta, feita dentro da sessão, entre o serviço de espionagem de “Israel” e a invasão de celulares de investigados pelo Estado brasileiro.
O desfecho descrito pelo Poder360 é uma solução negociada para evitar que o Supremo fosse a plenário no dia seguinte com divisão explícita. Flávio Dino aparece afirmando que “a crise hoje é política”, chamando o relatório de “lixo jurídico” e defendendo que Fachin resolvesse o assunto “dentro da institucionalidade” da presidência. Mais adiante, o texto atribui a Dino a proposta de uma nota pública assinada pelos ministros em apoio a Toffoli, afirmando não existir suspeição ou impedimento e apontando falta de competência da PF para produzir o material sem autorização, seguida de um gesto de Toffoli para encaminhar a redistribuição do caso.
Zanin, no mesmo trecho, teria observado que reconhecer suspeição poderia tornar nula a coleta de provas, e Dino respondeu:
“E muita gente vai ficar feliz. E talvez seja isso que esteja por trás de tudo”.
Fachin, ainda segundo o relato, insistiu em levar ao plenário, mas Toffoli declarou que entendia ter maioria e que poderia pedir redistribuição “na forma regimental”, acrescentando que sabia que a imprensa noticiaria que ele foi retirado do processo: “Eu sei que a imprensa vai divulgar que eu fui retirado do processo. Eu preferia que fosse diferente, mas se for a decisão hoje para parar hoje… é melhor e eu aceito”. O texto encerra afirmando que Fachin aceitou o encaminhamento e que o caso foi redistribuído, ficando com André Mendonça.





