O escândalo do Banco Master vai deixando de ser apenas mais um episódio de corrupção rotineira do Estado capitalista para se transformar em uma crise política de grandes proporções — e isso acontece, em grande medida, porque o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) reagiu como quem tivesse algo a esconder. A resistência de Dias Toffoli em se afastar do caso, a hesitação, as notas corporativas e a tentativa de “encerrar” o assunto com manobras processuais apenas deram combustível para que os adversários do banco e, sobretudo, do grupo político ligado a ele, intensificassem o ataque contra a Corte.
As denúncias e os indícios apontam que há interesses privados rondando um tribunal que seria, segundo a propaganda da burguesia, ser o “árbitro” do regime. O afastamento de Toffoli do processo, por si só, não resolve absolutamente nada: é apenas a entrega do primeiro anel para tentar salvar os dedos. A “renúncia” do caso é uma tentativa de estancar a sangria sem tocar no essencial — e o essencial é que o STF, como instituição, está sendo colocado no banco dos réus da política nacional.
Um ministro sob suspeita não contamina apenas um julgamento: contamina a própria autoridade do tribunal, isto é, a sua capacidade de cumprir o papel para o qual foi inflado nos últimos anos — o de instrumento do grande capital para controlar a crise do regime, perseguir adversários políticos e impor medidas contra o povo. O STF ganhou poder, cobertura e impunidade; seus ministros passaram a agir como se fossem uma instância acima do País, pisoteando garantias democráticas e transformando decisões judiciais em governo de toga. Mas há um limite: nenhum funcionário do Estado, por mais blindagem que receba, está autorizado a afrontar os interesses do capital financeiro.
É por isso que a crise do Banco Master não aparece como uma “investigação” neutra: ela tem a forma de uma guerra interna da burguesia. O banco teria incomodado gente grande do sistema financeiro — e o sistema financeiro não perdoa. Quando um setor da burguesia decide que um operador virou problema, o recado é simples: quem manda é o dinheiro. Não é Toffoli, não é Moraes, não é ministro nenhum. A burguesia usa o Judiciário como ferramenta; quando a ferramenta ameaça agir por conta própria, ela é substituída — e, se necessário, destruída.
É nesse sentido que Toffoli pode ser apenas o primeiro dominó. Os nomes que circulam — ministros, ex-ministros, políticos, lobistas — mostram que a podridão é profunda. O que veio à tona pode ser só a ponta do iceberg. O temor real dos donos do regime não é que o escândalo retire do STF o verniz de “autoridade imparcial”, anulando sua função de árbitro bonapartista do sistema político. Se o tribunal perde essa aparência, abre-se um buraco no centro do regime, justamente quando a instabilidade social e econômica pressiona por todos os lados.
A história brasileira é repleta de exemplos do que acontece quando um agente do regime acredita ser maior do que seus patrocinadores. O impeachment de Collor, por exemplo, foi motivado por uma operação política do grande capital após a teimosia do presidente em confrontar sua política. A lição é a mesma: a criatura não manda no criador. O porco não manda no dono da pocilga.
O dado novo, agora, é que o STF vinha sendo apresentado como intocável — uma espécie de “poder moderador” de fato, acima de eleições, acima do Congresso, acima de qualquer controle popular. Se a crise avançar, a burguesia pode até sacrificar um ministro para salvar a instituição. Mas pode também, se for necessário, reconfigurar o tribunal inteiro, substituindo peças, queimando biografias, reformando o que for preciso para manter o essencial: o domínio do capital financeiro sobre o país.





